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As plantas medicinais têm sido usadas há milhares de anos por diversas populações indígenas em todo o mundo. Essas plantas são consideradas uma fonte importante de tratamento para diversas doenças, condições de saúde, sobrevivência na natureza, alimentação, habitação e rituais ligados à cultura tradicional ancestral transmitido de geração em geração. A Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) é composta por 71 espécies vegetais com potencial terapêutico e segundo a organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população de países em desenvolvimento incluindo o Brasil, utiliza as práticas tradicionais na sua atenção primária à saúde (APS) com o montante de 85% de usuários das plantas medicinais (82% dos brasileiros usam produtos à base de plantas medicinais). Nesse cenário a população indígena da Aldeia Multiétnica Filhos desta Terra no município de Guarulhos desenvolve o uso das plantas medicinais em um trabalho compartilhado com a médica responsável pela equipe de saúde indígena, utilizando a espécies cultivadas no próprio território.
Esse trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta de educação em saúde na Aldeia Indígena Multiétnica Filhos desta Terra em Guarulhos relacionado ao uso racional das plantas medicinais mais prevalentes entre a população. Assim como conhecer e desenvolver as habilidades da população indígena e contribuir para formação dos currículos médicos dos Residentes do Programa de residência médica em Medicina de Família e Comunidade (MFC) do município, presentes em estágios curriculares na atenção básica/estratégia saúde de família e Saúde Indígena, produzindo um espaço de conhecimento e troca ancestral sobre as plantas medicinais.
Foi realizado o levantamento de números de espécies de plantas medicinais mais utilizadas, através de encontros com as mulheres indígenas e curandeiras. Posteriormente, foi realizado o treinamento dos residentes envolvidos no “Chá do Cuidado”: – Temas abordados: território, necessidades das curandeiras, armazenamento e observação dos possíveis efeitos colaterais das plantas medicinais; – Identificação de lacunas do conhecimento prévio dos Residentes sobre botânica, fitoterapia, interações com medicamentos alopáticos, produção de chá, infusões e decocto; – Definição do método da aplicabilidade do Chá do Cuidado. Após o treinamento, houve a comunicação à Aldeia sobre o “Chá do Cuidado”, onde foram entregues convites com data e horário do evento, via Whatsapp. Na Aplicação do “Chá do Cuidado”, houve: – A escolha prévia a planta medicinal; – Definição se o chá seria produzido por demanda de saúde ou como troca de conhecimento; – Desenvolvimento do aprendizado em educação em saúde e ensino com as curandeiras de forma personalizada com cada etnia; – Desenvolvimento do conhecimento a respeito das plantas medicinais a partir do chá previamente escolhido; – Utilização do chá definido para produção do livro de conhecimentos sobre as plantas medicinais que será produzido com a comunidade; – Desenvolvimento das habilidades de comunicação e trabalho em equipe com os alunos envolvidos nesse projeto. Nesses encontros houve a participação e envolvimento de toda comunidade.
O trabalho desenvolvido a partir do uso de chás medicinais entre a população indígena, a médica e os residentes foi possível perceber o interesse maciço por parte da população em novos eventos que trabalhem utilização responsável das plantas medicinais como complemento ao tratamento médico convencional. Um livro sobre as plantas medicinais vem sendo desenvolvido e pensado como forma de fortalecer o conhecimento e a autonomia das pessoas em relação à sua própria saúde e também preservar uma parte importante da cultura e da herança do município. A disciplina de saúde indígena e fitoterapia vem sendo trabalhada ativamente com a troca de conhecimento ancestral dentro do território indígena.
O reconhecimento e a valorização da presença indígena em Guarulhos assim como o reconhecimento sobre saberes tradicionais são essenciais para a promoção da diversidade, garantia de direitos e elaboração de políticas públicas de saúde. É um lembrete constante da importância de respeitar e honrar a cultura e identidades indígenas como parte integrante do patrimônio cultural vivo de Guarulhos e do Brasil como um todo. Oportunizar a vivências de médicos residentes nesse cenário contribui para o fortalecimento do SUS e abre a possibilidade de desenvolver cenários adversos dentro da competência cultural exigida dentro da Medicina de Família e Comunidade.
Cuidado à saúde; planta medicinal; saúde indígena
Carla Rafaela Donegá, Rafael Nunes da Silva, Amanda Prado Mascari, Victória Abreu Gatto, Mayara Rosangela Pedroso Silva, Rosamaria Rodrigues Garcia