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A integração ensino-serviço-gestão-comunidade é uma diretriz estratégica do Sistema Único de Saúde (SUS) para reorientar a formação de profissionais de saúde a partir das necessidades sociais dos territórios. Apesar de amplamente prevista nas políticas públicas e nos marcos regulatórios da formação em saúde, observa-se que, na prática, a comunidade ainda ocupa frequentemente um papel passivo nos processos formativos, sendo utilizada como cenário de aprendizagem, mas pouco reconhecida como sujeito ativo do cuidado e da educação. No contexto municipal, essa contradição impacta diretamente a qualidade da formação, a efetividade das ações em saúde e o fortalecimento do controle social. A experiência aqui relatada emerge da necessidade de qualificar práticas formativas desenvolvidas no âmbito do SUS, problematizando modelos tradicionais de inserção discente nos serviços e propondo estratégias que ampliem a escuta, a participação e o protagonismo da comunidade nos processos de ensino-aprendizagem. Justifica-se este relato por sua contribuição à educação permanente em saúde, ao provocar reflexões críticas sobre as relações de poder na formação, fortalecer os princípios do SUS, especialmente a integralidade, a equidade e a participação social, e oferecer subsídios práticos para gestores, trabalhadores, instituições de ensino e conselhos de saúde interessados em avançar na construção de práticas formativas mais democráticas, dialógicas e territorializadas.
Relatar e analisar uma experiência formativa desenvolvida em contexto municipal do SUS que problematizou o lugar da comunidade na integração ensino-serviço-gestão-comunidade, buscando identificar limites, potencialidades e estratégias para o fortalecimento do protagonismo comunitário na formação de profissionais de saúde. Como objetivos específicos, buscou-se: a) refletir criticamente sobre práticas formativas tradicionais centradas no uso instrumental da comunidade; b) descrever estratégias de escuta e aproximação com o território; c) apontar aprendizados institucionais e pedagógicos relevantes para a qualificação da educação permanente em saúde no âmbito municipal.
Trata-se de um relato de experiência de natureza crítico-reflexiva, desenvolvido a partir de atividades formativas realizadas no âmbito da integração ensino-serviço-gestão-comunidade em serviços municipais de saúde, com participação de estudantes, trabalhadores, gestores e membros da comunidade. A experiência envolveu a observação sistemática das práticas formativas em cenários da Atenção Primária à Saúde, rodas de conversa com profissionais e usuários, escutas qualificadas no território, acompanhamento de atividades educativas e análise reflexiva dos processos pedagógicos adotados. As ações ocorreram ao longo de, pelo menos, seis meses, atendendo aos critérios de maturidade da experiência. A sistematização da experiência foi orientada por referenciais da educação permanente em saúde, da participação social e da pedagogia crítica, permitindo identificar padrões recorrentes de relação com a comunidade, níveis de participação e impactos no processo formativo. Os registros foram realizados por meio de diários de campo, reuniões de avaliação coletiva e discussões interprofissionais, respeitando os princípios éticos e institucionais do SUS.
A experiência evidenciou que, nas práticas formativas iniciais, a comunidade era majoritariamente posicionada como receptora passiva das ações educativas, com baixa participação nas decisões, no planejamento e na avaliação das atividades desenvolvidas. Observou-se desconhecimento, por parte de usuários, sobre os objetivos da presença de estudantes nos serviços, o que gerava constrangimentos e limitações na comunicação. A introdução de estratégias de escuta ativa, reconhecimento do território, diálogo com lideranças comunitárias e valorização dos saberes populares possibilitou avanços importantes. Houve maior vínculo entre estudantes, trabalhadores e comunidade, ampliação da compreensão das necessidades locais e reorientação de ações educativas a partir das demandas expressas pelos próprios moradores. Como resultado institucional, a experiência provocou reflexões entre gestores e equipes sobre o papel da comunidade na formação, incentivando práticas mais horizontais, participativas e alinhadas aos princípios do SUS. Para os estudantes, observou-se maior desenvolvimento de competências relacionadas à empatia, responsabilidade social, trabalho em equipe e compreensão ampliada do processo saúde-doença.
A experiência relatada demonstra que fortalecer o protagonismo da comunidade na integração ensino-serviço-gestão-comunidade é um desafio central, porém fundamental, para a qualificação da formação em saúde no SUS. Superar práticas utilitaristas e verticalizadas exige intencionalidade pedagógica, compromisso institucional e abertura ao diálogo com o território. Ao reconhecer a comunidade como sujeito ativo do processo formativo, ampliam-se as possibilidades de construção de práticas educativas mais coerentes com as necessidades sociais, promovendo aprendizado significativo para estudantes e maior efetividade das ações em saúde. Essa experiência reafirma a educação permanente em saúde como estratégia potente para transformar práticas, relações e saberes no âmbito municipal. Recomenda-se que gestores e instituições de ensino invistam na criação de espaços estruturados de escuta e participação comunitária, fortalecendo o controle social e contribuindo para a consolidação de um SUS mais democrático, equitativo e integral.
Integração ensino-serviço-gestão-comunidade, SUS
AFONSO LUÍS PUIG PEREIRA