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Lesões traumáticas como acidentes com perfurocortantes, atropelamentos, quedas ou colisões frequentemente requerem intervenções cirúrgicas, como suturas. No entanto, podem ocorrer complicações, como as deiscências, que prejudicam o processo de cicatrização. Estas aumentam o tempo de recuperação, tornando o tratamento mais complexo. Estima-se que cerca de 40% das lesões graves atendidas no SUS envolvem traumas e suas complicações, gerando impacto direto na assistência e, obviamente, maior tempo de permanência do paciente nos serviços de saúde. Some-se a isto, o fato de um tratamento de lesões em Atenção Básica sofrer com descontinuidades em seu manejo, seja devido à falta de tecnologias mais avançadas para o cuidado ou pelo próprio abandono do paciente em seu acompanhamento. Ainda assim, sabe-se da importância da Atenção Básica para pacientes com lesões e feridas. A proximidade e a criação de um vínculo confluem para uma melhor corresponsabilização no cuidado, orientações adequadas às realidades do paciente e equipe e, por fim, a promoção de autonomia no tratamento, contribuindo para a formação de um ambiente participativo e confortável para o desenvolvimento de uma rotina saudável. Portanto, estudos como este são essenciais para entender as complicações das lesões traumáticas e deiscências, melhorar o manejo na Atenção Básica e otimizar os cuidados, promovendo uma recuperação mais eficaz e custo-efetiva.
O objetivo principal deste estudo é analisar a evolução decorrente do uso de um curativo com tecnologia avançada, baseado em uma placa lipidocoloide absorvente com prata em uma deiscência operatória pós-sutura de lesão traumática em uma paciente idosa na Atenção Básica. Além de identificar os desafios no manejo dessas lesões e propor estratégias para melhorar o cuidado, otimizar os recursos disponíveis e fortalecer o vínculo entre profissionais de saúde e pacientes, visando uma recuperação mais eficaz e contínua.
Este estudo de caso foi realizado com a ciência e a colaboração da Secretaria Municipal de Saúde com o objetivo de avaliar um novo insumo para o tratamento de feridas. O estudo ocorreu entre agosto e dezembro de 2022, em uma unidade básica de saúde, após a seleção, orientação e o consentimento de uma paciente-modelo. A paciente foi acompanhada pelos profissionais de saúde da unidade e da empresa fornecedora do insumo. O produto utilizado foi uma cobertura de fibras poliabsorventes com prata, aplicada em lesão decorrente de deiscência operatória pós-traumática. A paciente selecionada foi previamente informada sobre o objetivo do estudo e seus direitos. Os dados coletados incluíram informações sobre a paciente (idade, sexo, histórico de saúde) e características da lesão, como dimensões e avaliação subjetiva (dor, bem-estar e sensibilidade ao insumo). O tratamento consistiu na higienização da lesão, seguida da aplicação do insumo supracitado e cobertura com gaze estéril. O estudo seguiu todos os requisitos éticos, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Mogi das Cruzes (CAAE: 72942923.5.0000.5497). O sigilo e anonimato da paciente foram preservados, utilizando informações genéricas e fotografias autorizadas para documentar o caso.
Paciente do sexo feminino, 71 anos, hipertensa, por atropelamento por motocicleta em 10 de agosto de 2022. Admitida em serviço de pronto-socorro por lesão traumática em terço medial do membro inferior direito com exposição muscular. Realizada sutura, com evolução para alta hospitalar e prescrição de tratamento antimicrobiano oral, uso tópico de colagenase e orientação de curativo diário. Apresenta-se em Unidade Básica de Saúde, em 18 de agosto de 2022, com relato de rompimento de sutura há 3 dias, piora da lesão e dor local. Observou-se deiscência da lesão traumática medindo 13,0 x 10,0cm, capa necrótica úmida em 70% da lesão, com odor fétido, exsudato ser purulento em quantidade moderada, bordas friáveis. Foi realizado desbridamento mecânico da lesão, evidenciando esfacelos e granulação opaca, em menor quantidade, que estavam sob o tecido não-viável. Após procedimento, optou-se por curativo com placa de carvão ativado com prata, com orientação de troca a cada 2 dias. Em 13 de outubro, a lesão atingiu 8,0 x 6,0cm, com 60% de sua área coberta por esfacelos, evidenciando biofilme. Nesta data, iniciou-se o curativo com a tecnologia proposta. O espaço entre as trocas foi aumentado, gradativamente, de 3 em 3 dias para uma vez por semana. Em 13 de dezembro, 125 dias após o surgimento da lesão, 2 meses após o início de terapêutica, a paciente apresentou cicatrização da lesão, recebendo alta do acompanhamento.
Embora observado evolução positiva inicial quando obtivemos a remoção de tecido necrosado do leito viável, em seguida, a lesão apresentou estagnação e suas dimensões se mantiveram inalteradas. Por conseguinte, a significância deste estudo se dá pela necessidade de alternativas para o cuidado, o incômodo da equipe de enfermagem acerca de sua atuação no caso e, sem embargo, a possibilidade de utilizarmo-nos de uma nova tecnologia para realização de curativos. A introdução de um curativo absortivo e antimicrobiano mostrou-se plenamente efetivo no controle de exsudato e no favorecimento de um tecido viável para cicatrização, além de promover maior conforto para a paciente, sendo, pragmaticamente, indolor e de fácil manejo, com trocas menos frequentes do que as alternativas utilizadas anteriormente. Indiretamente, acerca dos ganhos adjacentes ao estudo, nota-se que um curativo que se demonstra mais efetivo, fortalece a criação de vínculo e confiança entre a tríade equipe-paciente-tecnologia para, assim como o benefício do uso de medição padronizada e registro fotográfico das lesões, formando instrumento fundamental para o acompanhamento da evolução das lesões, influenciando na qualidade da assistência prestada ao paciente.
Curativo, lesões, Feridas, Tratamento
ANDERSON ESPIRITO SANTO