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A população em situação de rua apresenta elevada vulnerabilidade social e sanitária, frequentemente associada ao sofrimento mental e ao uso abusivo de SPA (Substâncias Psicoativas), o que dificulta o acesso contínuo e qualificado aos serviços de saúde. No território da ESF (Estratégia de Saúde da Família) Canguera, no município de São Roque, essa realidade tornou-se evidente a partir da demanda espontânea e de abordagens realizadas no território pela equipe de saúde. Diante desse contexto, a equipe da ESF Canguera iniciou, em janeiro de 2025, uma experiência voltada à atenção em saúde mental da população em situação de rua, com base nos princípios do cuidado em liberdade, da equidade e da integralidade do SUS (Sistema Único de Saúde). A iniciativa envolve profissionais médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde, com apoio da assistência social do município e articulação com a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), especialmente o CAPS (Centros de atendimento Psicossocial). A experiência mostra-se relevante para o SUS municipal por fortalecer a APS (Atenção Primária em Saúde), como porta de entrada do cuidado em saúde mental, promover ações territorializadas e humanizadas e contribuir para a redução de agravos relacionados ao uso de SPA, garantindo atenção digna a uma população historicamente invisibilizada.
Promover o acesso da PSR (População em Situação de Rua) do território da ESF Canguera aos cuidados em saúde mental no âmbito da APS, fortalecendo a articulação com outros pontos da RAPS, qualificando o manejo de demandas relacionadas ao uso de SPA (substâncias psicoativas) e contribuindo para a redução de agravos em saúde por meio de um cuidado continuado, humanizado e em rede.
A experiência foi desenvolvida a partir do acolhimento de pessoas em situação de rua na unidade da ESF Canguera e, principalmente, por meio de ações no território, compreendendo a rua como espaço legítimo de cuidado em saúde. Os ACS (Agentes Comunitários de Saúde) atuaram como protagonistas no acolhimento primário, na escuta qualificada, na construção de vínculo e na comunicação contínua com os usuários. As ações ocorreram nos locais de permanência dessas pessoas, como espaços públicos e áreas sob viadutos, respeitando a dinâmica, o tempo e as escolhas dos indivíduos. Nessas abordagens territoriais, realizadas em conjunto com médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, foram identificadas demandas relacionadas ao sofrimento mental e ao uso de substâncias psicoativas, possibilitando intervenções oportunas e humanizadas. Os indivíduos que aceitaram as orientações da equipe tiveram acesso à avaliação médica, e à uma estratégia de redução de danos, com coleta de exames laboratoriais e realização de testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C, além de encaminhamentos articulados com o CAPS e inserção em grupos terapêuticos para enfrentamento do uso de substâncias psicoativas. O matriciamento em saúde mental e a articulação intersetorial fortaleceram o cuidado compartilhado e evitaram práticas excludentes ou institucionalizantes.
A experiência possibilitou o acompanhamento aproximado de 6 a 8 pessoas em situação de rua no território da ESF Canguera, ampliando o acesso dessa população aos serviços de saúde e fortalecendo o vínculo com a equipe da Atenção Básica. Observou-se maior adesão aos cuidados propostos, incluindo comparecimento a atendimentos, aceitação de encaminhamentos para atenção primária, articulação entre os diferentes pontos da RAPS (APS, SUAS e serviços de saúde mental CAPS II e CAPS AD) e participação em grupos de terapêuticos no CAPS AD, abordagem estratégica focada em redução de danos, além da diminuição da busca exclusiva por atendimentos de urgência relacionados a agravos em saúde mental. Entre as PSR acolhidas pela equipe multiprofissional da ESF Canguera, destacamos dois casos: ● No primeiro caso, o paciente aderiu ao tratamento e através do acompanhamento conjunto entre a APS, assistência social e CAPS AD, o paciente optou por retornar para seu lar. ● Em um segundo caso, o paciente iniciou o acompanhamento no CAPS e deu continuidade por um curto período, porém optou por continuar em situação de rua e ainda faz uso abusivo de SPA. De forma qualitativa, a equipe identificou aumento da confiança dos usuários no serviço, melhora na continuidade do cuidado e fortalecimento da articulação entre APS, CAPS e assistência social.
A experiência evidencia que a ESF, desempenha papel fundamental na atenção em saúde mental da população em situação de rua, especialmente quando atua de forma articulada com os outros pontos da RAPS e intersetorial, destacando o papel dos ACS como facilitadores de acesso aos serviços de saúde. Ao reconhecer a rua como território de cuidado, a ESF Canguera reafirma a APS como eixo estruturante da RAPS, demonstrando que o cuidado em saúde mental se fortalece quando é construído com vínculo, escuta e respeito à liberdade dos sujeitos. Quando a equipe se faz presente onde a vida acontece, o cuidado deixa de ser apenas um serviço e passa a ser encontro, reconhecendo a dignidade de quem vive nas ruas. Destaca-se que todos os pacientes continuam acompanhados pela ESF e novas estratégias de abordagem são aplicadas conforme as necessidades e as dificuldades de cada indivíduo, já que os lapsos ou recaídas fazem parte do processo de lidar com a dependência. A experiência evidencia ainda, que o protagonismo dos ACS, aliado ao trabalho interdisciplinar da ESF, é fundamental para ampliar o acesso aos serviços de saúde para populações em vulnerabilidade, fortalecer vínculos e consolidar práticas de cuidado em liberdade.
Situação de rua, saúde mental, saúde da família
SERGIO PIRES DE GODOI