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A saúde mental constitui um dos grandes desafios para o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente no cuidado às pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, como a esquizofrenia, frequentemente associada a vulnerabilidades sociais, dificuldades de acesso aos serviços e ruptura de vínculos familiares e comunitários. Nesse contexto, o cuidado em saúde mental, exige ações articuladas em rede, baseadas na integralidade, equidade e humanização da atenção. A Reforma Psiquiátrica Brasileira e a consolidação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) reforçam a necessidade de um modelo de cuidado territorial, multiprofissional e intersetorial, capaz de garantir acesso, continuidade do cuidado e respeito à singularidade dos usuários. Experiências exitosas nesse campo demonstram que o trabalho em rede é fundamental para superar barreiras históricas de exclusão e garantir o direito à saúde. Este trabalho apresenta um relato de experiência de cuidado humanizado em rede desenvolvido para garantir a assistência integral a uma paciente com esquizofrenia 57 anos, viúva e seu filho de 33 anos, também diagnosticado com esquizofrenia associada à deficiência intelectual, evidenciando a potência da articulação entre serviços e profissionais do SUS. A experiência também evidencia o papel da gestão e da organização da rede de serviços como estratégias fundamentais para a efetivação das políticas públicas de saúde mental no âmbito municipal.
Relatar a experiência de articulação de ações em rede para garantir o acesso, a continuidade do cuidado e a assistência integral e humanizada a uma paciente com esquizofrenia e seu filho, em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde. Descrever as estratégias adotadas para superação de barreiras de acesso, fortalecimento do vínculo e organização do cuidado compartilhado, evidenciando a importância do trabalho multiprofissional e intersetorial no âmbito da saúde mental.
Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa e descritiva, desenvolvido a partir do acompanhamento de Dona E.M.C., 57 anos, diagnosticada com esquizofrenia e deficiência intelectual leve, e de seu filho M.M.C., 33 anos, também diagnosticado com esquizofrenia associada à deficiência intelectual. Ambos são acompanhados por meio da articulação da rede municipal de atenção à saúde e assistência social do município de Santo André. O cuidado é compartilhado entre a equipes da Unidade de Saúde da Família Vila Luzita (equipe 23 II), CAPS Vila Vitória, CRAS e CREAS, eMulti, Transporte Sanitário e Centro de Especialidades Médicas. A família apresenta fragilidade significativa de vínculos, com ausência de rede de apoio familiar efetiva, uma vez que o companheiro da paciente é falecido, a filha reside em outro bairro com pouco contato e a irmã não mantém vínculo. Diante da complexidade do caso, foram adotadas estratégias como acolhimento, escuta qualificada, busca ativa, atendimentos multiprofissionais, visitas domiciliares, elaboração e acompanhamento de Projeto Terapêutico Singular (PTS) e articulação intersetorial contínua. Ambos comparecem à unidade de saúde a cada dois dias para acompanhamento e organização da medicação, separada e identificada individualmente pela farmacêutica, garantindo maior segurança e adesão ao tratamento domiciliar.
A articulação da rede possibilitou a priorização dos atendimentos necessários à paciente, garantindo acesso oportuno aos serviços especializados e redução de barreiras assistenciais. Em todas as consultas e exames, foi disponibilizado transporte sanitário, assegurando o comparecimento aos serviços e a continuidade do cuidado. Sempre acompanhada por seu Agente Comunitário de Saúde, João que exerceu papel fundamental no direcionamento dentro dos serviços e procedimentos pós consultas. Foram desenvolvidas ações de matriciamento entre a Atenção Básica e o CAPS, fortalecendo o cuidado compartilhado, a corresponsabilização das equipes. Realizaram-se articulações com o CRAS e CREAS para avaliação da possibilidade de inserção em lar terapêutico para ambos, pela inexistência de rede de apoio familiar para o cuidado do filho nesse período. No âmbito da assistência à saúde, a paciente realizou mamografia, ultrassonografia de mamas, consulta e exames oftalmológicos, sendo indicada internação hospitalar para realização de cirurgia de catarata. As ações desenvolvidas evidenciam a efetividade do trabalho em rede, da gestão do cuidado e da humanização da atenção na garantia da integralidade do cuidado em saúde mental. Evitando desassistência e possíveis agravamentos clínicos, garantindo segurança e continuidade do tratamento.
A experiência demonstra que o cuidado humanizado e articulado em rede é essencial para a efetivação dos princípios do SUS, especialmente no atendimento a pessoas com transtornos mentais graves em situação de vulnerabilidade social. A corresponsabilização entre os serviços, aliada à escuta qualificada e ao cuidado territorial, mostrou-se fundamental para garantir acesso, continuidade e integralidade da atenção. Trata-se de uma experiência exitosa, que reafirma a importância da Rede de Atenção Psicossocial, da intersetorialidade e da gestão do cuidado no âmbito municipal. O relato evidencia que práticas construídas no cotidiano dos serviços têm potência transformadora, fortalecem o SUS e contribuem para a consolidação de um modelo de atenção em saúde mental pautado na dignidade, equidade e garantia de direitos. A experiência evidencia que práticas bem organizadas pela gestão municipal, mesmo em contextos complexos, fortalecem o SUS e podem ser replicadas em outros municípios sem necessidade de recursos adicionais.
Saúde Mental, APS, Intersetorialidade
LIDIANE APARECIDA PEREIRA, ROSÂNGELA OLIVEIRA GOMES, JOÃO VITOR RIBEIRO PEREIRA