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A Gestão Autônoma da Medicação (GAM) é uma estratégia terapêutica de cogestão que tem como premissas o protagonismo e a corresponsabilidade no processo decisório do cuidado em saúde entre o usuário, equipe de referência em saúde, familiares e outros atores que compõem a rede de apoio do sujeito. A GAM foi adaptada para o contexto brasileiro no início dos anos 2000 voltada, inicialmente, para o cuidado compartilhado de pessoas em sofrimento psíquico, que fazem uso de medicamentos psicotrópicos, com o intuito de fazer com que esses indivíduos tivessem a capacidade de apropriação e poder de escolha no processo de tratamento. Em 2024, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Adulto III ‘Sem Fronteiras’, a GAM foi iniciada tendo como facilitadoras uma farmacêutica, uma médica psiquiatra e uma psicóloga. A equipe observou que havia uma quantidade significativa de usuários que faziam uso abusivo ou irregular das medicações psicotrópicas, associado a crises frequentes e fragilização do cuidado compartilhado. Também foi notado que alguns usuários realizavam movimentos frequentes de negociar seu tratamento medicamentoso, o que apesar de ser legítimo, por vezes causava desgastes na relação com a equipe. Desse modo, buscou-se implementar um grupo de suporte de pares com base no Guia GAM para ampliar o diálogo sobre o uso de medicação e a cogestão do tratamento entre usuários do CAPS Adulto III ‘Sem Fronteiras’.
• Implementar um grupo de suporte de pares com base no Guia GAM para ampliar o diálogo sobre o uso de medicação e a cogestão do tratamento entre usuários do CAPS Adulto III ‘Sem Fronteiras’; • Promover um espaço de reflexão coletiva para a construção/revisão dos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) de cada participante; • Fortalecer a compreensão crítica do cuidado em saúde mental, destacando seu caráter interprofissional, intersetorial e territorial, promovendo o protagonismo e a corresponsabilidade dos usuários em suas trajetórias terapêuticas; • Investir no estímulo e ampliação da autonomia dos sujeitos, partindo de uma noção que envolve a relação entre pessoas, no contexto das instituições e redes comunitárias.
A seleção dos participantes foi realizada a partir da indicação dos profissionais de referência do CAPS, considerando os históricos de cuidado e pela manifestação de interesse pelos próprios usuários. Pactuamos que o grupo seria fechado, semanal, com até 10 usuários e que funcionaria de forma cíclica, com término ao completar as etapas predefinidas do Guia GAM. Cada ciclo consistiu na aplicação estruturada dos passos do guia (noções de direito, deveres e cidadania, discussão sobre autonomia e rede de apoio, compreensão sobre Reforma Psiquiátrica e saúde mental, exploração da experiência com medicação, efeitos percebidos, negociação com a equipe e construção de estratégias de cuidado ampliadas). Após avaliação entre as facilitadoras e os usuários do segundo ciclo, identificamos as fragilidades, como a dificuldade de os usuários manterem sua participação até o final do processo. Além disso, foram realizados ajustes na metodologia dos encontros, com inclusão de dinâmicas, recursos artísticos e peças audiovisuais para auxiliar a condução do grupo, para além do guia. Ao longo dos ciclos, houve mudanças de composição dos facilitadores, na equipe multiprofissional passaram a compor, uma terapeuta ocupacional e como co-facilitadora, uma usuária com experiência prévia de um ciclo anterior.
Foram realizados três ciclos do grupo até o momento, com duração média de seis meses cada. Participaram ao todo doze usuários até o momento. Observou-se que os indivíduos que permaneceram até o final do grupo, demonstraram maior segurança e apropriação do seu cuidado em saúde mental, incluindo o medicamentoso, com relatos de ampliação da capacidade de discutir suas vivências relacionadas às medicações com suas referências técnicas. Outro efeito relevante com a implantação deste grupo, foi de divulgação do coletivo pelos próprios participantes para outros usuários do serviço. Pudemos verificar ainda, a presença de uma das usuárias do grupo como representante no Conselho Gestor e maior frequência de participação em outros espaços coletivos, como as Assembleias do CAPS, que podem ser atribuídos às discussões sobre autonomia, protagonismo e participação social realizados nos encontros do grupo GAM. Como reflexo da construção de um espaço horizontal e protegido, percebemos ainda o fortalecimento do vínculo entre os usuários com seus pares e com os trabalhadores do serviço. O uso de metodologias ativas também transformou a dinâmica do grupo, tornando-o menos escolarizante e mais interativo, o que contribuiu para a permanência de mais usuários. A presença da usuária como co-facilitadora tem provocado reflexões e discussões potentes, já que esta responde pelo olhar de usuária e não de uma trabalhadora, em detrimento da identificação do grupo.
O processo de facilitação de um grupo é uma experiência singular e geradora de novos aprendizados. A implementação do grupo baseado na Gestão Autônoma da Medicação no CAPS Adulto III ‘Sem Fronteiras’ evidenciou a potência de espaços coletivos para promover reflexão crítica, protagonismo e corresponsabilidade dos usuários em seus tratamentos, de caráter medicamentoso e terapêutico. A experiência reafirmou que a cogestão do cuidado não se esgota no compartilhamento de informações sobre medicação, mas perpassa o fortalecimento de vínculos, confiança mútua e práticas democráticas de decisão no cotidiano dos serviços de saúde, buscando transformar condutas ainda conservadoras e medicalizantes. Os principais aprendizados incluem a necessidade de adaptação contínua das metodologias às dinâmicas dos grupos, a importância de formatos flexíveis que respeitem ritmos e trajetórias distintas, e o valor de incorporar estratégias participativas que ampliem a escuta e a expressão dos usuários. Esperamos que o GAM se fortaleça a cada ciclo, mantendo este espaço de trocas e de escuta entre trabalhadores e usuários e de confiança entre as pessoas, e principalmente de construção de identidade para além de diagnóstico.
Medicalização, Reforma Psiquiátrica, Autonomia
MICHELE GOMES DA PAIXÃO SANTANA, FERNANDA DE JESUS LIGEIRO BRAGA, ELIZA PIAZETTA CARNIATO, VANICLÉIA DO CARMO CARVALHO