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Anticoagulantes são utilizados com o objetivo de prevenir e tratar tromboembolismo venoso e diminuir o risco de acidente vascular encefálico em paciente portadores de fibrilação atrial, e após tromboembolismo pulmonar agudo, trombose venosa profunda, entre outras situações (1). Varfarina é um anticoagulante utilizado há mais de seis décadas e é o único disponível na Relação Municipal de Medicamentos (REMUME) de São Bernardo do Campo. Esse município possui um cardiologista na Policlínica Centro que faz atendimento de anticoagulação, cujos encaminhamentos eram restritos ao Hospital de Clínicas e aos pacientes acompanhados por ele nessa policlínica. O município também possui contrato com um prestador de serviço de cardiologia, que tem dificuldades em realizar o acompanhamento de usuários anticoagulados. Além disso, médicos responsáveis técnicos das Unidades Básicas de Saúde (UBS) manifestaram dificuldades técnicas em manejar anticoagulação nas UBS. Assim, usuários de anticoagulantes vindos do prestador de serviço de cardiologia, hematologia ou outras especialidades acolhidas nas UBS acabavam, em geral, sem seguimento adequado. Desta forma, o seguimento irregular nas UBS associada à dificuldade de manejo de anticoagulação manifestada pelos profissionais médicos e a dificuldade de acesso desses casos para o cardiologista da Policlínica estimulou a organização de um fluxo de cuidado ao usuário em anticoagulação na rede pública de São Bernardo do Campo.
Estabelecer um fluxo de cuidado aos usuários em anticoagulação na Rede de Atenção à Saúde (RAS) de São Bernardo do Campo, de forma a garantir um acompanhamento efetivo para todos que iniciam o atendimento na UBS, na Policlínica Centro, no prestador de serviço de cardiologia, Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) e Hospitais.
Em maio de 2022, organizou-se um grupo de trabalho interdepartamental que incluía o Departamento de Atenção Básica e Gestão do Cuidado (DABGC), Assistência Farmacêutica, Central de Regulação Ambulatorial e o Departamento de Atenção Especializada (DAE) com o objetivo de estabelecer um fluxo de cuidado aos pacientes em uso de anticoagulantes. A partir de reuniões trimestrais, o grupo responsabilizou-se por diversas atividades para atingir este objetivo, como a revisão da literatura para a atualização do protocolo de anticoagulação da SBC (última versão era de 2015), o contato com outros municípios de forma a repensar em outras possibilidades de organização e com outros entes necessários para o fechamento desta linha de cuidado. A Assistência Farmacêutica realizou junto aos farmacêuticos das UBS um levantamento através de entrevistas aos usuários que retiravam a medicação “Varfarina” na UBS. Nessa entrevista, constava o local de atendimento do paciente e taxa de acompanhamento efetivo com a realização regular de exames de controle e retornos periódicos. O DABGC revisou as possibilidades de organização desse tipo de atendimento entre as categorias profissionais das UBS. O DAE disponibilizou consultas com o cardiologista da Policlínica Centro para atender os casos de difícil manejo na Atenção Básica e a Central de Regulação analisou todas as possibilidades de novas ofertas dentro e fora do município para seguimento desse perfil de usuários.
No período de setembro a dezembro de 2022, uma média de 743 usuários retiraram mensalmente varfarina nas farmácias das UBS de SBC, sendo 60% da Policlínica Centro (90% destes em seguimento regular); 1 5% nas UBS (90% em seguimento irregular); 1 5% em hospitais públicos; e 1 0% em particular ou convênio. Após esse levantamento, o DABGC e Assistência Farmacêutica firmaram novo modelo de cuidado de anticoagulação centrado numa equipe multiprofissional com médico e sua equipe de Saúde da Família (EqSF) e o farmacêutico da UBS. Pactuou-se, então, a partir de dezembro de 2022, que o farmacêutico é o principal responsável pelo monitoramento dos usuários de anticoagulação da UBS, além de realizar a consulta farmacêutica, ajuste de doses, solicitação de INR e discussão de casos junto ao médico e equipe da EqSF se necessário. Organizou-se um fluxo de anticoagulação para RAS SBC, que incluiu a criação de uma especialidade regulada “Cardiologia Manejo de Anticoagulante”, para os casos de difícil controle da UBS, disponibilização de um novo protocolo de anticoagulação que contém fluxo, passo a passo para identificar pacientes elegíveis ao uso de anticoagulante, orientações para ajuste de doses e o papel de cada profissional no seguimento desse perfil de usuários.
O manejo de anticoagulação é desafiador, porém essencial para a prevenção de acidente vascular encefálico em pacientes de risco. Esta experiência indicou a importância da valorização das demandas trazidas pelos profissionais da rede aliada à integração de diferentes departamentos em prol de um cuidado em rede, articulados, com critérios e respaldado de protocolos nacionais e internacionais baseados em evidências, de forma a melhor aproveitar o potencial de cada categoria profissional e de cada serviço disponível no município. Assim, por meio de uma colaboração interprofissional e interdepartamental, otimizamos os recursos do Sistema Único de Saúde do município e melhoramos o cuidado de usuários de alto risco em São Bernardo do Campo.
Linha de cuidado, usuário, anticoagulação.
Christianni Poltronieri Bethancourt, Cássia Cristina Mirarchi venci Gonzalez, Bruno Keiji Okoshi, Natália de Paula Kanno