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A compreensão do trabalho em território realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) exige uma retomada histórica das lutas sociais, que protagonizam transformações de paradigmas instituídos e constroem a política no país reivindicando o exercício da cidadania. Nesta perspectiva, o trabalho no SUS direciona o olhar aos sujeitos, considerando saberes, práticas e relações produzidas em território, chamado por Milton Santos (1999) como “território usado”, onde a vida acontece. É neste espaço que a existência coletiva ocorre e de onde as ações de saúde coletiva devem despontar. Quanto ao fenômeno do uso prejudicial de substâncias psicoativas, a Redução de Danos (RD) ocupa papel estratégico neste processo, acolhendo sem punir, descentralizando o cuidado e estruturando intervenções a partir da linguagem do sujeito-território, considerando recortes de classe, sexualidade e racialidade. Esta prática/ética promove sensibilidade no cuidado e desloca a percepção deste público sobre sua identidade social, fomentando novas perspectivas sobre a vida. Diante disso, localizando o CAPS Álcool e outras Drogas (CAPS AD III) como um dos equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) que realiza o cuidado integral desta população, identificou-se a necessidade de implantar uma equipe de redução de danos com atuação territorial em Jundiaí.
• Discorrer sobre a experiência de implantação da primeira equipe de redução de danos do CAPS AD III de Jundiaí, avaliando os impactos do trabalho territorial no processo de cuidado dos usuários do serviço. • Discutir sobre os desdobramentos no cuidado de usuários de substâncias psicoativas a partir de uma lógica territorial e de RD, através da apresentação das informações decorrentes do diagnóstico territorial e dos dados dos atendimentos realizados entre abril de 2023 e abril de 2024.
O presente artigo constitui-se como um relato de experiência acerca de um processo vivido no campo, onde, na prática do cotidiano, se deu na lógica do diagnóstico situacional (Silva, Koopmans e Daher, 2016). Na implementação de políticas públicas, este diagnóstico fornece ao pesquisador um olhar ampliado à realidade vivida no cotidiano de determinado território, a partir de uma análise interpretativa das relações comunitárias. A equipe, formada por uma psicóloga social, três redutores de danos e uma motorista, utilizou o diário de campo como instrumento qualitativo, registrando experiências observadas e vividas. Também foram feitas observações, entrevistas e discussões de rede para caracterizar o território. Simultaneamente, as supervisões clínico-institucionais foram estratégicas para o trabalho e diagnóstico. Enquanto instrumento quantitativo, produziram-se estatísticas a partir do levantamento e análise dos dados internos localizados em ata de equipe, fichas de acolhimento, prontuários e faturamento de procedimentos. O perfil da população atendida é composto por um grupo heterogêneo: usuários de substâncias psicoativas, majoritariamente homens, com condição de extrema vulnerabilidade social, que permanecem em cenas de uso abertas no centro da cidade.
No período de abril/2023 a abril/2024, foram realizados o total de 1.024 atendimentos, nas seguintes modalidades: atendimentos iniciais, individuais, em grupo, comunitários, acompanhamentos terapêuticos e atendimentos compartilhados com o Consultório na Rua, Unidade de Acolhimento Adulto (UAA), Serviço Especializado em Abordagem Social, Centro POP, Unidade Básica de Saúde Central e Centro de Testagem e Aconselhamento IST/AIDS. Nesse período, foram atendidas 124 pessoas com demandas relacionadas ao uso de álcool e outras drogas: 110 homens, 11 mulheres cis e 3 trans. O álcool foi a substância mais usada, seguida por cocaína e crack. Atualmente, 58 casos são acompanhados pela equipe de RD. Antes da implantação, apenas 2 pessoas que circulavam neste território estavam referenciadas pelo CAPS AD. Após, 27 passaram a ser acompanhadas, ampliando o cuidado nas modalidades intensiva e de hospitalidade noturna (HN). Registrou-se uma média de 1 vaga de HN por semana articulada pela equipe de RD e 5 inserções na UAA, equipamento de moradia transitória. Os dados coletados mostraram, ainda, que as praças mantêm dinâmicas relacionais singulares. Levando em consideração as praças da Matriz e Bandeira, as cenas onde se davam as relações de uso, convivência, cuidado e manutenção da vida na rua, se constituíam pelo que foi nomeado pelas pessoas que ali vivem como “malocas”. Esta avaliação realizada foi, portanto, norteadora para a construção das intervenções para o cuidado em saúde mental.
Concluiu-se que a implantação da equipe de Redução de Danos em território fortaleceu e ampliou a integração e articulação entre serviços da RAPS de forma intersetorial e comunitária, contribuiu para o aumento no acesso aos dispositivos da rede de atenção à saúde e qualificou a oferta em saúde a partir desta aproximação. Constatamos a importância de fortalecer a natureza territorial e comunitária do CAPS AD, considerando que a forma como a rede se organiza deve ser caracterizada a partir da compreensão da relação que o sujeito/população estabelece com seu território, concebendo o território como um campo político, cultural, existencial e relacional, de onde recursos para o cuidado podem emergir (COUTINHO; O’DWYER; NUNES, 2024). Posto isso, este trabalho aponta para a proposição de novas intervenções com esta caracterização, objetivando fortalecer e ampliar o papel antimanicomial do CAPS e a da RAPS no processo da Reforma Psiquiátrica.
Redução de danos, Álcool e drogas, Território
ANA LUIZA GREEN SOUZA, GABRIELA PINHEIRO FERREIRA, THIAGO BORGES, ALEXANDRE MORENO SANDRI