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A reforma psiquiátrica ainda é um processo em construção. Em algumas regiões encontra-se estabelecida e em outras ainda em seu princípio. Este último é o contexto atual do município de Araçatuba/SP. O Hospital Psiquiátrico Benedita Fernandes foi desativado em novembro de 2015, após receber pacientes da região durante 68 anos. Entretanto, os serviços substitutivos, CAPS III e dois SRTs: Casa Beija-flor e Casa Violetas foram inauguradas somente em março de 2017. O município está empenhado em proporcionar uma mudança de paradigma na perspectiva de atendimento multidisciplinar, de desconstrução de práticas tutelares e manicomiais. Sabe-se que este é um processo lento, visto o histórico de atendimentos às pessoas com transtornos mentais. Conforme o Ministério da Saúde, as residências “não são precisamente serviços de saúde, mas espaços de morar” possibilitando ao usuário vivenciar o processo de reinserção na rede de serviços, espaços e relações sociais da comunidade. Quando pensamos na composição da equipe de colaboradores das RTs e como estes devem articular na rede de atendimento, entendemos que este é um espaço de moradia, mas também existem práticas de cuidado em saúde. Assim, nos deparamos com o desafio de construir formas de cuidados no transitar cotidiano entre a residência, território e fazeres comuns, considerando os moradores como sujeitos de direitos, ouvindo e respeitando seus desejos, possibilitando a reabilitação social e desenvolvimento de autonomia.
Identificar a compreensão dos cuidadores sobre qual papel das RT’s como estratégia de desinstitucionalização, desconstruindo a lógica manicomial tutelar e valorizando a práxis emancipatória no desenvolvimento do protagonismo e autonomia dos moradores. Proporcionar um espaço de educação permanente aos colaboradores, possibilitando trocas de saberes e experiências que contribuam com a formação profissional bem como propiciar momentos de suporte sócio emocional.
Na primeira etapa, o projeto foi desenvolvido em cinco encontros semanais no período de setembro a dezembro de 2019. Na segunda etapa, foram desenvolvidos encontros mensais em todo ano de 2020. Iniciou-se o primeiro encontro com acolhida e escuta dos colaboradores acerca do trabalho realizado por eles na residência. Ainda foi realizado um contrato de sigilo entre os participantes. Foi um momento importante para aproximação e vínculo. Nos encontros seguintes, aprofundamos a discussão sobre o que é ser um cuidador. Todos apresentaram como função aspectos relacionais e subjetivos, como amor e cuidado com a pessoa, conforme: “Cuidador é aquela pessoa que está disposta a dedicar seu tempo e recursos psicossociais para promover o bem-estar físico e mental das pessoas sob seus cuidados”. Foram trabalhados diversos temas como: Escuta e acolhida: Levantamento da realidade pelo olhar do cuidador; O que é ser cuidador: Dificuldades e estratégias de cuidado; (Des)Construindo a Residência Terapêutica; Diário do morador; Relacionamento interpessoal e desafios; Manejo de crise; Redução de danos; Ser cuidado para cuidar: o olhar para si; Trabalho em equipe e comunicação, além de aplicação de dinâmicas grupais. O processo de construção dos temas foi realizado em conjunto com as equipes com temas direcionados de acordo com a demanda apresentada tanto no local de trabalho quanto na individualidade. Atualmente, os encontros são realizados conforme necessidade e em formato de educação permanente
Com o projeto, além da criação de um espaço de escuta e cuidado aos trabalhadores das residências, foram possíveis avanços como a desconstrução da lógica da Residência Terapêutica como serviço prioritariamente de saúde e a valorização do fazer do cuidador como profissional importante no processo de aquisição da autonomia dos moradores. Também foram realizadas reuniões com gestão da Residência Terapêutica a fim de sugerir melhorias na dinâmica do trabalho o que fomentou para motivação dos trabalhadores no ambiente de trabalho mediante as melhorias alcançadas. O trabalho foi premiado: • 1º Lugar no 2º Encontro de Desinstitucionalização e Fortalecimento das RAPS do Estado de São Paulo – Um olhar para o cuidado. 1ª Mostra RAPS de Experiências Exitosas dos Municípios Paulistas, ocorrido no município de São Paulo/SP em 2020 • 1º lugar no tema/eixo Desinstitucionalização no 1º Agita RAPS – Criando estratégias de cuidado em rede.
A ação possibilitou que os colaboradores percebessem que, embora seus discursos fossem sobre desconstrução da lógica manicomial, na práxis, agiam como sendo um serviço institucionalizado de saúde mental, sinalizando atendimentos sistemáticos da equipe do CAPS (psiquiatras, assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros) para realização de grupos e manejos. Identificaram ações que são de sua competência, mas que não estão sendo exercidas devido à fragilidade da relação que se estabeleceu. Ainda, pontuaram mudanças significativas na dinâmica diária do trabalho. O cuidador tem uma tarefa importante na moradia que vai além do auxílio nas tarefas domésticas, do cuidado com higiene, entre outros. É ele que auxilia o morador no processo de reapropriação do espaço urbano e na aquisição da autonomia para diversas tarefas, sempre dosando o quanto de cuidado deverá ser oferecido, numa negociação constante.
Escuta, vínculo, dedicação, cuidado e autonomia.
Fernanda da Cruz Costa, Sílvia Letícia Trevisolli Britto