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O processo de construção das hipóteses diagnósticas de TEA implica na necessidade de expertise de gestores e equipes para organizar linhas de cuidado desde o acolhimento dos casos com avaliações diagnósticas situacionais até à execução de propostas de intervenção oportunas e não patologizantes. Diante do aumento exponencial de casos com essa demanda, o município de Itaquaquecetuba com verba do Programa ValorizaGTES – SUS, desenvolveu um projeto de educação permanente em parceria com empresa especializada, para o acolhimento na Primeira Infância, por meio da sensibilização de gestores e profissionais para a assistência integral de crianças com sinais de risco para o TEA e suas famílias. O projeto nasceu do propósito de qualificar a integração entre os serviços da rede de saúde e todas as atividades buscaram favorecer o diálogo, o aprofundamento de conceitos com visão crítica e a organização do trabalho compartilhado com a perspectiva de sustentação contínua do cuidado em uma rede colaborativa.
O objetivo principal foi construir uma proposta de cuidado com os recursos locais para reduzir o número de crianças em filas de espera sem intervenção precoce e suporte de cuidado ampliado em rede. Os objetivos específicos foram: Desconstruir as concepções patológicas sobre a infância para compreensão ampliada da criança e família em suas vulnerabilidades Enfrentar o crescimento da demanda de casos de TEA e a pressão por atendimentos, laudos e benefícios Qualificar os profissionais para o trabalho em rede sob os princípios da universalidade, integralidade e equidade previstos no SUS.
A capacitação foi desenvolvida de modo transversal com utilização de metodologias ativas e ferramentas operacionais para integração das equipes, construção do trabalho colaborativo e instrumentalização do planejamento de ações em rede. O percurso formativo contou com duas etapas. Na uma primeira etapa de alinhamento teórico conceitual para discutir a etiológica multifatorial, os documentos norteadores, as classificações diagnósticas e protocolos de avaliação, os sintomas na constituição subjetiva, a família e a educação parental, o brincar e outras abordagens terapêuticas. Na segunda etapa foi realizado o mapeamento da demanda com base nos dados de listas de espera para psiquiatria, neurologia e da origem territorial dos casos, a identificação dos recursos humanos, materiais e físicos disponíveis, o processo de trabalho em rede, o desenvolvimento de dispositivos de cuidado e o planejamento de ações compartilhadas. Também foi desenvolvida uma etapa especial para gestores em que foi feita a discussão dos nós críticos da gestão e as estratégias de gestão de equipes multifuncionais para o enfrentamento das resistências e a gestão da mudança em relação a assistência ao TEA. Além disso, foram disponibilizados materiais complementares incluindo textos, videoaulas, livros e filmes para aprofundamento nos períodos de dispersão, fortalecendo a aprendizagem autônoma e reflexiva para os participantes.
Os resultados foram expressivos e cumpriram o objetivo de desenvolver competências para organização de uma linha de cuidado que manterá a rede alerta para o risco de diagnósticos precipitados e estigmatizantes. O percurso formativo proporcionou o empoderamento sobre o trabalho em rede, a partir da construção coletiva do conhecimento e de maior clareza entre os diferentes atores e seus papeis desempenhados no cuidado. Nesse sentido, foi desenvolvida uma proposta de Linha de Cuidado envolvendo: Acolhimento qualificado e avaliação situacional na atenção primária considerando fatores biopsicossiciais. Requalificação das listas de espera, grupos de intervenção do brincar e grupos de educação parental. Matriciamento e ações compartilhadas com a atenção especializada nos territórios. Em linhas gerais, os participantes já sinalizam um olhar diferenciado para criança, pais e unidades educativas, de modo que, os encaminhamentos estão mais assertivos entre profissionais e serviços e as abordagens foram ampliadas utilizando as ferramentas aprendidas.
Mais do que uma capacitação, a iniciativa se consolidou como um movimento coletivo de transformação. Os participantes relataram ganhos de autoconfiança, fortalecimento da comunicação entre setores, maior clareza sobre os fluxos de cuidado e um novo sentido de pertencimento à rede. Vale ressaltar, o diferencial da presença dos profissionais médicos e dos gestores de área técnica como aspecto que favoreceu os resultados alcançados. As palavras mais citadas na avaliação final resumem o espírito do projeto: empatia, parceria, propósito e conexão. Destaca-se uma fala emblemática: “Senti que não apenas aprendi, mas transformei meu olhar para o trabalho.” Essa capacitação vai seguir com uma segunda fase de acompanhamento longitudinal da implantação das ações propostas no território e inclusão de atores da intersetorialidade, para uma Linha do Cuidado ampliada e sustentada pela integração efetiva entre saúde, educação, assistência social e sociedade civil.
TEA, Educação Permanente, Linha de Cuidado TEA
CRISTIANA BEATRICE LYKOUROPOULOS, ÉRIKA FACINE SILVA GRAVA