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A primeira infância é um período crucial para o desenvolvimento humano, no qual intervenções oportunas podem transformar trajetórias cognitivas, emocionais, comportamentais e comunicativas. Na Atenção Primária à Saúde, espaços de cuidado ampliado e interdisciplinar são essenciais para garantir que crianças pequenas tenham acesso à estimulação adequada e à identificação precoce de sinais que possam demandar atenção especializada. Na UBS Palmeiras, em Suzano/SP, território ruralizado, com acesso restrito a serviços de alta complexidade, observou-se um número crescente de crianças entre 3 e 4 anos com queixas de atraso de fala, dificuldades comportamentais e desafios na socialização. Como resposta, a Psicologia e a Fonoaudiologia iniciaram, em fevereiro de 2025, um acompanhamento conjunto com oito crianças, envolvendo entrevistas com responsáveis, encontros lúdicos mensais e orientações. A experiência justifica-se pela relevância para o SUS municipal ao fortalecer o papel da APS na promoção do desenvolvimento infantil, prevenção de agravos e ampliação do vínculo entre famílias e serviços.
Promover estímulo global do desenvolvimento infantil, com foco em linguagem, comportamento e interação social. Identificar precocemente sinais de possíveis transtornos do neurodesenvolvimento, favorecendo intervenções oportunas e encaminhamentos quando necessários. Fortalecer o vínculo entre crianças, famílias e serviços da APS. Oferecer orientações práticas aos responsáveis sobre rotinas, limites, comunicação funcional, desfralde, hábitos orais inadequados e dinâmicas familiares que impactam no comportamento infantil. Proporcionar um espaço terapêutico lúdico e acolhedor, integrando Psicologia e Fonoaudiologia na construção de cuidado ampliado.
O trabalho foi desenvolvido na UBS Palmeiras por uma psicóloga e uma fonoaudióloga. Em 27/02/2025, iniciou-se o processo com entrevistas aos responsáveis das oito crianças participantes, de 3 a 4 anos, para compreender queixas, histórico de desenvolvimento, dinâmica familiar e demandas específicas. Os atendimentos ocorreram mensalmente ao longo de um ano, totalizando doze encontros. As sessões, realizadas em dupla ou pequenos grupos, utilizaram atividades dirigidas como estratégias de estimulação da linguagem, ampliação vocabular, melhora do comportamento e fortalecimento das habilidades sociais. A cada encontro, foram fornecidas orientações verbais e escritas às famílias, com linguagem simples e adaptada, abordando manejo comportamental, comunicação, criação de rotinas, limites, desfralde, além de hábitos orais inadequados como sucção digital, uso de chupeta e mamadeira. Também foram orientadas práticas para favorecer autonomia e organização emocional da criança. Durante o acompanhamento, observaram-se aspectos cognitivos, comportamentais e comunicativos, bem como sinais precoces de possíveis transtornos do neurodesenvolvimento, permitindo orientar as famílias e realizar encaminhamentos oportunos para serviços especializados quando necessário. Em fevereiro de 2026, uma nova entrevista com os responsáveis avaliou os progressos obtidos. A metodologia priorizou o cuidado interdisciplinar, o vínculo com as famílias e a continuidade entre atendimento e ambiente doméstico.
Os resultados evidenciaram melhorias significativas no desenvolvimento das oito crianças acompanhadas. Houve avanço expressivo na linguagem, ampliação de vocabulário, maior clareza na comunicação e aumento da intenção comunicativa. Em relação ao comportamento, observou-se redução de crises, melhor compreensão de limites e regras e ampliação da capacidade de esperar, compartilhar e interagir com pares e profissionais. A intervenção também fortaleceu a socialização: crianças antes retraídas passaram a participar das atividades, demonstrar iniciativa e responder de maneira mais funcional às propostas terapêuticas. Famílias relataram melhora da convivência doméstica, maior segurança no manejo e maior compreensão das necessidades das crianças. A entrevista realizada com os responsáveis pós intervenção indicou melhora significativa na fala, comportamento, interação social e rotina familiar, bem como evolução nos processos de desfralde e de abandono dos hábitos orais inadequados. Ao integrar saberes e práticas, a equipe possibilitou cuidado qualificado, acessível e culturalmente adequado ao território.
A experiência reforça o papel fundamental da Atenção Primária como espaço de promoção do desenvolvimento infantil, prevenção de agravos e cuidado interdisciplinar. O trabalho conjunto entre Psicologia e Fonoaudiologia demonstrou que intervenções simples, porém contínuas, lúdicas e sensíveis ao território, têm potência para transformar trajetórias de crianças pequenas. Os resultados alcançados evidenciam a importância da estimulação precoce, do olhar ampliado e do acompanhamento longitudinal, especialmente em regiões rurais, onde o acesso a serviços especializados é limitado. O envolvimento das famílias e a oferta de orientações claras também se mostraram essenciais para a manutenção dos ganhos alcançados. Concluiu-se que a participação no grupo foi resolutiva e que a integração entre Psicologia e Fonoaudiologia ofereceu cuidado efetivo, acessível e ajustado ao contexto territorial. A experiência aponta para a necessidade de continuidade da ação, fortalecendo o compromisso do SUS municipal com o cuidado integral e humanizado na primeira infância.
Neurodesenvolvimento, orientação, estímulação
ALINE ROBERTINA DOS SANTOS UEDA, CAMILE LARISSA FERREIRA