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No bairro Lago Azul, no município de Franco da Rocha, observou-se, a partir das práticas das equipes da Atenção Básica em Saúde e da Proteção Social Básica, o aumento de demandas relacionadas ao sofrimento psíquico, isolamento social e fragilização de vínculos entre mulheres adultas, especialmente após a pandemia de COVID-19, bem como a ausência de espaços coletivos de convivência e escuta no território. Diante desse contexto, em junho de 2023, foi criado o grupo de mulheres “Crochetando Laços e Papos”, fruto da parceria entre a Unidade Básica de Saúde Lago Azul e o Centro de Referência da Assistência Social Lago Azul, constituindo uma estratégia intersetorial entre a Atenção Básica e o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. O crochê é utilizado como recurso expressivo para acolhimento, promoção da saúde mental e fortalecimento de vínculos comunitários. A experiência ocorre no território de abrangência da UBS e do CRAS, em encontros semanais, com mulheres a partir de 18 anos. Os encaminhamentos ocorrem por busca ativa da Agente Comunitária de Saúde, atendimentos da psicóloga da Equipe Multiprofissional na Atenção Primária à Saúde (e-Multi) e acompanhamento das técnicas sociais do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) no CRAS. A relevância para o SUS e para a rede socioassistencial está na promoção da saúde mental, prevenção de agravos, fortalecimento de vínculos e ampliação das redes de apoio no território.
Promover o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários entre mulheres em situação de vulnerabilidade social; contribuir para a redução do isolamento social e do estresse, por meio de atividades coletivas e espaços de diálogo; estimular a autoestima, a autonomia e o sentimento de pertencimento; utilizar o artesanato como estratégia de convivência, expressão e ressignificação de experiências de vida; promover espaços de troca de experiências, apoio mútuo e reflexão sobre temas de interesse feminino; estimular a produção coletiva como instrumento de cooperação, solidariedade e participação social.
O grupo é desenvolvido por meio de encontros semanais realizados no CRAS Lago Azul, no período da manhã, das 9h às 11h, conduzidos pelas Agentes Comunitárias de Saúde, com apoio da psicóloga da equipe e-Multi e da equipe do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), fortalecendo a articulação entre serviços da rede pública de saúde e assistência social favorecendo o cuidado integral e intersetorial. Os encontros são organizados em formato de oficina. A sala foi ambientada com peças artesanais em crochê produzidas pelas próprias participantes, contribuindo para a construção de um espaço acolhedor e de pertencimento. As atividades iniciam-se com alongamento, seguidas de rodas de conversa com diferentes temas, realizadas de forma simultânea à produção artesanal, favorecendo a expressão espontânea, a troca de experiências e o fortalecimento dos vínculos. Ao final, é disponibilizado lanche no CRAS, fortalecendo o convívio entre as participantes. Durante os encontros são abordados temas relacionados ao cotidiano das mulheres, saúde, vínculos familiares, convivência comunitária e direitos sociais, a partir das demandas apresentadas pelo próprio grupo. Os materiais utilizados são provenientes da Secretaria de Assistência Social, do Fundo Social de Solidariedade, de doações de algumas participantes e das equipes da UBS e do CRAS.
Ao longo de mais de dois anos de desenvolvimento do coletivo, com média de 30 participantes por encontro, observou-se evolução significativa entre as mulheres, especialmente em aspectos relacionados à autoestima, criatividade, persistência e autonomia. As participantes passaram a demonstrar maior segurança nas relações interpessoais, fortalecimento dos vínculos e ampliação das redes de apoio, evidenciados pela participação ativa nos encontros, pela permanência no grupo e pelas trocas estabelecidas entre elas. Também foram identificados impactos na inserção social, com algumas participantes passando a se envolver em atividades produtivas, projetos pessoais e novas oportunidades de geração de renda, além de maior participação em atividades comunitárias. O grupo apresenta rotatividade característica dos serviços de convivência, com participantes que se afastam temporariamente e posteriormente retornam, mantendo o coletivo dinâmico e acolhedor para as novas integrantes. A experiência contribuiu ainda para o fortalecimento da articulação entre CRAS e UBS, ampliando estratégias de cuidado compartilhado no território e qualificando as ações de promoção da saúde mental e fortalecimento de vínculos.
A experiência do coletivo Crochetando Laços e Papos demonstra a importância de espaços grupais intersetoriais como estratégia de promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento de vínculos comunitários no território. Ao longo do desenvolvimento das atividades, observou-se que a oferta de um espaço acolhedor, aliado ao uso do artesanato como recurso metodológico, favoreceu o diálogo, a expressão de sentimentos, a convivência e o protagonismo das participantes, contribuindo para o fortalecimento da autoestima e das redes de apoio. A parceria entre a Assistência Social (SUAS) e a Atenção Básica em Saúde (SUS) mostrou-se fundamental para qualificar o cuidado integral, ampliando possibilidades de acompanhamento e suporte às mulheres atendidas, além de fortalecer a articulação entre os serviços da rede pública. Como perspectiva futura, pretende-se ampliar as ações de produção coletiva com finalidade solidária, fortalecer a participação das usuárias nas decisões e no planejamento das atividades e consolidar o coletivo como espaço de referência no território para a promoção da saúde mental e o fortalecimento de vínculos.
Saúde mental, saúde da mulher, convivência
IVONE LEMOS RODRIGUES DA SILVA, SHIRLENE DE MENDONÇA RIBEIRO, JULIANA DE MIRANDA SANTOS, SILVIA FATIMA MOURA FRANZONI, ROSANGELA APARECIDA CHIMELLO, JULIANA AMORIM SATIRO NASCIMENTO