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H.M.M., 17 anos, apresenta Síndrome de Tourette desde a infância, associada posteriormente a TDAH hiperativo/impulsivo, TOC e comportamentos opositores, compondo quadro de alta complexidade clínica e funcional. A partir de 2023, houve agravamento significativo, com tiques intensos, impulsividade grave e episódios de autoagressividade, resultando em múltiplas internações, ruptura de vínculos escolares e sobrecarga familiar. A chegada ao CAPS IJ ocorreu após período de internação integral e semi-internação, com sofrimento psíquico intenso, desorganização emocional e grande dependência para atividades cotidianas. A família, na tentativa de reduzir o sofrimento, desenvolveu estratégias de acomodação aos sintomas, dificultando corresponsabilização e circulação social. O caso demandou organização de cuidado em liberdade, ancorado nos princípios da Reforma Psiquiátrica, da atenção territorial e da redução de danos, articulando estratégias que reconhecessem o adolescente como sujeito de direitos, capaz de participar ativamente das decisões de cuidado. Baseado na abordagem humanista de Carl Rogers (escuta empática, autenticidade e respeito), o CAPS IJ estruturou um Projeto Terapêutico Singular visando o fortalecimento da autonomia, reorganização familiar e articulação em rede, garantindo continuidade e integralidade no processo de cuidado.
Promover cuidado integral ao adolescente com Síndrome de Tourette em contexto de alta complexidade, reduzindo o sofrimento psíquico, especialmente autoagressões e impulsividade; fortalecer autonomia, protagonismo e reorganização familiar por meio do cuidado multidisciplinar e territorial, incluindo práticas esportivas e comunitárias; revisar periodicamente o PTS com articulação intersetorial, favorecendo retorno escolar gradual, construção de novos projetos de vida e apoio contínuo às potencialidades do adolescente, considerando-o para além dos sintomas e diagnósticos.
O acompanhamento estruturou-se por atendimentos individuais semanais, psicoeducação familiar contínua e atuação do acompanhante terapêutico no manejo cotidiano, nas saídas pelo território e na modulação emocional. A psiquiatria realizou otimização criteriosa da prescrição, evitando polifarmácia e mantendo estabilidade clínica. O PTS integrou participação no grupo de esportes do CAPS IJ e atividades no Parque Celso Daniel, utilizadas como dispositivos de autorregulação e fortalecimento de vínculos comunitários. A reinserção escolar ocorreu gradualmente, com ajustes de carga horária e pactuações com a equipe escolar para manejo adequado dos sintomas. Houve articulações com a Atenção Básica, Hospital Geral de retaguarda e demais pontos de atenção, visando compreensão do histórico, definição de prognósticos e organização compartilhada da linha de cuidado, garantindo resposta intersetorial em situações de crise. Nos atendimentos individuais, adotou-se postura humanista inspirada em Rogers, baseada em escuta empática, autenticidade e aceitação incondicional, possibilitando expressão emocional, construção de sentido e participação ativa do adolescente no PTS. Temas como adolescência, sexualidade, impulsividade, autocuidado e percepção dos sintomas foram trabalhados, fortalecendo autonomia, compreensão de si e corresponsabilização no processo terapêutico.
Observou-se redução importante das autoagressões e diminuição da frequência e intensidade dos tiques, com maior organização emocional e ampliação da capacidade de comunicação do sofrimento. O adolescente aumentou sua circulação no território, manteve vínculo com práticas esportivas e retornou à escola de forma progressiva e estável. Houve melhora expressiva na compreensão dos sintomas, no manejo de impulsos e na participação nas decisões de cuidado. A família apresentou maior aderência ao tratamento, redução das práticas de acomodação e melhor compreensão do quadro, especialmente após intervenções que incluíram ambos os responsáveis. A relação terapêutica estabelecida e sustentada por escuta humanizada e corresponsabilização favoreceu o vínculo sólido e a continuidade do cuidado. A manutenção da estabilidade clínica sem necessidade de grandes ajustes medicamentosos reforça a potência do cuidado psicossocial, da atenção territorial, da intersetorialidade e do trabalho intensivo realizado pela equipe multidisciplinar, e em especial pelo AT. O caso passa a apresentar menor frequência de crises e maior autonomia na rotina, evidenciando impacto positivo do processo terapêutico.
O caso demonstra a potência do cuidado em liberdade na saúde mental, reafirmando princípios da Reforma Psiquiátrica, da Luta Antimanicomial, especialmente quando estruturado de forma compartilhada entre equipe, usuário, família e território. A postura de escuta, respeito e corresponsabilidade, presentes nas bases da abordagem humanista de Carl Rogers mostraram-se fundamentais para que o adolescente encontrasse espaço de reorganização, retomasse projetos pessoais e fortalecesse sua autonomia no território. A articulação com equipamentos da rede municipal e estadual foi essencial para o cuidado de um caso de alta complexidade, garantindo segurança, continuidade e integralidade. O percurso evidencia que avanços são frutos de trabalho persistente, humanizado e coletivo.
Autonomia, Rede Intersetorial, Cuidado e Liberdade
THAYNA LUCILLA DO SANTOS BOMFIM, FERNANDA FRANCESCHI BALDÍVIA, DAVI LOPES DO NASCIMENTO, ARIANA APARECIDA DA SILVA