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Interação medicamentosa (IM) é um evento clínico onde os efeitos de um fármaco são alterados pela presença de outro fármaco, alimento, bebida ou algum agente químico ambiental e constitui causa comum de reações adversas (RA). Uma IM do tipo medicamento-medicamento diz respeito à possibilidade de um fármaco alterar a intensidade dos efeitos farmacológicos de outro fármaco administrado concomitantemente, podendo resultar na alteração do efeito de um fármaco ou nenhuma modificação no efeito final, apesar da cinética e do metabolismo de um ou ambos os fármacos terem sido substancialmente alterados. Na prática clínica, muitas das IM têm importância relativa, com baixo potencial lesivo para os pacientes. Porém, há interações com efeitos adversos graves que podem levar o paciente a óbito, ressaltando a importância do conhecimento das interações e da identificação precoce dos pacientes em risco. O envelhecimento da população e o decorrente aumento da prevalência de doenças crônicas são fatores que contribuem para o uso concomitante de vários medicamentos, com utilização de cinco ou mais medicamentos por um mesmo paciente. A associação otimizada de fármacos, prescritos de acordo com a melhor evidência disponível, pode curar, minimizar danos, aumentar a longevidade e melhorar a qualidade de vida, porém, algumas terapias podem ocasionar RA e IM. São escassos os dados sobre ocorrência de IM na atenção primária em saúde tornando-se relevante a realização de estudos acerca do tema.
O presente trabalho objetivou avaliar interações medicamentosas potenciais através da análise dos medicamentos utilizados pelos usuários das farmácias das unidades de saúde do município.
Estudo transversal realizado por meio do levantamento das dispensações de medicamentos realizadas nas farmácias das unidades de saúde do município e registradas no sistema HygiaWeb. Foram consideradas as potenciais interações medicamentosas entre medicamentos de uso contínuo que elencam a Relação Municipal de Medicamentos Essenciais. Por meio da base de dados “Drugs.com”, identificou-se as interações Alopurinol e IECA), Amiodarona e Sinvastatina e Sinvastatina e Anlodipino como potencialmente graves e a potencial interação entre Varfarina e Sertralina como moderada. O estudo incluiu todas as dispensações dos medicamentos estudados no período de 01/03 a 30/04/2022. Os dados foram obtidos através dos respectivos relatórios de dispensação dos medicamentos e, após, os mesmos foram compilados e identificados os pacientes que retiraram alguma das associações de interesse do estudo. Os dados do sistema HygiaWeb foram exportados ao Microsoft Excel®, onde foram cruzados os dados e aplicados os filtros adequados para obtenção das informações de interesse do estudo.
No período do estudo, 01/03/2022 a 30/04/2022, 290.869 pacientes foram atendidos nas farmácias das unidades de saúde do município, sendo 101.901 atendimentos nas Unidades de Pronto Atendimento e 188.968 atendimentos nas farmácias das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Saúde da Família (USF). Desses, 1.276 retiraram Amiodarona, 3.935 retiraram Alopurinol, 22.965 retiraram Sinvastatina e 13.790 retiraram Sertralina. O uso concomitante de Alopurinol e IECA foi verificado em 974 (24,7%) pacientes. O uso da associação Amiodarona e Sinvastatina foi identificado em 465 (36,4%) pacientes. Foram 5.649 (24,6%) pacientes que usavam Sinvastatina com Anlodipino e 127 (11,7%) que estavam em uso de Varfarina e Sertralina. Considerando apenas as associações medicamentosas avaliadas e que o fornecimento dos medicamentos de uso contínuo acontece nas farmácias das UBS e USF, 3,75% dos pacientes que retiraram medicação no período estão em uso de medicamentos que têm potencial de interagir e causar reações adversas graves.
O envelhecimento demográfico, somado à transição epidemiológica, aumenta a prevalência das doenças crônicas não transmissíveis. Dos fatores que contribuem para a polifarmácia, as doenças crônicas são as que manifestam maior importância. As RA relacionadas aos medicamentos, que podem ocorrer tanto por reações adversas quanto por associações medicamentosas, têm a polifarmácia como o principal agente. Neste contexto, com o objetivo de promover ações que sustentem o uso racional das medicações e a maior segurança à farmacoterapia, torna-se necessária a contínua capacitação dos profissionais, do trabalho em equipes multidisciplinares e na orientação da população. Desenvolvimento de ferramentas no sistema HygiaWeb como emissão alertas no momento da prescrição e da dispensação de medicamentos que tenham potencial de interagir e causar reações adversas graves também podem auxiliar no aumento da segurança no uso dos medicamentos. Estudos complementares são necessários para avaliar a frequência da polifarmácia entre os pacientes que retiram medicamentos nas farmácias das US do município e potenciais interações medicamentosas além daquelas consideradas neste trabalho.
Interações medicamentosas, atenção primária à saúd
LUCIA HELENA TERENCIANI RODRIGUES PEREIRA, ROMANO CARELLI JÚNIOR