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O envelhecimento populacional impõe desafios crescentes aos sistemas de saúde, especialmente no cuidado às condições crônicas que afetam a funcionalidade e a autonomia das pessoas idosas. A dor crônica, definida como aquela com duração superior a três meses, é uma das principais causas de limitação funcional, uso recorrente de serviços de saúde, polifarmácia e sofrimento psíquico nessa população. No âmbito do SUS, o manejo inadequado da dor compromete o envelhecimento saudável e sobrecarrega a Atenção Básica e os serviços especializados. Nesse contexto, o Centro de Referência da Dor Crônica (CR Dor) do Município de São Paulo foi implantado com o objetivo de organizar o cuidado especializado em dor, qualificando o manejo clínico e promovendo intervenções integradas que consideram aspectos físicos, emocionais e sociais do envelhecimento. A experiência do CR Dor evidencia a importância de estratégias que superem o modelo biomédico centrado na medicalização, fortalecendo práticas que promovem funcionalidade, autonomia e qualidade de vida na velhice.
Organizar o cuidado especializado em dor crônica na Rede de Atenção à Saúde, atuando como serviço de referência regulada; Reduzir incapacidades e limitações funcionais associadas à dor crônica, especialmente em pessoas idosas; Estimular autonomia, autocuidado e participação ativa do usuário no tratamento; Contribuir para o envelhecimento saudável, favorecendo manutenção da funcionalidade, independência e participação social.
A metodologia de trabalho do Centro de Referência da Dor Crônica organiza-se como um fluxo clínico e assistencial multiprofissional, integral e orientado pela abordagem biopsicossocial da dor, com ênfase na reabilitação funcional e na melhoria da qualidade de vida dos usuários. O acesso ocorre por encaminhamento regulado da Atenção Básica, destinado a pessoas com dor persistente há mais de três meses, após tentativas terapêuticas sem resposta satisfatória. A equipe multiprofissional realiza avaliação inicial abrangente, considerando aspectos clínicos, funcionais, psicológicos e sociais, com acolhimento, triagem e identificação das necessidades individuais. A partir dessa avaliação, é elaborado um Plano Terapêutico Singular, construído de forma compartilhada entre profissionais e usuário, que orienta intervenções integradas, como manejo medicamentoso, solicitação de exames, fisioterapia, terapia ocupacional, acupuntura e outras práticas terapêuticas. São definidos critérios de alta, contrarreferência e continuidade do cuidado, assegurando a articulação com a Rede de Atenção à Saúde e a possibilidade de retorno ao serviço quando indicado.
No período entre março de 2021 e dezembro de 2025, o Centro de Referência da Dor Crônica apresentou resultados expressivos tanto em volume assistencial quanto em desfechos terapêuticos. O registro de 1.404 altas por objetivos alcançados indica a efetividade do modelo de cuidado adotado, sendo que 745 usuários tinham 60 anos ou mais, correspondendo a 53% do total, o que evidencia a centralidade da dor crônica no processo de envelhecimento e a necessidade de respostas especializadas. A ampla faixa etária atendida, de 13 a 94 anos, reforça o caráter inclusivo do serviço e capacidade de adaptação a diferentes perfis de usuários. No mesmo período, foram realizadas 303.860 consultas multiprofissionais, envolvendo especialidades como acupuntura, fisioterapia, geriatria, psicologia, terapia ocupacional, enfermagem, serviço social e ortopedia, entre outras, que resultaram na execução de 374.391 procedimentos, contemplando intervenções clínicas, reabilitadoras e terapêuticas. A diversidade de categorias profissionais envolvidas demonstra a adoção consistente da abordagem biopsicossocial, com intervenções voltadas não apenas ao controle da dor, mas também à reabilitação funcional, ao manejo do sofrimento psíquico e à promoção do autocuidado. Esse modelo permite que o serviço atue como dispositivo estratégico na qualificação do cuidado às condições crônicas no SUS, favorecendo o ganho funcional, a manutenção da autonomia e a redução de incapacidades, especialmente entre pessoas idosas.
O CR Dor no MSP se consolida como importante estratégia para a promoção do envelhecimento saudável no SUS municipal, ao oferecer cuidado integral às pessoas com dor crônica. Ao priorizar funcionalidade, autonomia e qualidade de vida, o serviço contribui para a redução de incapacidades e para a manutenção da participação social na velhice. A experiência reforça a importância de modelos assistenciais integrados, multiprofissionais e centrados na pessoa, capazes de responder às demandas do envelhecimento populacional. A consolidação e ampliação desse tipo de serviço representam avanço significativo na qualificação da Rede de Atenção à Saúde e na garantia do direito ao envelhecimento saudável.
Dor crônica; Envelhecimento saudável; SUS
JANICE OLIVIA GALVANE, ANA CAROLINE BARBOSA VERGUEIRO, MARIA MASSARI VENTICINQUE, RAPHAEL ANIZIO DA SILVA, VALDIR MONTEIRO PINTO, LÚCIA HELENA DE AZEVEDO