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O suicídio consolidou-se como um grave desafio de saúde pública no Brasil, apresentando um crescimento que destoa da queda observada em países desenvolvidos. Esse cenário é impulsionado por fatores complexos como transtornos mentais, isolamento social e crises socioeconômicas, exigindo atenção redobrada das autoridades. A preocupação é maior entre jovens e idosos, grupos que hoje demandam estratégias de prevenção mais específicas para reverter os índices de violência autoprovocada. Em resposta a essa urgência, o município de Marília instituiu, em 2024, o Comitê Municipal de Valorização à Vida (CMVV). O órgão atua de forma estratégica, multiprofissional e técnico-científica, focando no diagnóstico situacional, no monitoramento de casos e na fundamentação de políticas públicas eficazes. Com caráter educativo e sigiloso, o CMVV busca não apenas tratar o problema, mas também compreender os determinantes sociais locais que explicam essa realidade para fortalecer a rede de proteção e promoção da vida territorial. O diferencial do comitê é sua estrutura intersetorial, que conecta Saúde Mental, Educação, Assistência Social, Segurança Pública e a Sociedade Civil. Ao integrar profissionais e movimentos sociais, o CMVV potencializa um cuidado humanizado e articulado em redes. Essa intersecção de saberes e das políticas públicas permite que o suporte chegue de forma mais eficiente ao cidadão, permitindo que a rede de saúde e direitos humanos funcione de maneira preventiva e protetiva.
O trabalho tem como objetivo relatar a experiência de implantação e operacionalização do Comitê Municipal de Valorização da Vida no município de Marília, destacando sua organização intersetorial, estratégias de atuação e principais resultados no enfrentamento do comportamento suicida e das violências autoprovocadas. O Comitê Municipal de Valorização à Vida visa fortalecer ações integrais de promoção da vida; diminuir as violências e óbitos por suicídio; realizar diagnóstico com análise qualificada das situações; organizar ações de posvenção; realizar capacitações sobre a temática; desenvolver sensibilização da comunidade para estratégias de cuidado coletivo, divulgação de informações da rede de atenção psicossocial local ou de educação popular em saúde mental, a fim de romper estigmas e paradigmas de cuidado; elaborar o Plano Municipal de Prevenção do Suicídio e subsidiar os poderes legislativo e executivo do município na tomada de decisões administrativas, orçamentárias e políticas.
As atividades do comitê são coordenadas pela Secretaria Municipal de Saúde de Marília, através do Núcleo Técnico de Saúde Mental, por meio de reuniões mensais sistemáticas. A Mesa Diretora é constituída por presidente, vice-presidente, secretário e vice-secretário, responsáveis pela condução administrativa e técnico-política dos trabalhos. Em 2025, o CMVV organizou-se em três Grupos de Trabalho temáticos: •Saúde Mental em Contextos Educacionais, voltado ao desenvolvimento de ações que favoreçam processos inclusivos e a permanência escolar, abrangendo crianças, adolescentes, jovens e universitários, bem como docentes e profissionais das unidades educacionais do município; •Saúde Mental do Trabalhador, responsável pela articulação de estratégias de prevenção psicossocial em distintos contextos ocupacionais, com foco na promoção de ambientes laborais saudáveis, no fortalecimento de vínculos e na qualificação das relações de trabalho, visando à saúde mental e à produtividade sustentável; •Saúde Mental de Populações em Situação de Vulnerabilidade e Uso de Substâncias Psicoativas, orientado pela qualificação das intervenções em redução de danos, com centralidade no sujeito e nos marcadores sociais da diferença. Este eixo contempla, entre outros grupos, população negra, migrantes e refugiados, pessoas em situação de rua, usuários de substâncias psicoativas, vítimas de abuso, negligência ou outras formas de violência, bem como pessoas privadas de liberdade ou em conflito com a lei.
A implantação do CMVV consolidou governança intersetorial permanente no município, integrando a Atenção Primária, o Núcleo de Prevenção e Cuidado à Pessoa em Situação de Violência, as Vigilâncias, a Saúde Mental, a Academia e a Sociedade Civil. Destaca-se a construção do Painel Epidemiológico das Violências de Marília-SP, fruto da articulação entre o Núcleo de Informação, a Vigilância Epidemiológica e as áreas técnicas de Saúde Mental e Prevenção, o que qualificou o monitoramento territorial e subsidiou decisões baseadas em evidências. Houve formações para Agentes Comunitários de Saúde, outras aos profissionais sobre notificação e fluxos de cuidado psicossocial, com estratificação de riscos, fortalecendo a vigilância ativa nos territórios, além da expansão de intervenções comunitárias e os diálogos sociais sobre saúde mental e prevenção. As e-Multis ampliaram ações educativas em salas de espera em campanhas públicas (Janeiro Branco, Setembro Amarelo e Luta Antimanicomial). Somou-se a isso a utilização de instrumento diagnóstico pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador . No âmbito político-institucional, a articulação com o Legislativo culminou em audiência pública (2025) e na sanção da Política Municipal de Prevenção e Pósvenção do Suicídio (2026), assegurando sustentabilidade normativa. Atualmente, o CMVV planeja o 1º Fórum Intersetorial de Saúde Mental, consolidando-se como instância estratégica de planejamento, monitoramento, garantia de direitos e defesa da vida.
A implantação do CMVV representa um avanço estruturante na gestão da saúde pública em Marília. Ao superar práticas fragmentadas e instituir uma estratégia intersetorial, reafirma que o enfrentamento do comportamento suicida e das violências autoprovocadas exige a articulação permanente das redes de cuidado e a superação de estigmas associados ao sofrimento psíquico. Os resultados culminaram na sanção da Política Municipal de Prevenção e Pósvenção do Suicídio, integrando o poder público, a academia e a sociedade civil como eixo central na proteção da vida e direitos. A implementação do Painel Epidemiológico e o monitoramento articulado entre o Núcleo de Prevenção e Cuidado à Pessoa em Situação de Violência e o Núcleo de Saúde Mental fortalecem a continuidade assistencial e a tomada de decisão baseada em dados. Além disso, essa integração promove processos formativos para gestores, profissionais e estudantes, impulsionando ações psicossociais territoriais. O CMVV consolida-se como instância permanente de monitoramento e promoção da cidadania. O desafio atual reside na sustentabilidade e atualização contínua das estratégias, garantindo que a saúde mental permaneça como diretriz transversal e prioritária na agenda pública municipal.
Prevenção Suicídio, Saúde Mental, Intersetorial.
ADRIANA MAGALI DEZOTTI BATISTA, ANDREA UCHIDA, FABIANA REGINA DA ROSA SANTOS, FABIANA MARTINS, LUCIANA APARECIDA MORAES DOS SANTOS, MEIRE LUCI DA SILVA