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A cidade de Santos (SP) possui em sua rede de Saúde Mental um lastro de notória vanguarda na história da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB): a intervenção no hospital psiquiátrico local com o pronto estabelecimento de uma estratégia de substituição do modelo manicomial para um cuidado centrado no dispositivo que viríamos chamar de CAPS (LUZIO & L’ABBATE, 2006; KODA & FERNANDES, 2007). No entanto, saltando agora algumas décadas e já com os CAPS distribuídos por todo território brasileiro, estes permanecem desafiados em prosseguir continuadamente proporcionando um cenário assistencial que apresente experiências e inovações que fortaleçam o ideário do cuidado em liberdade, autonomia e respeito. Esse empenho é fundamental (e urgente) diante do atual avanço de diversas medidas legislativas que impulsionam um retrocesso do arcabouço legal da RPB (CRUZ, GONÇALVES & DELGADO, 2020; SILVA, BARCELOS & DALBELLO-ARAUJO, 2020). Assim, novas experiências, inovações e o compartilhamento destas figuram entre as principais ferramentas para o enfrentamento deste processo de “contra-reforma” na Saúde Mental.
Este trabalho tem por objetivo geral compartilhar uma experiência assistencial em modalidade grupal visando contribuir com a discussão das diferentes possibilidades de transformações individuais e coletivas com a prática de grupos em CAPS. Mais especificamente, visa costurar uma reflexão acerca dos impasses e potências dos grupos de formato aberto sob o olhar da Saúde Coletiva e, sobretudo, dos pilares das Reforma Psiquiátrica Brasileira.
A metodologia deste trabalho é o relato de experiência que se apresenta como um trabalho de linguagem, de narrativas, de um tipo de pesquisa que não se dá previamente, mas que é efeito de significação da experiência (DALTRO, 2019). Esta experiência faz referência a um grupo terpêutico aberto de caráter comunitário que ocorre em um CAPS na cidade de Santos desde 03/2015. Ao longo destes 10 anos, este grupo passou por diferentes combinados (os horários, os dias da semana e sua frequência). Deve-se destacar também que se trata de um “sobrevivente” ao contexto da pandemia. Nesta longeva trajetória, por muitos anos ocorreu com uma frequência de duas vezes por semana e sempre se manteve como um espaço aberto a toda comunidade CAPS (sejam usuários novos na unidade, sejam os ditos “estáveis”, sejam aqueles “em crise”, sejam os familiares). Essa heterogeneidade do recorte da evolução clínica, se aplica também a todas demais possíveis diferenças, estigmas e vulnerabilidades. Esse amplo espectro de “cores” é uma perspectiva definidora deste grupo. O limite de participantes é “o quanto a sala comporta”, sendo que, aproximadamente, vinte pessoas vivenciam cada experiência grupal. O autor deste trabalho é também facilitador deste grupo durante todo esse período desta experiência, contando apenas eventualmente com co-facilitador. Falas e afetações são registradas em um caderno do facilitador que, oportunamente, o resgata para o exercício de reflexão (e significação) da experiência em grupo.
Dúvidas, medo, desconfiança, conflitos, expressões de solidão e desamparo. Aqui estão os temperos mais proeminentes que sempre permearam os encontros deste grupo. Desde o início foram estas as emoções que mais intensamente afetavam o facilitador e que, por consequência, também teciam as possibilidades de transformações terapêuticas. Evidentemente, vivenciar de maneira tão constante tais afetações, fizeram esse facilitador também experimentar esses mesmos sentimentos para com o grupo e sua responsabilidade. Dúvidas quanto a seu papel. O medo de hostilição e desagregação do grupo com o grupo e do grupo com ele mesmo. Conflitos com os usários, entre os próprios usuários e com a equipe. Sentir-se carregando o sentimento de solidão (como “um subir escadas carregando uma geladeira” sozinho). E o desamparo diante do desejo, por vezes, borbulhante de desistir. A geografia deste espaço simbólico no curso desta trajetória foi evidenciando cada vez contornos mais tortuosos, porém de intersecções mais potentes. Como se essas afetações edificassem novas expressões na instituição grupo, uma passagem da preocupação aflituosa e dolorosa para um cuidado comum, coletivo, de todos, um cuidar do grupo como cuidar do mundo. Nessa sentido, o cuidado estabelecido no grupo atravessa um abismo e parece encontrar o amor como delineamento terapêutico.
A afetação preenchida de amor, naturalmente, apresenta uma identificação do grupo. O caráter comunitário e havendo como disparador o sofrimento mental (grave) constitui um terreno de grande fertilidade para a eclosão de uma resistência política, cujo contorno pode realçar as diferentes manifestações de amor. Um amor fortalecido enquanto preocupação política, o qual nestas circunstâncias é, necessariamente, indissociável de uma postura política. Aproximando-se assim do “amor mundi” de Hannah Arendt (LEMKE, 2010; SILVA, 2021). Um amor político que, deste modo, edifica o grupo por meio dessa afetação, assim como torna possível transformações (terapêuticas) no grupo. O relato desta experiência nos aponta para perspectiva de cuidado, com inspiração em Hannah Arendt, que entende a política como um agir em liberdade e o exercício político como uma atividade de criação, o desenvolvimento de novas formas de amor mundi, o afrontamento do instituído e a experimentação de novas formas de sociabilidade. (ORTEGA, 2000; LEMKE, 2010). Por fim, acredita-se que a prática de experiências com tal inspiração venham a fortalecer o cuidado em liberdade e o exercício da cidadania.
grupos; saúde mental; saúde coletiva; amor
FELLIPE MIRANDA LEAL