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A consolidação da Estratégia de Saúde Digital (ESD) para o Brasil 2020–2028 e a instituição do Programa SUS Digital impulsionaram a incorporação de tecnologias informacionais na Rede de Atenção à Saúde (RAS) para expandir a informatização da Atenção Primária à Saúde (APS)1. A territorialização em saúde é uma diretriz estruturante da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) e requisito para organização do cuidado, adscrição populacional e planejamento equitativo, cabendo ao município definir as áreas geográficas, observados os parâmetros definidos pelo Ministério da Saúde2–6. Em Franco da Rocha (SP), as Áreas de Abrangência (AA) e Microáreas (MA) das Unidades Básicas de Saúde (UBS) eram representadas por mapas impressos e registros manuais desatualizados, dificultando a utilização oportuna das informações espaciais disponíveis. Considerando o papel estratégico dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) na produção de informações de suas áreas de atuação, estruturou-se um processo de territorialização digital baseado na técnica do Mapa Falado, articulando a inteligência coletiva das Equipes de Saúde da Família a um Sistema de Informações Geográficas (SIG)7. A proposta buscou transformar saberes empíricos consolidados na vivência cotidiana do território em uma base cartográfica padronizada8,9, fortalecendo a governança e ampliando a maturidade digital do município.
Programar as ações da APS a partir de sua base territorial, considerando as necessidades de saúde identificadas na população adscrita. Mapear as AA e MA das equipes, identificando grupos, famílias e indivíduos expostos a riscos e vulnerabilidades. Aplicar a inteligência coletiva e o protagonismo dos ACS, sistematizando conhecimentos historicamente vivenciados no território para delimitação qualificada das AA e MA municipais. Estruturar as informações coletadas em ambiente digital por meio de um SIG desenvolvido em software livre, permitindo análise espacial e visualização das dinâmicas territoriais como suporte ao planejamento e à tomada de decisão na APS. Utilizar dados do e-SUS APS como subsídio para qualificação das análises territoriais. Desenvolver base cartográfica municipal atualizada em formato eletrônico, possibilitando revisão periódica dos limites territoriais e fortalecimento da gestão baseada em informações geográficas.
A experiência foi estruturada a partir de encontros presenciais nas UBS, nos quais foi aplicada a técnica do Mapa Falado, valorizando o protagonismo dos ACS como informantes-chave na descrição detalhada do território, incluindo limites geográficos, equipamentos públicos, recursos comunitários, áreas de vulnerabilidade e características sanitárias. Os relatos foram sistematizados e convertidos em dados espaciais, utilizando a base cartográfica municipal existente como referência técnica. A vetorização e a organização das malhas territoriais foram realizadas com o software livre QGIS10,11, com utilização de dados ambientais e do Cadastro Territorial Multifinalitário disponibilizados pela administração municipal. Posteriormente, os limites foram revisados coletivamente com os ACS para validação e maior precisão geográfica. Dados do e-SUS APS foram utilizados como subsídio para qualificação das análises territoriais. Ao final, foram elaborados arquivos geográficos padronizados, permitindo atualização periódica e uso permanente dos mapas temáticos como ferramenta de planejamento, gestão e apoio à decisão informada na APS.
O protagonismo dos ACS na aplicação do Mapa Falado resultou na conversão do conhecimento territorial empírico em base cartográfica digital padronizada, com delimitação precisa das AA e MA das UBS. A sistematização e a vetorização das informações superaram registros fragmentados e mapas manuais, convertidos em arquivos geográficos estruturados, passíveis de atualização periódica e integração intersetorial. A base territorial desenvolvida permitiu maior clareza na distribuição populacional adscrita, identificação de vazios assistenciais, sobreposições territoriais e áreas de expansão urbana, subsidiando o redimensionamento de equipes e o planejamento da ampliação da APS no município. O uso do SIG qualificou o planejamento local ao possibilitar análise espacial de vulnerabilidades e melhor organização do processo de trabalho das equipes. Observou-se fortalecimento da cultura digital entre os ACS, com apropriação de ferramentas tecnológicas aplicadas à gestão do território. A consolidação das bases cartográficas institucionais estruturou a territorialização como instrumento permanente de governança territorial e apoio à decisão informada no município, contribuindo para o dimensionamento adequado de recursos alocados às UBS.
A experiência consolida a territorialização da APS como componente estruturante da PNAB e da ESD, reafirmando o protagonismo dos ACS na produção, na sistematização e na qualificação do conhecimento compartilhado. A articulação entre a técnica do Mapa Falado e o georreferenciamento em SIG possibilitou a conversão de saberes empíricos em base cartográfica institucionalizada, conferindo maior precisão às AA e MA das UBS. A padronização e a digitalização das malhas territoriais fortaleceram o planejamento na APS, qualificaram a organização do processo de trabalho das equipes e ampliaram a capacidade de gestão orientada por evidências espaciais. Ao reconhecer o território como espaço dinâmico e socialmente produzido, a experiência demonstra que a ESD no SUS se fortalece quando tecnologia e inteligência coletiva se articulam de forma integrada, promovendo qualificação contínua da gestão, racionalidade na organização dos serviços e fortalecimento da APS como ordenadora do cuidado na RAS.
Saúde Digital, Territorialização, ACS.
CARLOS CESAR DA SILVA SOARES, ANDERSON RODRIGO GREGÓRIO, MARIA OLÍVIA PIMENTEL SAMERSLA