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A busca por melhores modelos de triagem nos CAPS é uma realidade crescente em muitos municípios. As demandas vindas da estratégia saúde da família em Ubatuba têm aumentado muito e a necessidade de um olhar afetuoso, qualificado, assertivo e norteador mais ainda. Os diagnósticos em saúde mental na infância estão numa crescente e os serviços de saúde têm que absorver essa população, trabalhando em conjunto para acolher, diagnosticar, acompanhar e criar espaços terapêuticos em rede. Dessa forma, fomos elaborando propostas que englobassem tanto um olhar multiprofissional, quanto facilitador para o processo de matriciamento das equipes como um todo. A nossa ideia não era se prender em escalas diagnósticas e sim em triar a população encaminhada para verificar se contemplasse o perfil de paciente para permanecer em acompanhamento no CAPS e, ao mesmo tempo, ter a participação da atenção básica nesse processo para facilitar o manejo nas ESF e obter um acompanhamento mais pleno e de qualidade. As triagens não eram apenas sobre ter ou não um diagnóstico; ou sobre ficar ou não no CAPS. Mas sim sobre acolher, discutir, diagnosticar, acompanhar, construir caminhos e melhorar o sistema de saúde; para aí sim, criar novas políticas públicas qualificadas para as populações assistidas. Nosso modelo atual passou por mais de cinco importantes modificações até incluir um número de encontros possíveis, temas e olhares qualificados.
Criar um modelo onde as crianças encaminhadas não fossem vistas apenas uma vez e nem por apenas um profissional. Saímos de um modelo medicocêntrico para um olhar ampliado de, no mínimo, três profissionais diferentes (entre eles: médica, enfermeira, terapeuta ocupacional, psicóloga, técnica de enfermagem e assistente social) e com a participação da ESF em pelo menos um encontro. E chegamos em três encontros para termos um olhar em momentos e diferentes para construção de impressões mais qualificadas sobre esse indivíduo.
Nossa primeira necessidade foi criar uma “ficha de triagem” que era usada pelo médico assistente do CAPS, solitário, em apenas um encontro mensal com a criança e sua família. Essa ficha norteava se a criança tinha ou não o perfil de ser acompanhada pelo CAPS e informações básicas sobre sua queixa. Num segundo momento se somou a essa avaliação a figura do médico da estratégia de saúde da família. Isso ampliou o que se sabia dos casos, mas ainda assim, o olhar era sempre baseado na queixa do paciente e num possível tratamento. Tanto a equipe ficava insatisfeita, como a população, pois as opções de serviços oferecidos pelo CAPS também precisavam ser ampliadas. O terceiro passo foi incluir outros profissionais na triagem para somar saberes. Psicólogos e enfermeiros foram contribuindo com outras formas de olhar para a demanda encaminhada. Percebemos num quarto momento que apenas um encontro era muito pouco, ainda mais se tratando do atendimento de crianças, conversar, ver as habilidades, brincar e conversar com o responsável exigia, no mínimo três encontros. O quinto e último momento foi a qualificação desses olhares. Já tínhamos a presença de, no mínimo três técnicos na triagem e da ESF sendo matriciada. Então passamos a utilizar fichas de avaliação de habilidades afetivas, habilidades sociais, perfis sensoriais e rastreio biosócio-familiar. Assim, notamos que a cobertura dos assuntos e dos olhares sobre a criança nos encontros das triagens passou a ser mais completa e abundante.
O modelo que construímos e que seguimos utilizando nos mostra o histórico desse paciente e dessa família, bem como suas fragilidades sócio ambientais e possíveis fatores de risco para seu adoecimento. Além disso, serve como um rastreio das principais patologias em saúde mental acompanhadas pelo CAPS. São questionários e checklist em três blocos preenchidos em partes pelos cuidadores e parte pela equipetécnica. O que se observou foi que conforme fomos ampliando o olhar multiprofissional, mais percebemos a necessidade de acompanhamentos e de discussões de casos e da criação de grupos multiprofissionais para os pacientes que permaneceriam em nosso serviço de especialidade. Ou seja, o olhar da triagem foi ampliado e, com isso, o serviço também se qualificou: o serviço se empoderou de seu papel técnico dentro da rede de saúde e da sua responsabilidade em nortear os pacientes para outros núcleos de apoio e suporte. O CAPS se tornou não somente um equipamento de cuidado, mais um norteador de ações e, com isso, um facilitador de acolhimento dessas famílias com um olhar mais amplo e humano. Antes, apenas consultas médicas era prioridade dentro do serviço; as discussões eram “de médico para médico”; hoje as ações são coletivas, matriciadas e visando a integralidade dentro do SUS. Tecemos uma rede maior de apoio ao paciente e pudemos também incentivar os personagens da AB para participarem com maior frequência. Dessa forma nosso CAPS foi ganhando forma, qualidade e identidade na rede.
Junto com a necessidade de um instrumento qualificado de avaliação desses pacientes precisou acontecer a solidificação de uma identidade para o serviço do CAPS infanto juvenil em Ubatuba. Saímos de um microambulatório com apenas um psiquiatra infantil sem suporte de equipe multidisciplinar para um espaço próprio com equipe completa preconizada pelo Ministério da Saúde e responsável em atender uma demanda cada vez mais diversa e crescente. O instrumento de triagem foi um divisor de águas para a qualificação desse cuidado com a população. Sabemos das dificuldades em fazer três encontros: a logística dos deslocamentos das famílias, a precariedade dos espaços de atendimento, as agendas sobrecarregadas dos profissionais são apenas alguns dos desafios. Além disso, despertar o interesse na discussão de casos em saúde mental das equipes da atenção básica e a interlocução com a rede de apoio é uma constante instigação no nosso caminhar. Por fim, notamos a necessidade de um afinamento, um equilíbrio na linguagem e nos humores que a equipe do CAPS tem que ter para conseguirem acordar, somar e deixar ajustado esse processo todo. Ao ampliar nosso olhar sobre as crianças, amadurecemos enquanto equipe e profissionais. A saúde pública se fez.
Caps Infanto juvenil, Acolhimento, Triagem, Equipe
MARCELA PELLEGRINO RODRIGUES, Anna Caroline Ferreira de Oliveira, Patrícia Lopes Fontes, Suzy Mara Ribeiro Paiva de Santana, Maria Olivia Pimentel Samersla