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A pessoa em situação de rua (PSR) enfrenta diversas barreiras de acesso aos serviços de saúde. Seu modo de vida é repleto de vulnerabilidades e os profissionais de saúde devem estar preparados para criar estratégias de cuidado que considerem os determinantes sociais do processo saúde-doença da PSR. Durante 2024, houve a manutenção da política de dispersão de pessoas em situação de rua nas cenas de uso de drogas da cidade de São Paulo (chamadas de cracolândia). Ações de limpeza e zeladoria urbana são realizadas junto à Guarda Civil Municipal e/ou Polícia Militar do Estado de São Paulo. Como as abordagens da limpeza urbana e da segurança pública ocorrem simultaneamente, a PSR não consegue acesso a seus documentos, cobertores, pertences pessoais e medicamentos no momento das abordagens. Sendo assim, os itens da PSR acabam sendo levados junto aos dejetos provenientes da limpeza, sem que os sujeitos possam recuperá-los. A fim de amenizar os impactos dessas ações, profissionais da Farmácia do Centro de Saúde Escola Geraldo Paula Souza, da Supervisão Técnica de Saúde Lapa Pinheiros e da equipe de Consultório na Rua Pinheiros criaram estratégias de enfrentamento e continuidade do cuidado à saúde da PSR.
Este relato de experiência visa descrever como articulações entre o serviço farmacêutico do Centro de Saúde Escola Geraldo Paula Souza e a equipe de Consultório na Rua de Pinheiros foram fundamentais para o acesso à medicamentos pela PSR, criando alternativas aos problemas de perda e roubo de medicamentos que esta população sofre.
Foram realizadas reuniões envolvendo o CnaR, farmacêuticos do centro de saúde e profissionais da Supervisão Técnica de Saúde a fim de estruturar soluções para administração segura de medicamentos na PSR. A farmácia do centro de saúde fez um levantamento acerca das normas e legislações que orientam sobre o fracionamento de medicamentos e os insumos necessários para iniciar este trabalho. Foi realizada uma visita em um serviço com expertise no fracionamento de medicamentos (CAPS AD II Vila Madalena). Para controle interno, foram elaboradas planilhas com todos os medicamentos usados e seus respectivos horários, além da criação de um livro de registro a fim de garantir a segurança e rastreabilidade dos medicamentos. Na unidade, foi disponibilizado espaço adequado para o fracionamento de medicamentos, sacos plásticos para armazenamento adequado (inclusive aos medicamentos que necessitam de fotoproteção), etiquetadora para identificar substâncias, lote, data de fabricação, data de validade e nome do paciente a quem se destina a separação individual e diária dos medicamentos. O CnaR ficou responsável pela retirada diária dos medicamentos (exceto sábado e domingo, que são retirados nas sexta-feiras) e busca ativa diária dos pacientes para administração in loco por profissional competente (auxiliares de enfermagem, enfermeiros ou médico). Há registro diário de qual funcionário do CnaR retira a medicação para controle pelo farmacêutico.
Através do fluxo estabelecido pelas equipes, foi possível busca ativa diária para administração do tratamento a 7 pacientes com tuberculose. Um paciente aceitou administração diária de antipsicóticos in loco e retornou a família após a compensação do quadro psiquiátrico e após viver por 30 anos em situação de rua na região. 4 pacientes que vivem com HIV passaram a receber diariamente a TARV. Todos conseguiram atingir bom controle de replicação do vírus, mesmo em uso intenso de crack. Uma das pacientes, mulher transsexual, conseguiu pela primeira vez em 10 anos carga viral indetectável. Foram realizados 3 tratamentos completos de sífilis in loco, onde a administração da penicilina G benzatina foi feita mediante disponibilidade de adrenalina em caso de anafilaxia. O processo passou a ser mais organizado, a equipe do consultório na rua neste momento consegue buscar os medicamentos diariamente e sair para o território com maior agilidade. A conservação dos medicamentos é realizada dentro dos padrões de qualidade, os medicamentos são 100% identificados e o farmacêutico realiza o monitoramento dos pacientes e seus tratamentos. Por fim, houve uma aproximação maior dos profissionais de ambos os serviços, resultando em melhora da comunicação e da assistência farmacêutica aos pacientes.
A articulação entre os serviços permitiu a continuidade de tratamentos de diversas comorbidades nas pessoas em situação de rua que ficam no território de responsabilidade do centro de saúde. O fracionamento de medicações e busca ativa diária dos pacientes para sua administração é uma estratégia de cuidado que solucionou problemas relacionados ao extravio de medicamentos aos quais a PSR está exposta. A contribuição por parte da gestão do Centro de Saúde Escola Geraldo Paula Souza em ceder recursos financeiros foi de suma importância para realização do trabalho, pois foi necessária aquisição de diversos insumos para iniciar o fracionamento. Houve grande colaboração da equipe de farmácia e consultório de rua na construção mútua do projeto.
população em situação de rua, serviço farmacêutico
GABRIELA GONÇALVES CARNEIRO, PRISCILA ALVES DA LUZ, GABRIEL BAJADARES DA SILVA, MAUREEN DE ALENCAR FILONE, VINICIUS RAMOS BEZERRA DE MORAIS, LAIS SANTOS DA SILVA, MICHELE ROSE MUNI DE MELO, TALITA OLIVEIRA DOS SANTOS SILVA