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Trata-se de um relato de caso de uma moradora, com 68 anos, de um Serviço Residencial Terapêutico (SRT) localizado da região da Casa Verde/SP, egressa de hospitais psiquiátricos e com histórico de 30 anos de internação. O SRT é uma moradia localizada no espaço urbano, constituída para responder às necessidades de moradia de pessoas em sofrimento psíquico grave, severo e persistente que foram institucionalizadas por muitos anos em hospitais psiquiátricos que não possuem suporte familiar e social suficientes para garantir espaço adequado de moradia. A maior parte deles ao sair do hospital não possuem documentos, nem relatos de histórico de vida, histórico de relações familiares. O SRT busca, desta forma, resgatar/construir a identidade do morador. O SRT representa uma possibilidade de resgate da cidadania de pessoas em sofrimento psíquico, visando o retorno à vida da cidade, ao convívio social e exercício pleno de direitos.
Este trabalho tem como objetivo compartilhar um relato de experiência exitosa de resgate de história de vida, resgate de vínculos familiares, resgate de documentos civis e cidadania plena de uma moradora de um SRT localizado na região da Casa Verde/SP, egressa de hospital psiquiátrico e com histórico de mais de 30 anos de internação psiquiátrica e sem contato com seus filhos há mais de 42 anos.
A moradora chegou no SRT em 2016, sem documentos e sem histórico de vida. Desde sua chegada dela, houve um grande esforço da equipe em resgatar a história de vida de moradora, bem como seus documentos, com o apoio do Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt – IIRGD, o Núcleo de Proteção Jurídico Social e Apoio Psicólogo Casa Verde, e Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Cabe salientar que os dados utilizados nas buscas documentais iniciais foram extraídos das informações contidas no relatório de alta hospitalar. Em julho de 2023, uma nova supervisora assumiu o SRT e, ao conversar com equipe de acompanhantes comunitários, com a técnica de enfermagem do serviço e com a moradora, resolveu procurar os familiares dela nas redes sociais, a partir dos dados verbalizados por moradora. Em agosto de 2023 uma pessoa respondeu as mensagens do facebook, após juntar as informações concluiu que se tratava de sua avó. Em paralelo, uma agente da Defensoria Pública, ao dar continuidade ao processo, resgatou os prontuários e realizou buscas documentais a partir dos dados registrados como “a fala de moradora”, localizou a certidão de nascimento, o registro dos filhos, o local de registro e, posteriormente, a certidão de nascimento. Os documentos encontrados pela Defensoria Pública bateram com dados dos familiares localizados via redes sociais. A moradora em questão, desde 1986 relatava as mesmas informações: nome dos filhos e do marido, município de nascimento e nome completo.
Após articulação de rede realizada com a secretaria de assistência social do município de Guarapuava/PR, local de moradia dos filhos de moradora, em dezembro de 2023, dois filhos e um neto vieram a São Paulo reencontrar a mãe, após 42 anos de desencontros. A moradora tem 3 filhos, 10 netos e 4 bisnetos. Todas as histórias contadas por ela, ao longo de sua permanecia no SRT, foram confirmadas pelos filhos durante a visita realizada. Ainda em dezembro de 2023 foi possível tirar o Registro Geral (RG) de moradora, em vez de uma certidão tardia, garantindo ser um sujeito de direitos, e histórias de vida, além de possibilitar dar entrada nos benefícios sociais a que ela tem direito. Após a visita dos filhos, a moradora, que antes passava o dia todo dormindo, tem circulado mais pela casa, está mais ativa, teve melhora significativa no quadro de psoríase e recebe ligação dos filhos diariamente. Os filhos estão se preparando para realizar nova visita a mãe e tem mantido o vínculo.
Considerando o histórico de vida e do cuidado em saúde mental ofertados até 2016, que foi de privação total de direitos, foi extremamente importante a garantia deste reencontro com a família e demais direitos. Neste sentido, o trabalho realizado no SRT pela equipe, que é de escuta real, sem julgamentos de valor, com vínculo e olhar para o sujeito, garantem o processo extra-muros proposto pela reabilitação psicossocial. A desinstitucionalização é muito além do que a saída do espaço físico do manicômio, está no cuidado centrado no sujeito e nas ações emancipatórias cotidianas.
saúde mental, desistitucionalização, SRT
Camila Ferreira Freire, Carolina Tosetto