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A Atenção Básica, enquanto principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), tem como atribuições a ordenação do cuidado, o acompanhamento longitudinal dos usuários, e a promoção do uso racional de medicamentos1–3. A efetividade dessas ações depende da capacidade dos serviços em reconhecer e responder às condições sociais e cognitivas que influenciam a compreensão das orientações em saúde, sobretudo o letramento em saúde. No território adscrito à UBS Mato Dentro, observou-se a presença de usuários com baixa escolaridade formal, o que repercute em dificuldades na compreensão de prescrições medicamentosas, especialmente em relação a horários, doses e esquemas terapêuticos. Durante visitas domiciliares, as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) identificaram fragilidades recorrentes no uso racional de medicamentos, mesmo após orientações verbais, evidenciando limites das estratégias tradicionais de educação em saúde baseadas apenas na comunicação escrita. Diante desse contexto, foi desenvolvida a experiência da caixa organizadora de medicação ilustrada, utilizando materiais recicláveis como estratégia educativa simples e territorialmente adequada, alinhada aos princípios da equidade, da educação em saúde e do cuidado centrado na pessoa4,5
Garantir que os usuários realizem a administração adequada das medicações prescritas, independentemente do nível de letramento; apoiar a adesão terapêutica no domicílio; facilitar a compreensão dos horários e esquemas de uso por meio de recursos visuais simples; promover maior autonomia e segurança no cuidado com a própria saúde; reduzir erros relacionados ao uso inadequado de medicamentos; e fortalecer o vínculo entre ACS, usuários e suas famílias.
A experiência foi desenvolvida a partir da observação do cotidiano das visitas domiciliares realizadas pelas ACS da UBS Pastor Elias Pereira, que identificaram dificuldades de usuários com baixa escolaridade formal na administração correta das medicações. A partir dessa identificação, foi proposta a confecção de caixas organizadoras de medicamentos utilizando materiais recicláveis que seriam descartados, especialmente caixas de papelão. Os materiais coletados são transformados artesanalmente em dispensadores organizados em compartimentos correspondentes aos horários de ingestão dos medicamentos, utilizando ilustrações simples que representam os períodos indicados. A confecção das caixas e a orientação sobre seu consumo ocorrem durante as visitas domiciliares, com explicação individualizada aos usuários e familiares, de forma integrada ao processo de trabalho das ACS.
A utilização da caixa organizadora de medicação ilustrada resultou em melhora consistente na compreensão dos usuários quanto ao uso racional das medicações prescritas, especialmente em relação aos horários, à regularidade da administração e à distinção entre diferentes medicamentos. Durante as visitas domiciliares subsequentes, observou-se redução significativa de dúvidas recorrentes e maior segurança dos usuários no manejo da terapia medicamentosa nos domicílios. A estratégia favoreceu o desenvolvimento de maior autonomia no cuidado, reduzindo a dependência exclusiva de familiares para a administração correta dos medicamentos, bem como situações de uso inadequado previamente identificadas pelas ACS. O recurso visual mostrou-se especialmente eficaz para usuários com baixa escolaridade formal, ao traduzir a prescrição em linguagem acessível e compatível com sua realidade cotidiana. Além dos efeitos diretos na adesão terapêutica, a experiência fortaleceu o vínculo entre ACS, usuários e famílias, qualificando o acompanhamento longitudinal e ampliando a confiança no trabalho da equipe de saúde. A iniciativa demonstrou ser de baixo custo, sustentável e facilmente incorporada ao processo de trabalho da Atenção Básica, com potencial de replicação em outros territórios com características semelhantes, reforçando a importância de estratégias educativas simples, territorializadas e centradas no usuário para a promoção do uso racional de medicamentos.
A experiência da caixa organizadora de medicação ilustrada evidencia que intervenções educativas simples, orientadas pela escuta qualificada e pelo reconhecimento das limitações de letramento em saúde, podem produzir impactos relevantes na adesão terapêutica, na segurança do uso de medicamentos e na autonomia dos usuários acompanhados pela Atenção Básica. Ao adaptar as orientações às condições reais de compreensão da população, a iniciativa reafirma o princípio da equidade como eixo estruturante do cuidado. O protagonismo das ACS e a incorporação da estratégia ao processo de trabalho das visitas domiciliares qualificaram o acompanhamento longitudinal, fortaleceram o vínculo com usuários e famílias e ampliaram a efetividade das ações de educação em saúde no território. Além de favorecer o uso racional de medicamentos, a experiência contribuiu para reduzir erros evitáveis e prevenir agravos associados à administração inadequada das terapias prescritas. Trata-se de iniciativa de baixo custo, sustentável e replicável, reafirmando o papel estratégico da Atenção Básica na construção de práticas educativas territorializadas, centradas no usuário e comprometidas com o cuidado seguro e integral no SUS.
Adesão terapêutica; Educação em saúde; Letramento.
DEBORA ALVES DIAS DE OLIVEIRA, JULIANA ALVES MARTINHO FERREIRA