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Ao enfrentarmos o contexto de uma doença ameaçadora de vida, a negação da finitude é normal do processo, vindo da família ou do próprio paciente. No entanto, ao falarmos de cuidados paliativos no Brasil, também encontramos uma lacuna no âmbito dos sistemas de saúde que acaba por refletir em alguns indicadores mundiais. Por exemplo: o ranking de qualidade de morte publicado pelo periódico The Economist. Na edição de 2015 foram pesquisados 80 países em relação a 20 indicadores quantitativos e qualitativos compreendendo cinco categorias distintas, sendo: (1) ambiente dos cuidados de saúde e dos cuidados paliativos, (2) recursos humanos, (3) acessibilidade, (4) qualidade dos cuidados, e (5) envolvimento da comunidade. Nesta pesquisa, o Brasil foi classificado na 42ª posição, atrás de países com economias mais frágeis, como Uganda, Equador e Malásia¹. Isso demonstra, de maneira generalizada, a necessidade de levar o conhecimento sobre essa temática não só à população geral, mas principalmente aos veículos de saúde. A Equipe Multidisciplinar de Atendimento Domiciliar do Capão Redondo (EMAD-CR), rotineiramente se depara com cenários clínicos e sociais de pacientes que demandam desse olhar e abordagem. Por isso, planejamos internamente uma capacitação para os membros da equipe focando em melhor atender as demandas dessa população.
A elaboração desse projeto teve como objetivo principal a desmitificação de termos relacionados aos Cuidados Paliativos e ao processo de terminalidade bem como explicação de técnica de situações comuns dentro desse contexto e como a equipe pode e deve agir. Objetivamos ainda o desenvolvimento de técnicas de comunicação, essencial no cenário de tomadas de decisões compartilhadas e comunicação de más notícias. O intuito final foi a capacitação da equipe e, consequentemente, fortalecimento do tema dentro da rede de atenção básica, na tentativa de garantir dignidade, autonomia e a beneficência desses pacientes.
Utilizamos inicialmente a técnica Team Based Learning (TBL) esta é uma é uma estratégia educacional baseada em aprendizagem ativa que se tornou uma proposta pedagógica alternativa importante no contexto dos métodos de ensino utilizados principalmente na educação em saúde ². Aplicamos um teste com 10 questões para avaliar o conhecimento prévio e inicial dos membros da equipe. Seguimos com reuniões periódicas sobre temas relevantes dentro dos cuidados paliativos: (1) Introdução e Conceitos Básicos, (2) Indicação de Cuidados Paliativos e Instrumentais, (3) Sinais de Terminalidade e Controle de Sintomas, (4) Tomada de Decisões Compartilhadas, (5) Comunicação na Saúde e Comunicação de Más notícias, (6) Roleplay de Conversas Difíceis. Todo processo foi acompanhado e desenvolvido por médica da equipe especializada na área junto com a gestão do serviço. Usamos como ferramentas: sala de reunião, participação de toda equipe (20 membros), uso de retroprojetor, uso de tecnologia visual de aprendizado – Mentimeter. Posteriormente, os participantes repetirão o teste inicial e poderemos comparar o ganho de aprendizagem até então.
Apesar de ainda não termos findado o projeto o que impede gerar os dados quantitativos, pudemos observar um grande ganho para equipe, qualitativamente, dos quais devem ser compartilhados. Os integrantes relatam se sentirem mais seguros para lidar com pessoas nesse cenário, disseminação da terminologia usada na área, identificação precoce de pacientes com indicação de receberem Cuidados Paliativos e de situações de risco, desenvolvimento de comunicação para conversas difíceis e amplificação de técnicas de cuidado.
Existe uma negação cultural sistêmica da morte e do processo de morrer, juntamente com um montante gigantesco de sofrimento evitável relacionado ao fim da vida no âmbito mundial e nacional. Os cuidados paliativos são reconhecidos nesse cenário como primeira linha de abordagem para resolução desses desafios. Hoje no Brasil a temática tem ganhado força e espaço, principalmente dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), vale ressaltar a aprovação da Política Nacional dos Cuidados Paliativos em Maio de 2024³. No entanto, muito ainda precisa ser feito e desenvolvido nesse sentido, principalmente, a capacitação dos prestadores desses cuidados e da rede de atenção à saúde. Observamos no dia a dia o desconhecimento de conceitos básicos e indicações de tal abordagem. Dessa forma, avaliamos como extremamente proveitosa a capacitação em locus da equipe EMAD tanto com intuito da melhora do serviço interno prestado bem como a disseminação da temática na rede.
Cuidados Paliativos, TBL, Atendimento Domiciliar.
RAQUEL CAMPOS PEREIRA