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A experiência em saúde mental no município de Severínia teve início em outubro de 2024, diante de um cenário marcado pela centralização dos atendimentos, que ocasionava desorganização dos processos de trabalho, sobrecarga dos profissionais e recorrência de internações judiciais. O atendimento psiquiátrico encontrava-se restrito à atuação isolada de um único médico, o que gerava insegurança assistencial, adoecimento da equipe e resistência por parte dos usuários. Com a reestruturação da gestão municipal em 2024 e a definição da saúde mental como prioridade pela Equipe Gestora, iniciou-se um processo de transformação do cuidado, orientado pelos princípios da humanização, integralidade e articulação intersetorial, conforme as diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Psicólogos, médicos e demais profissionais passaram a estudar os manuais da RAPS e da Atenção Primária à Saúde, ampliando a compreensão sobre o cuidado territorial e compartilhado. Foram elaborados protocolos de internação, implantado leito psiquiátrico, informatizado o atendimento e fortalecidas práticas de escuta qualificada. A experiência beneficiou usuários em sofrimento psíquico, idosos institucionalizados e profissionais da rede municipal, contribuindo para o fortalecimento de vínculos, a redução de encaminhamentos externos e a melhoria da qualidade da assistência, com impacto direto na organização e resolutividade do SUS municipal.
Garantir cuidado integral, humanizado e contínuo em saúde mental; reduzir internações judiciais e encaminhamentos externos; fortalecer a Atenção Básica por meio do matriciamento e do estudo compartilhado de casos; promover maior segurança técnica e preparo dos profissionais no manejo de situações leves, moderadas e graves; e articular secretarias e estratégias intersetoriais — Educação, Desenvolvimento Social, Cultura, Esporte, Ministério Público e Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) — ampliando a corresponsabilidade no cuidado e a atuação em rede.
O projeto foi desenvolvido de forma gradual e estruturada, em etapas. Inicialmente, realizou-se diagnóstico situacional em 2024, que evidenciou atendimento restrito, conflitos institucionais e adoecimento das equipes. Com a mudança da gestão municipal no período de 2024/2025, a saúde mental passou a ser prioridade, com a realização de reuniões multiprofissionais e a construção de protocolos assistenciais. Foi implantado leito psiquiátrico com equipe própria, assegurando acolhimento seguro. O ambulatório foi reorganizado com fortalecimento da escuta ativa, identificação de demandas na sala de espera e atualização de dados, possibilitando o direcionamento adequado às Unidades Básicas de Saúde e aos territórios. Desenvolveu-se o Projeto Sala de Espera, com rodas de conversa envolvendo usuários, equipes da Atenção Básica e profissionais multiprofissionais. O matriciamento foi estruturado por meio da articulação com a Santa Casa de Barretos, com a criação de grupo condutor multiprofissional e a realização de reuniões semanais. Também foram promovidos encontros matriciais mensais entre clínicos da Atenção Primária e especialistas para discussão de casos complexos e construção de planos terapêuticos. A intersetorialidade foi fortalecida, especialmente no acompanhamento de idosos institucionalizados, e a informatização do cuidado foi ampliada por meio do e-SUS e prontuário eletrônico, garantindo integralidade e acesso às informações em toda a rede.
Observou-se redução significativa dos encaminhamentos para especialidades, Unidade de Emergência e CAPS. Aproximadamente 95% da população passou a ser assistida no próprio município, com os 5% restantes articulados de forma adequada com a rede regional. Os profissionais demonstraram maior segurança no atendimento de casos leves, moderados e graves, após o apoio do matriciamento regional da Santa Casa de Barretos e a implantação do matriciamento municipal. Foram instituídos grupos de alta assistida, em âmbito municipal e regional, com participação das equipes da Estratégia Saúde da Família e das especialidades. Realizaram-se reuniões bimestrais de rede com gestores e coordenadores da Rede Municipal de Saúde. Houve ampliação da equipe de classificação de risco, de dois para quatro profissionais. Observou-se maior humanização do atendimento desde a recepção, especialmente aos pacientes psiquiátricos idosos. O acolhimento passou a ocorrer prioritariamente pela Atenção Primária, articulado com a especialidade por meio de agendamentos, consultas, tratamentos ambulatoriais, acompanhamento, estabilização clínica, UAA e UAI. Quando necessário, os pacientes foram encaminhados via CROSS para referência na Santa Casa de Barretos. A experiência fortaleceu a corresponsabilidade entre os setores e ampliou a resolutividade da Atenção Básica.
A experiência proporcionou um novo olhar sobre a saúde mental em Severínia, promovendo a integralidade do cuidado e a corresponsabilização entre os envolvidos, fundamentadas na humanização, na reorganização dos processos de trabalho e na implantação de estratégias orientadoras do cuidado. O matriciamento das equipes, com apoio da Santa Casa de Barretos, mostrou-se decisivo para ampliar a resolutividade da Atenção Básica e reduzir encaminhamentos externos. A articulação intersetorial assegurou transições de cuidado mais seguras e fortaleceu os vínculos entre usuários, familiares e profissionais da rede. O projeto evidenciou que a integração entre Atenção Básica, Pronto Atendimento, serviços especializados e demais setores foi essencial para transformar a realidade da saúde mental no município. Como perspectivas futuras, destacaram-se a ampliação do matriciamento, o fortalecimento das ações de promoção da saúde mental e a consolidação de práticas de cuidado coletivo, garantindo a sustentabilidade e a continuidade dos avanços alcançados.
Saúde Mental no SUS, RAPS, Matriciamento.
MAIARA CRISTINA BARBOSA VEIGA, ADRIANA DOS SANTOS GUILHERME, DANIELA GARCIA AUGUSTO DUTRA, RITA DE CASSIA SANDRINI, IVANA CLEMENTE CASTRO, MARIA DA CONCEIÇÃO VIANA PEREIRA, SANDRA HELENA CAMACHO DE DOMINGOS, ANA PAULA OLIVEIRA SILVEIRA, DANIELE BORGES CONSTANTINO DE ALMEIDA