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A febre amarela é uma doença viral aguda não contagiosa zoonótica, transmitida pela picada de mosquitos hematófagos da família Culicidae. Apresenta dois ciclos, um silvestre, sendo os primatas não humanos (PNH) os principais hospedeiros, e um urbano, no qual o homem é o principal hospedeiro. Os PNH são sentinelas para a identificação da circulação da doença, assim como forma de prevenção é desenvolvida a vigilância passiva, norteada pelo Programa de Vigilância e Controle de Febre Amarela. Devido à alta letalidade, o diagnóstico em PNH é imprescindível para evitar casos humanos, sendo necessário aplicar medidas protetivas em casos de epizootias. A vigilância passiva de FA em primatas não humanos possibilita identificar a circulação viral de forma precoce, delimitar a área de transmissão, identificar e orientar locais com populações sob risco e mapear áreas para intensificar as ações de vigilância. Esse sistema de Vigilância de Epizootias em PNH iniciou-se em 1999, após casos humanos de febre amarela silvestre precedida da ocorrência de epizootias em PNH, na região Centro-Oeste. Desde então, o Ministério da Saúde preconiza iniciativas regionais de detecção da circulação do vírus amarílico ainda em seu ciclo enzoótico.
Em 2016, após um caso positivo de FA em Ribeirão Preto, estabeleceu-se uma parceria entre o Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE) XXIV, que abrange o Departamento Regional de Saúde (DRS) XIII, e o Programa de Residência Veterinária em Área Profissional da Saúde – Medicina Veterinária e Saúde (PRAPS-MVS) da FCAV/Unesp objetivando superar dificuldades comuns aos municípios para realização da vigilância passiva de PNH. Na época, muitos municípios enfrentavam limitações em termos de pessoal treinado e materiais de coleta, inviabilizando a manipulação dos cadáveres com segurança. Essa parceria mostrou-se extremamente importante pois viabiliza a realização da vigilância passiva e contribui para formação qualificada dos MVRs. Diante do exposto, este trabalho objetiva relatar a experiência de elaboração e consolidação do protocolo para encaminhamento de PNH mortos para desenvolvimento, estruturação e consolidação da vigilância de epizootias como alerta precoce para FA silvestre.
As autoridades de saúde locais (Secretaria Municipal de Saúde – SMS) diante da informação de morte de macaco devem seguir o roteiro básico de investigação de morte de PNH. SMS deve imediatamente proceder à notificação com registro SINAN e iniciar a investigação: preencher a Ficha de Notificação/Investigação de Epizootia, registrar a localização no SISS-Geo e cadastrar a requisição e envio de amostra no GAL. Posteriormente, contactar MVR responsável pela atividade de vigilância da FA para envio dos cadáveres com materiais necessários para armazenamento das amostras (criotubos, potes coletores universal, tubo falcon), além da ficha de notificação, histórico do animal com registro no SISS-GEO e número do SINAN. Protocolo para encaminhamento resumido em etapas. I. Contato entre SMS e MVR para agendamento da entrega do primata na área da Medicina Veterinária Preventiva (DPRSU/FCAV/Unesp). II. Recepção e acondicionamento do primata no Serviço de Patologia de Animais Selvagens. III. Necrópsia sob responsabilidade dos MVR da Patologia de Selvagens e acompanhada pelos MVR da Medicina Veterinária Preventiva. IV. Coleta dos órgãos principais: cérebro, coração, pulmão, fígado, rim e baço, mais fragmento de cérebro para vigilância da raiva V. Acondicionamento e identificação das amostras (SINAN e SMS). VI. Armazenamento dos criotubos em nitrogênio líquido (-80ºC). VII. Entrega das amostras biológicas e encaminhamento para o Instituto Adolfo Lutz sob responsabilidade da SMS.
Ao longo desses quase dez anos de trabalho foi possível atender às demandas das SMS da regional de Ribeirão, respondendo adequadamente ao envio de mais de 200 primatas mortos e, consequentemente, superando dificuldades que poderiam comprometer a eficácia do monitoramento e controle da doença. Os PNH recebidos eram de vida livre, encontrados mortos, ou de cativeiro e a maioria dos gêneros Callithrix sp., Alouatta sp., Ateles sp., Sapajus sp., variando de acordo com a fauna local. Essas atividades possibilitaram a integração ensino-serviço, proporcionando um trabalho articulado, coletivo e integrado envolvendo MVR, docentes e servidores das SMS, além de aprimorar a capacidade de detecção e resposta à enfermidade. Com isso, foi possível o diagnóstico precoce da situação epidemiológica das regiões próximas, estabelecendo medidas preventivas à população, como reforço vacinal à população. E mais recentemente, possibilitou a busca ativa de carcaças e animais doentes em áreas de risco, além de registrar esses locais com presença de PNH na plataforma SISS-GEO. Considerado os resultados positivos do protocolo a epizootia do final de 2024 e início de 2025 no Município de Ribeirão Preto, o estudo e modelo de projeção (corredores ecológicos) e a possiblidade de propagação do vírus no período sazonal de 2024/2025, a parceria e o protocolo de envio foram estendidos à GVE XIV, regional de Barretos, e à GVE XVIII, de Franca.
O aprimoramento da capacidade de detecção e resposta às enfermidades exige a participação de todos os profissionais envolvidos direta ou indiretamente com saúde pública. Médicos Veterinários, médicos, enfermeiros e demais profissionais envolvidos com a assistência são os primeiros a receber os casos suspeitos e com isso, é necessário que estejam capacitados a iniciar a investigação, conscientes das implicações da detecção de um caso suspeito. A implantação e consolidação desse protocolo permitiu a articulação entre esses profissionais, aumentando a capacidade de integração, organização e resolução dos serviços públicos no contexto de saúde única. As atividades do protocolo contribuem tanto para o fortalecimento da vigilância de uma importante arbovirose, como para a qualificação de médicos veterinários conectando áreas distintas da profissão, Vigilância em Saúde e Atenção Básica e a Patologia de Animais Selvagens. Além disso, essa experiência pode ser considerada mais uma inciativa da abordagem de Uma só saúde. As ações e serviços do protocolo estimulam a visão sistêmica, a colaboração entre profissionais da saúde, promovendo resposta mais rápida e coordenada, além de otimizar os recursos.
primatas, saúde única, vigilância, zoonoses
LUANA BONON, MÁRCIO JUNIO LIMA SICONELLI, MARIELA FONSECA TOSCANO, DIEGO CASSIO RAFAEL BRAULINO NOGUERA, KARIN WERTHER, ADOLORATA AP. BIANCO CARVALHO, KARINA PAES BÜRGER