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O ano de 2023 se iniciou com uma proposta desafiadora: implementar um programa municipal voltado à geração de renda para usuários de serviços de saúde mental do município de Louveira, em um espaço próprio, ampliando a rede de atenção psicossocial. Em meados de fevereiro o projeto começou a ser escrito, juntamente com a preparação do espaço físico, uma linda casa de madeira em meio a um bosque localizado na Área de Lazer do Trabalhador. Foram definidas as ofertas a serem disponibilizadas aos usuários e equipe técnica necessária, articulações entre diversos atores sociais e uma pesquisa de mercado na maior festa do município, na qual foram apresentados os produtos realizados pelos usuários, além do levantamento de demanda e triagens de casos novos, culminando com a abertura da Casa das Oficinas no mês de maio. Histórica e socialmente o trabalho possui uma função de instrumento de reconhecimento enquanto indivíduo, de ampliação da autonomia e resgate da cidadania. Frequentemente observamos que quando alguém se apresenta, diz seu nome e logo sua profissão. Durante a prática clínica cotidiana observa-se que os usuários de serviços de saúde mental apresentam melhora de seus sintomas; porém quando se deparam com o retorno ao mercado de trabalho são atingidos por limitações impostas por questões internas e externas, permeadas por estigmas, crenças limitantes por parte de si mesmo ou de seus familiares, e falta de equidade aos acessos do restante da população.
Um dos principais pilares do cuidado em saúde mental é a reabilitação psicossocial, que se configura enquanto um conjunto de ações de fortalecimento de usuários e familiares mediante o desenvolvimento de iniciativas articuladas com os recursos do território nos campos da economia solidária, habitação, educação, cultura e direitos humanos, que garantam o exercício de direito à cidadania e produção de possibilidades para projetos de vida. Baseado nesse pressuposto, entende-se que a Casa das Oficinas Acalanto tem como objetivos criar um serviço de convivência e fortalecimento de vínculos; desenvolver ações de caráter intersetorial; contribuir para a melhoria da qualidade de vida, propiciando dignidade, autonomia e valorização humana; e promover o reconhecimento da competência pessoal, independência, inclusão, desenvolvimento profissional e resgate de sonhos, gerando impacto social, além da busca de validação dos direitos das pessoas com sofrimento psíquico.
A Casa das Oficinas Acalanto é um programa que centraliza oficinas de capacitação para geração de renda voltadas tanto para o mercado formal, quanto informal e reinserção no mercado de trabalho através de projetos / ações intersetoriais. Na busca de uma maior abrangência que abarque os indivíduos em sua singularidade, atua em quatro vertentes. A primeira delas através de oficinas de atividade artesanal, sendo no momento ofertadas as oficinas de mosaico, bijuteria e crochê. A segunda vertente consiste na oferta de produtos alimentícios através de uma mistura para cappuccino artesanal e biscoitos amanteigados, cuja receita foi construída com os próprios usuários. A terceira vertente é a oferta de cursos de capacitação, em parceria com outras secretarias municipais como desenvolvimento econômico, assistência social e educação. E a última vertente que se destina à inserção de usuários no mercado de trabalho formal, através de processos seletivos destinados ou não a vagas PCD, com treino de habilidades, confecção de currículos e monitoramento por seis meses após a contratação, além da realização de atividades voltadas à psicoeducação em empresas do setor privado do município, buscando uma aproximação com o setor público. Todo o cuidado é realizado através de uma equipe multiprofissional, composta por assistente social, psicólogos, técnica de enfermagem e terapeutas ocupacionais, baseado nos pressupostos da economia solidária e reabilitação psicossocial.
Durante os 9 meses de atuação foram realizados 1.025 atendimentos, 15 ações com empresas privadas, 10 usuários encaminhados para processos seletivos sendo 7 efetivados, e mais de 10 cursos e capacitações. Com relação aos produtos confeccionados, a Casa das Oficinas participa semanalmente da feira e foram vendidos mais de 41 quilos de mistura para cappuccino, 300 pacotes de amanteigados e 100 peças de artesanato. Mas para além dos números gostaríamos de compartilhar um caso que personaliza os resultados deste programa. Ângela*, 39 anos, foi encaminhada pelo CAPS para triagem na Casa das Oficinas. Realizava acompanhamento em serviços de saúde mental desde os 12 anos. Apresentava-se calada e retraída. Reside com o filho e nunca trabalhou fora. Não possuía nenhum benefício assistencial. Iniciou participação na oficina uma vez por semana. Extremamente habilidosa, ampliou sua participação rapidamente. Mais comunicativa, interessada e com boa iniciativa, referia que seu sonho era conseguir um trabalho no mercado formal e “poder mostrar que é capaz”. Conseguiu ser aprovada em um processo seletivo, mas logo seu pai informou que seu auxílio foi liberado e que era melhor que não trabalhasse fora. Tal decisão foi acatada por Ângela*, mas inquietou a equipe que iniciou um trabalho de sensibilização com seu pai, que compreendeu o significado do trabalho formal para a filha. Hoje encontra-se empregada, recebendo seu salário, cogitando mudar de casa, fazendo amigos e extremamente feliz.
O relato do caso de Ângela* certamente é a melhor demonstração da importância de programas como a Casa das Oficinas Acalanto, que priorizam as potências, desejos e sonhos de usuários de serviços de saúde mental, que dentre tantas perdas no curso de seu adoecimento perderam também a crença em suas potencialidades, de seu papel social e que deixaram de sonhar. Acompanhar usuários que por vezes estiveram internados em hospitais psiquiátricos, distantes de seus familiares e comunidade, e hoje estão nas principais feiras e eventos da cidade comercializando seus produtos, produtos estes com qualidade e realizados com excelência, tem sido um privilégio. Como diz Michel de Montaigne: “Fica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas impossíveis e de caminhar livremente em direção aos sonhos”, em um Sistema Único de Saúde que tem como princípios a universalidade, equidade, controle social e integralidade. *Nome fictício
Saúde Mental, Inclusão Social
Caroline Gonçalves Pereira Cruz