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Este trabalho é uma reflexão sobre a importância da Educação Permanente em Saúde (EPS) realizada no cotidiano das atividades da gestão na saúde. Entendida como a aprendizagem que acontece no trabalho, ela leva em consideração os problemas enfrentados e os conhecimentos e experiências prévias de cada trabalhador(a). Está presente nos espaços formais instituídos e não instituídos das organizações. Muitas são as experiências que destacam a importância da EPS, mas poucas relatam a sua potência no âmbito da gestão. A partir de 2021, uma nova equipe assumiu a gestão de saúde no município de João Ramalho/SP com o compromisso de reorganizar a gestão e a Atenção Básica (AB) em um período em que a pandemia de COVID-19 ainda assolava os municípios e com os muitos desafios que isso representou na vida e no trabalho das pessoas. No contexto da AB, as visitas domiciliares (VD) e as atividades em grupo já não aconteciam mais pelas equipes das Estratégias Saúde da Família (ESF). Alguns(algumas) trabalhadores(as) retornavam ao trabalho após um longo período afastados(as) e o trabalho em equipe mostrava-se fragilizado diante das mudanças nos processos de trabalhar e cuidar das pessoas. Além disso, um novo modelo de financiamento para AB se delineava nos horizontes do Sistema Único de Saúde (SUS), atrelando os recursos financeiros ao alcance de alguns indicadores de saúde.
O objetivo deste trabalho é relatar a potência da ESP no processo de trabalho da gestão em saúde de um município de pequeno porte, representada aqui pelas discussões compartilhadas nos cafés da manhã pela gestão e coordenação da AB.
No entrelaçar da gestão de pessoas, trabalho e EPS, um espaço singular foi se instituindo durante os cafés da manhã realizados entre o gestor de saúde, a diretora da AB, o diretor da vigilância e regulação em saúde, a enfermeira da vigilância epidemiológica e uma nutricionista da equipe interdisciplinar. Um espaço que foi se constituindo por estas pessoas, mas que também era aberto para quem tivesse o interesse em participar. Cada um contribui com um prato ou bebida (bolos, pães, chás, capuccino etc), baseado em receitas saudáveis e leva ideias de como implementar e melhorar os processos de trabalho na saúde do município. Neste espaço informal, e que foi sendo instituído coletivamente, há o cuidado de se pensar em uma gestão que seja comprometida com os princípios do SUS e com estratégias que valorizem o cuidado da população, bem como, as(os) trabalhadoras(os) e seus processos de trabalho. Os saberes e as trocas vão ali acontecendo e as pessoas presentes vão reelaborando a importância de se ter a AB como a ordenadora da rede de atenção. Isso aconteceu porque a gestão entende que valorizar as(os) trabalhadoras(es) e dar espaço para que espaços instituídos e não instituídos de EPS sejam construídos é também uma forma de potencializar o cuidado que é feito para as pessoas, famílias e comunidade. Este simples café é planejado e pensado com muito carinho e afeto para que seja também um momento agradável, leve e de produção mútua de cuidado.
Como resultados foi possível ir retomando as VD, reuniões de equipe e grupos educativos pelas ESF, possibilitar momentos de EPS para as equipes de saúde, iniciar melhorias na ambiência das unidades e alcançar notas máximas no Previne Brasil, garantido 100% do repasse dos recursos federais para o município. Ao mesmo tempo, notou-se que neste processo as equipes das ESF foram se tornando mais autônomas e envolvidas com seus processos de trabalhos, abrindo espaços para repensarem coletivamente o processo de trabalho da equipe. Articulados pela coordenação da AB, gestão e equipes abriram espaços para que as agentes comunitárias de saúde (ACS) participem de colegiados estratégicos para o trabalho da equipe, como por exemplo, o Núcleo de Educação Permanente e Humanização Regional, Conselho Municipal da Saúde, Rede de Enfrentamento da Violência contra Mulheres, Crianças e Adolescentes (Reajam/JR) e Sala de Situação de Dengue. Capacitações e treinamentos foram oferecidas para e pelas enfermeiras e médicas das ESF e fluxos de atendimentos entre ESF, Pronto Atendimento, sala de vacina e equipe interdisciplinar foram sendo construídos. Retomou-se as atividades educativas, tais como, grupos educativos, salas de espera feitas pelas ACS, ações temáticas realizadas na comunidade pelas equipes (Outubro Rosa, Novembro Azul, Dezembro Vermelho, Fique Sabendo) e Programa Saúde na Escola sendo realizado com a participação da nutricionista e das ACS para antropometria nas escolas.
Promover a EPS no cotidiano do trabalho da gestão de saúde refletiu em resultados diretos na reorganização dos processos de trabalho na AB, avançando no cuidado às pessoas, famílias e comunidade, melhorando os indicadores de saúde e fortalecendo as relações interpessoais. Neste contexto dos cafés da manhã da gestão, a EPS tornou-se, de fato, um instrumento viabilizador de análises críticas e constituição de conhecimentos compartilhados sobre a realidade local. Enquanto um espaço não instituído, o momento do café da manhã está incorporado ao cotidiano do trabalho, e a equipe de gestão vislumbrou neste momento uma potência para o ensino-aprendizado significativo. Reflexões sobre a organização do trabalho e os processos de cuidado vão sendo ali elaboradas até que se tornam projetos conjuntos e ações planejadas para uma efetiva transformação nas práticas cotidianas no SUS. Os resultados vão além das transformações nos modos de se fazer saúde e cuidar de pessoas, porque a EPS possibilita reflexões internas sobre o significado do trabalho no SUS e mobiliza para que mais trabalhadoras(es) possam ir construindo coletivamente, e de forma crítica e reflexiva, os seus modos de trabalhar. E foi isso também que aconteceu nesta experiência, u
Gestão, Educação Permanente, Atenção Básica.
Karen Namie Sakata So, Marco Antônio Rodrigues da Silva, Adélio Cezar Mathias Júnior, Jorgina Sobral, Cristiane de Oliveira Tangerino