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O envelhecimento populacional é um fenômeno demográfico acelerado no Brasil e tem produzido impactos relevantes sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na organização da rede assistencial, coordenação do cuidado e sustentabilidade do sistema. O aumento das condições crônicas, incapacidades funcionais e dependência para atividades de vida diária exige estratégias que assegurem acesso oportuno, continuidade assistencial e cuidado integral, particularmente para população idosa em maior vulnerabilidade. Nesse cenário, a Atenção Domiciliar consolida-se como componente estratégico da Rede de Atenção à Saúde (RAS), ao articular desospitalização, reabilitação, acompanhamento longitudinal e apoio ao cuidador. Entretando, sua efetividade depende de planejamento estruturado, capaz de identificar necessidades, organizar fluxos, definir responsabilidades entre pontos de atenção e qualificar a decisão clínica e gerencial. A Busca Ativa de pacientes hospitalizados emerge como instrumento de diagnóstico situacional e governança do cuidado, ao permitir a identificação precoce de usuários com potencial benefício da Atenção Domiciliar, contribuindo para integralidade, equidade e resolutividade da rede. Diante deste contexto, se justifica a sistematização dessa experiência no SUS municipal, dada sua relevância para planejamento, organização dos serviços e enfrentamento dos desafios impostos pelo envelhecimento populacional, concretizando princípios e integrando a RAS.
Implementar e consolidar a Busca Ativa hospitalar como instrumento de planejamento e gestão do cuidado no SUS municipal, com vistas a: •Identificar precocemente pacientes hospitalizados com potencial elegibilidade para a Atenção Domiciliar; •Qualificar a tomada de decisão clínica e gerencial no processo de desospitalização; •Organizar fluxos, portas de entrada, referências e contrarreferências entre hospital, Atenção Domiciliar e Atenção Primária; •Promover a integralidade e a equidade do cuidado à pessoa com dependência funcional; •Subsidiar o planejamento dos recursos humanos, da oferta de serviços e da alocação de recursos na rede assistencial.
Trata-se de uma experiência de caráter organizacional e assistencial, desenvolvida desde maio de 2024 pelo Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD) de Americana/SP, o qual é composto por duas Equipes Multiprofissionais de Atenção Domiciliar (EMAD) e uma Equipe Multiprofissional de Apoio (EMAP). A Busca Ativa é realizada no hospital municipal da cidade, duas vezes por semana, por meio de visitas multiprofissionais à beira leito. Utiliza-se uma ficha padronizada de avaliação de elegibilidade, desenvolvida pelo próprio SAD e validada em projeto do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS), contemplando dados sociodemográficos, clínicos, funcionais, uso de dispositivos, presença de lesões por pressão e características da rede de apoio. A partir dessa avaliação, os pacientes são classificados como possivelmente elegíveis ou inelegíveis para a Atenção Domiciliar. Os pacientes podem ser indicados por qualquer colaborador do hospital e, além disso, o SAD realiza a triagem diretamente na enfermaria clínica do hospital. Independentemente da elegibilidade, cuidadores e familiares recebem orientações para continuidade do cuidado, reforçando o papel da participação social. Para os casos elegíveis, são realizadas reavaliações sucessivas até a alta hospitalar, com articulação entre hospital, Atenção Domiciliar e, quando pertinente, Atenção Primária à Saúde, esclarecendo fluxos, responsabilidades e referências assistenciais.
No período realizaram-se 223 primeiras visitas de Busca Ativa, com crescimento de 158,1% na média mensal. O avanço decorreu diretamente à reorganização da equipe e da logística de transporte do SAD, além do alinhamento constante e sistemático com a equipe hospitalar, que foi capacitada para identificar critérios de elegibilidade e qualificar o repasse de informações ao SAD. Esse movimento integrado consolidou a Busca Ativa como ferramenta estratégica de gestão, fortalecendo governança do cuidado, definição de fluxos assistenciais e qualificação do planejamento no SUS municipal. A mediana foi 76 anos (19–99), reafirmando o foco no cuidado à população idosa em situação de dependência funcional e subsidiando o planejamento da rede e organização de fluxos para desospitalização segura e continuidade do cuidado. Observou-se elevada prevalência de doenças neurológicas (20,3%) – com destaque para Acidente Vascular Cerebral (35,7%), cardiovasculares (18,4%) e respiratórias (14,6%), além do alto uso de dispositivos (58,7% com sonda para alimentação enteral e 42,6% com sonda vesical de demora entre os acamados e 40% com oxigenioterapia na amostra total) e lesões por pressão (39,5% da amostra total).Tais achados subsidiaram o planejamento da oferta de serviços, organização do trabalho multiprofissional e qualificação das ações educativas aos cuidadores.Somente 26,5% residiam em área coberta por Estratégia Saúde da Família e, nesses casos, o atendimento multidisciplinar é atribuído ao SAD
A experiência da Busca Ativa hospitalar em Americana/SP demonstra que práticas simples, de baixo custo e baseadas em diagnóstico situacional podem produzir impactos relevantes na organização do SUS. Ao integrar planejamento, governança e cuidado, a estratégia fortalece a Rede de Atenção à Saúde, qualifica a transição do cuidado e materializa os princípios da universalidade, integralidade, equidade e participação social. Com foco predominante em idosos, acamados ou com limitação funcional, com condições crônicas e progressivas – especialmente neurológicas, a Busca Ativa consolidou-se no município como instrumento estratégico para inovação na gestão do trabalho, organização dos fluxos assistenciais e ampliação da resolutividade regional, podendo orientar a alocação de recursos. Contribui também para melhor definição das portas de entrada da Atenção Domiciliar, pactuação de fluxos com o hospital e identificação de lacunas na cobertura da Estratégia Saúde da Família, fortalecendo a governança e a integração da Rede de Atenção à Saúde, com potencial de replicabilidade em outros municípios, contribuindo para um SUS sustentável, humanizado e preparado para as demandas do envelhecimento populacional.
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JÉSSICA LAVANHOLI PINHO, SILVANA ALVES TEIXEIRA, VALERIA MAXIMO DE SENA, DANILO CARVALHO OLIVEIRA, FÁBIO CORREIA BARTOLOMEU JONER, LILIAN FRANCO DE GODOI DOS SANTOS