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O projeto foi iniciado em agosto de 2025 e segue ativo até o presente momento, com diversas reuniões e articulações para organização do projeto, principalmente para diagnóstico da demanda relacionada, ocorrendo desde dezembro de 2024. O serviço de saúde mental de Bananal identificou uma demanda por cuidados em saúde e fala compartilhada com núcleos familiares que realizavam cuidados com pessoas domiciliadas e/ou acamadas e que não conseguiam alcançar visibilidade. A equipe e-Multi, ao retomar as parcerias com a APS e com o CAPS 1 Bananal, decidiu criar um espaço organizado semanalmente de escuta, acolhimento e atenção multiprofissional com estes núcleos, de maneira a pensar territorialidade, dentro dos cinco postos ESF do município – dando espaço tanto para as comunidades e seus moradores quanto aos profissionais da atenção primária, fortalecendo os vínculos e tecnologias de cuidado.
A experiência do Cuidando de Quem Cuida se propôs a alcançar os seguintes objetivos: Dar visibilidade ao trabalho dos cuidadores, muitas vezes invizibilizado pelas concepções do social sobre trabalho afetivo; Oferecer cuidado multiprofissional e longitudinal com estes usuários que têm dificuldade de acessar os serviços do município; Oferecer escuta psi a estes usuários demarcados por esta ideia de trabalho afetivo; Reaproximar estes usuários de seus técnicos e agentes comunitários de referência no território; Oferecer apoio técnico, via matriciamento, aos técnicos e agentes comunitários da APS;
O público alvo da experiência foi identificado por levantamento dos encaminhamentos da APS à RAPS, com o desenho de um diagnóstico situacional sobre as relações de trabalho afetivo no município. Em seguida, traçou-se a proposta de facilitar o acesso do público alvo, demarcado pela dificuldade de se afastar de sua residência principal ou da residência correspondente à pessoa em necessidade de cuidados em domicílio – o melhor resultado foi o de descentralizar as ações e momentos coletivos de cuidado, implicando na realização dos grupos junto a cada posto ESF, outras instituições comunitárias e serviços da RAPS. Esse desenho do projeto vem permitindo a participação de todos os 5 postos ESF do município de Bananal, a equipe eMulti atrelada a eles, o CAPS 1 Bananal e do CRAS Bananal juntamente ao seu órgão gestor, possibilitando o acesso de núcleos populacionais que são tipicamente mais difíceis de envolver nas rotinas de cuidado. A experiência funciona por encontros semanais, com visitas domiciliares ocorrendo logo após o término do momento do acompanhamento em grupo, visando viabilizar a continuidade do cuidado com casos que foram referenciados no projeto mas que, por ventura, atravessam algum impedimento de participar do momento coletivo, como por exemplo quando a pessoa acamada/domiciliada apresenta uma piora expressiva no seu quadro de saúde. A execução semanal totaliza 17 encontros com as devidas adaptações aos períodos de recesso, feriados nacionais, estaduais e municipais
A conscientização sobre a necessidade do auto-cuidado, a construção de redes de cuidado, a ressignificação da divisão social do trabalho do cuidador e a retomada de demandas reprimidas do cuidado multiprofissional foram os resultados alcançados até o momento. Seguem alguns relatos dos usuários das políticas públicas que participam do projeto: “Para mim o projeto representa cuidado e atenção para as pessoas que de alguma forma precisam cuidar de seus familiares.” A.D – ESF Vila Bom Jardim. “O projeto foi muito importante para mim, aprendi muito sobre me colocar em primeiro lugar! Antes pensava o tempo todo o vão pensar que faço no trabalho, principalmente os usuários do serviço e a administração. Hoje como a participação das reuniões não mas tenho essa preocupação, realizo meu trabalho com responsabilidade. O separar um tempo para cuidar de mim não remete mais a culpa.” R. – ESF Vila Bom Jardim. “Um momento de amor, carinho e cuidado para mim, um tempo só meu, separado ´para renovar as energias.” M. – ESF Bananal “O grupo é muito importante, pois me ajuda a me enxergar como uma pessoa boa, através do acolhimento e aceitação do grupo, não me vejo como uma pessoa ruim.” E. – ESF Bananal “Foi importante pra mim, pois estou num momento muito difícil com a minha mãe, ela está internada, pude compartilhar com outras pessoas, que às vezes estão passando pela mesma situação ou algo parecido” S. ESF – Vila Bom Jardim
O projeto é realizado em uma cidade do interior do Vale Histórico, marcada por um longo período de escravidão do povo negro. Neste contexto, ainda hoje é possível ver sinais e sintomas relacionados à estruturalidade do racismo nas interfaces da psique e no social desta população. Esta marca estrutural é indicada por pessoas inseguras, com baixa autoestima, que não possuem ferramentas para construir uma valorização pessoal – sua compreensão subjetiva foi de algum modo marcada por fatores sócio-históricos. Com relação aos profissionais da rede, é percebido o desejo de quebra de paradigmas, o interesse em modificar o que acontece tipicamente de maneira disfuncional nas lógicas de cuidado, ainda que existam resistências. Neste contexto que mistura questões sobre divisão social do trabalho, raça, classe e expectativas quanto ao papel de gênero, nasce o projeto “Cuidando de quem cuida” com o olhar voltado a políticas públicas de incentivo à saúde do cuidador, figura tão atravessada por estes fatores sociais. Estas reflexões sobre o público alvo e o acúmulo de experiência com este projeto tem permitido o nascimento de outra iniciativa, a Arte na Rua, voltada ao cuidado com A.D. através da redução de danos e um cuidado humanizado.
Saúde Mental, Cuidado Integral, Matriciamento,
JOÃO VICTOR MARTINS DA COSTA, ELISA VALIANTE MONTEIRO RAMOS GUARIZI, SIMÃO DA SILVA MARINO LOURENÇO, KARINE GOUVEA DE SOUZA