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O uso concomitante de múltiplos medicamentos é uma realidade frequente no cuidado à pessoa idosa e representa um desafio cotidiano na atenção primária. A polifarmácia, associada ao envelhecimento e à presença de doenças crônicas, aumenta o risco de interações medicamentosas, eventos adversos, erros de uso e baixa adesão ao tratamento, especialmente entre idosos com baixo letramento em saúde. Na prática assistencial, observa-se que muitos desses usuários apresentam dificuldades para compreender prescrições, identificar medicamentos, organizar horários e reconhecer a finalidade de cada fármaco. Embora a consulta médica seja fundamental para definição terapêutica, o tempo disponível nem sempre permite uma abordagem detalhada dessas questões, o que torna necessária a atuação de outros profissionais da equipe. Nesse contexto, a assistência farmacêutica assume papel central ao oferecer um espaço de escuta qualificada, orientação individualizada e acompanhamento contínuo. A adoção de estratégias simples e acessíveis, como materiais visuais e organização dos medicamentos, surge como resposta às necessidades reais dos idosos do território, qualificando o cuidado, promovendo segurança no uso dos medicamentos e fortalecendo o vínculo entre usuário e serviço de saúde.
Relatar a experiência de acompanhamento farmacêutico de pessoas idosas em uso de múltiplos medicamentos na atenção primária, considerando a polifarmácia e o baixo letramento em saúde como fatores de risco para o uso inadequado dos medicamentos. Identificar dificuldades relacionadas à compreensão das prescrições, organização dos horários e reconhecimento dos fármacos utilizados. Desenvolver e aplicar estratégias educativas acessíveis, por meio de materiais visuais personalizados e organização dos medicamentos em caixas organizadoras. Promover o uso seguro e racional dos medicamentos, reduzir erros de administração e favorecer a adesão terapêutica. Oferecer um espaço de escuta qualificada e acompanhamento contínuo, fortalecendo o vínculo com o profissional farmacêutico e qualificando o cuidado à pessoa idosa no território.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido em duas Unidades Básicas de Saúde, a partir de práticas semelhantes realizadas por profissionais farmacêuticas, voltadas ao acompanhamento de pessoas idosas em uso de múltiplos medicamentos. Em ambas as unidades, os usuários são identificados a partir de encaminhamentos realizados por profissionais da equipe técnica, como médicos e enfermeiros, bem como por demanda identificada no atendimento do balcão da farmácia, com encaminhamento feito pelos técnicos de farmácia. O acompanhamento farmacêutico ocorre por meio de atendimentos individuais, com escuta qualificada e levantamento detalhado de todos os medicamentos em uso, incluindo prescritos, de uso contínuo e eventuais. São identificadas dificuldades na leitura das prescrições, reconhecimento dos medicamentos, organização dos horários e compreensão das indicações terapêuticas. A partir dessa avaliação, são desenvolvidas estratégias personalizadas de apoio ao tratamento, com elaboração de planilhas visuais contendo letras ampliadas, cores, símbolos, desenhos e organização por horários. Também é realizada a organização dos medicamentos em caixas organizadoras, montadas junto ao usuário, respeitando sua rotina. O acompanhamento é contínuo, com reavaliações periódicas e ajustes das orientações conforme necessidade, visando promover o uso seguro e racional dos medicamentos e fortalecer o vínculo com o serviço de saúde.
Os resultados observados a partir do acompanhamento farmacêutico foram positivos, especialmente no que se refere à adesão ao tratamento medicamentoso. Após a implementação das estratégias visuais e da organização dos medicamentos, os idosos passaram a demonstrar maior compreensão sobre os esquemas terapêuticos, horários e finalidades dos medicamentos, com redução de erros de uso e esquecimentos. Considerando que a maioria dos usuários acompanhados apresenta polifarmácia associada a múltiplas doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes mellitus e dislipidemias, o impacto do acompanhamento também foi avaliado por meio da leitura e análise de exames laboratoriais e clínicos. A melhora ou maior estabilidade de parâmetros como pressão arterial, glicemia e perfil lipídico tem sido utilizada como indicador indireto da efetividade do cuidado farmacêutico e da adesão ao tratamento. Além dos aspectos clínicos, observou-se fortalecimento do vínculo entre os usuários e o profissional farmacêutico, com procura espontânea para esclarecimento de dúvidas e acompanhamento contínuo. Esses resultados evidenciam que a assistência farmacêutica ampliada contribui de forma significativa para a segurança, efetividade do tratamento e qualificação do cuidado à pessoa idosa.
A experiência evidenciou que o acompanhamento farmacêutico estruturado é uma estratégia fundamental no cuidado à pessoa idosa em polifarmácia, especialmente em contextos de baixo letramento em saúde. As ações desenvolvidas nas duas Unidades Básicas de Saúde demonstraram impacto positivo na adesão medicamentosa, na compreensão do tratamento e na redução de erros no uso dos medicamentos. A possibilidade de acompanhar os resultados clínicos por meio da leitura de exames laboratoriais e parâmetros de controle de doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes mellitus e dislipidemias, permitiu avaliar de forma concreta os efeitos do cuidado farmacêutico ao longo do tempo. Esses resultados reforçam que a organização do uso dos medicamentos e a escuta qualificada contribuem diretamente para melhores desfechos clínicos. Além dos aspectos técnicos, o fortalecimento do vínculo mostrou-se central, com usuários buscando o farmacêutico como referência para orientação e cuidado contínuo. A experiência reafirma o papel estratégico da assistência farmacêutica na atenção primária, qualificando o cuidado, promovendo segurança terapêutica e contribuindo para um envelhecer mais digno e acompanhado.
Assistência farmacêutica; Polifarmácia; Idoso
GIOVANNA FELIPE PAZINI, BIANCA TOTA GONGORA