Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
Em tempos de esvaziamento de sentidos na vida, e de infinidades de possibilidades, as pessoas buscam categorias para pertencer. Hoje o profissional de saúde mais procurado é o categorizador, aquele que te coloca em um lugar. A esse fenômeno, chamamos medicalização da vida. Neste contexto, constata-se filas de espera para especialistas, em especial neuropediatra, em busca de laudo e medicação, como solução de problemas e acesso a direitos e benefícios sociais; Muita gente molda a vida em torno desses diagnósticos, criam grupos de convívio e de pertencimento. A grande questão é quando um diagnóstico ganha visibilidade e fomenta a busca por diagnósticos precoces, excessos de terapias, para crianças cada vez mais novas. Parte dessas terapias, incompatíveis com as políticas do SUS, acabam sendo oferecidas na rede privada sob judicialização. Diagnósticos feitos tão precocemente nos eximem da reflexão sobre aquele indivíduo e as estruturas sob as quais ele vive. Tendo em vista a urgência em iniciar a estimulação desde o nascimento, como forma de aproveitar as janelas de oportunidades do neurodesenvolvimento na primeira infância, a gestão municipal iniciou um movimento para construção de uma linha de cuidado da primeiríssima infância. Nasce o COMEÇAR BEM, iniciativa de formação da rede da AB para acompanhar todas as crianças desde o nascimento até os três anos de idade, observando e estimulando os marcos do desenvolvimento infantil, utilizando o brincar como via de acesso à criança.
Geral: Compartilhar a experiência da Rede de Atenção Psicossocial – RAPS de Suzano na implantação de núcleos de acompanhamento da primeiríssima infância em todas as unidades da AB, articuladas com as redes AB, Alyne, Bucal, Educação Permanente. Específicos: Promover a formação e fortalecimento de estratégias de estimulação e cuidado na AB, sobre o neurodesenvolvimento infantil para os profissionais que atuam na AB, com enfoque na primeiríssima infância em sua primeira fase; Incentivar o compartilhamento de saberes e cuidados entre os serviços: Psicologia e odontologia nas 24 unidades da AB, Psiquiatria Infantil, fonoaudiologia e nutrição na AB, CAPS Infantojuvenil, CIRANDA – Núcleo de Apoio ao Neurodesenvolvimento Infantil e neuropediatria na Atenção Especializada. Construir linha de cuidado municipal voltada a questões do desenvolvimento infantil; Implantar núcleos para o acompanhamento de marcos do desenvolvimento na primeiríssima infância em todas as 24 unidades da AB no município.
Encontros com os gestores da AB, em vários momentos: problematização da medicalização na infância, troca de experiências e estratégias; Formação de 10 turmas sobre desenvolvimento infantil: 237 profissionais da AB, utilizando Caderneta da Criança/MS; Implantação de núcleos multiprofissionais de acompanhamento da primeiríssima infância nas 24 unidades da AB; Elaboração de material de apoio; Acompanhamento do desenvolvimento infantil: início em agosto/2024, grupos com crianças e cuidadores de todas as crianças de 0 a 36 meses, em pelo menos 4 ciclos: nascimento a 6 meses/ 6 a 12 meses /12 a 24 meses e 24 a 36 meses; As crianças com sinais de alerta são acompanhadas por grupo específico de brincar na AB, estimulando o desenvolvimento; Após os 36 meses e processo de estimulação, as crianças que precisarem de atendimento específico: Fonoaudiologia e psicologia atendidas na AB; Alterações graves do comportamento, com prejuízos na funcionalidade: Núcleo CIRANDA ou APAE (habilitação/reabilitação) ou CAPSij: com comprometimento grave de comportamento/socialização; Psiquiatria ou neurologia infantil: tratamento medicamentoso, quando necessário. Pactuação de não diagnosticar crianças até os 36 meses com atrasos no desenvolvimento, com oferta de cuidado em tempo oportuno; Extensão do diálogo sobre desenvolvimento infantil e medicalização da infância com Secr. de Educação; Garantia de, pelo menos, uma consulta de saúde mental no pré-natal e puerpério, conforme Linha de Cuidado da RAPS.
O COMEÇAR BEM está se constituindo estratégia fundamental para ativação da missão da AB como promotora de saúde, fomentando a observação das necessidades e elaboração de estratégias para o contexto familiar que favoreçam o desenvolvimento da criança, mesmo para aquela que aguarda especialista. Além disso, gerou envolvimento dos profissionais da AB nas discussões sobre a medicalização da infância com as famílias, evitando o diagnóstico precipitado, respeitando as janelas de oportunidades do neurodesenvolvimento infantil, priorizando o brincar como estratégia de estimulação, através dos núcleos multiprofissionais para o acompanhamento do desenvolvimento de crianças de 0 a 36 meses, nas 24 Unidades da Atenção Básica. A estimulação em tempo oportuno – da criança com sua família – quando não atingiu o marco do desenvolvimento esperado para a idade, diminuiu os encaminhamentos para os especialistas. Esta observação dos marcos do desenvolvimento e estimulação pelo brincar baseiam-se na Caderneta da Criança do Ministério da Saúde como principal ferramenta de acompanhamento. Aproveita recursos do cotidiano da família para que seja acessível e factível. O trabalho com as famílias também tem apontado para uma maior segurança destas em relação ao desenvolvimento das crianças, valorizando o brincar, utilizando recursos disponíveis em seu contexto e o estreitamento dos laços afetivos entre a criança e os cuidadores.
Promover o diálogo sobre o desenvolvimento infantil entre profissionais e familiares aponta para novas formas de cuidado qualificado e compartilhado. A primeiríssima infância necessita de intervenção em ato. Não se pode perder janelas de oportunidade de desenvolvimento ou agravamento dos prejuízos por longo tempo de espera para especialista. Cabe a nós, profissionais do SUS, uma visão crítica sobre o apelo para técnicas de adaptação do sujeito ao meio, desconsiderando mudanças nas formas de se relacionar na contemporaneidade. Carregamos história de lutas pela não-manicomialização da vida, pelo cuidado em liberdade. Agora a luta se estende para garantia de uma infância olhada por todos. A não medicalização da infância começa com políticas públicas que recusem a imposição de diagnósticos precipitados, destacados do contexto de vida da criança. E sim: que promova oferta de um olhar cuidadoso e sistemático ao seu desenvolvimento de forma lúdica e formadora de vínculo, estimule o brincar, favoreça encontros, deposite um olhar generoso sobre o tempo de cada um, resgate brincadeiras infantis e a comunicação entre a criança e seus cuidadores. Por fim, uma releitura de um dito popular: Quem pariu e Matheus, será cuidado por todos nós!
medicalização, infância, desenvolvimento, cuidado
CAROLINA JACOB DA COSTA LIMA, DULCINEIA GOMES DE SENA RAMOS, CÍNTIA CRISTINA STEFFENS WATANABE, REGISLAINE APARECIDA RIBEIRO GONÇALVES, ALCIONE CRISTIANA DE SENA ALMEIDA, EDIMARA APARECIDA FERREIRA CHIASSO, JULIANA EDMUNDO CARNEIRO DE OLIVEIRA