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O aumento das arboviroses é um fenômeno relacionado às mudanças climáticas, somado à adaptação dos vetores ao meio urbano e outros determinantes sócio ambientais. Em 2024, São Paulo sofreu uma grande epidemia de dengue, desencadeando ações que envolveram todos os níveis dos equipamentos públicos de saúde. O Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza (CSEGPS), pertencente ao distrito administrativo (DA) Jardim Paulista, é um equipamento da Atenção Básica de modelo Tradicional. Essa modalidade de serviço não conta com a atuação de Agentes Comunitários de Saúde, implicando em maiores desafios para o conhecimento das características do território, construção de vínculo com a população e ações extra-muro, fatores importantes para o controle da dengue. Ao longo de 2024 não foram identificados pontos viciados para eliminação de criadouros apesar do coeficiente de incidência de dengue ter aumentado em quase 13 vezes desde 20231. Mediante este cenário, foi identificada a necessidade de analisar de forma mais detalhada a distribuição dos casos de dengue no Jardim Paulista. Dessa forma, foi realizada análise epidemiológica espacial como uma ação do Núcleo de Vigilância em Saúde na Atenção Básica (NUVIS-AB) para apoiar a Comissão de Arboviroses e a gestão do Centro de Saúde Escola a planejar e executar ações efetivas de prevenção e controle das arboviroses, principalmente no quesito de eliminação de criadouros e orientação da população residente quanto a dengue.
O projeto teve como objetivo geral analisar a distribuição de todos os casos notificados e confirmados de dengue no Jardim Paulista e identificar áreas de maior risco relativo da doença para utilizar os recursos da Unidade de forma efetiva, implementando ações planejadas de eliminação dos criadouros e educação em saúde. Como objetivos específicos, destacam-se: elaborar mapas com a taxa bruta de incidência dos casos confirmados de dengue, além da taxa bayesiana local e global, analisar aglomerados puramente espaciais de alto e baixo risco para avaliar o risco relativo da doença e aplicar o índice de Moran Local univariado ou LISA (Local Indicator of Spatial Agglomeration) para verificar relações entre casos de dengue e o espaço de forma mais precisa.
A partir do estágio em gestão da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), atuando com ênfase no NUVIS CSEGPS, disparado pelo cenário epidêmico de dengue, foram utilizados os dados do setor de Vigilância e conceitos da disciplina HEP0179 – Análise Espacial em Epidemiologia (2024)2 para produzir materiais cartográficos para análise epidemiológica. Foram analisados 470 casos de dengue ocorridos de janeiro a julho de 2024, armazenados num banco de dados do Google Planilhas e dados do IBGE2,3 para a criação do shapefile do projeto. Casos com fichas incompletas ou sem confirmação foram excluídos, assim como os fora do distrito Jardim Paulista, resultando na geocodificação de 294 casos (62,6%). Para realizar a geocodificação, os endereços de moradia foram convertidos para coordenadas utilizando um Script do Github5 e adicionados ao Software de geoprocessamento QGIS6 através do Plugin Spreadsheet Layers. A análise estatística incluiu o cálculo da taxa de incidência da dengue e a estimativa bayesiana local e global no Software GeoDa7 para corrigir flutuações aleatórias e reestimar o risco real ao qual a população está exposta. A análise de aglomerados utilizou o modelo discreto de Poisson no Software SaTSca8 para identificar clusters espaciais de alto e baixo risco. A validação da dependência espacial dos casos com o distrito Jardim Paulista foi feita pelo Índice Local de Associação Espacial (LISA), revelando clusters significativos (pseudo p-valor = 0.001).
Foram produzidos mapas com a distribuição da população, taxa de incidência de dengue em diferentes modelos estatísticos e mapas que apontaram a presença de clusters puramente espaciais de alto e baixo risco e aglomerações espaciais de incidência de dengue com o índice de Moran Local. O valor deste índice foi de 0.158, indicando baixa dependência do ambiente com os casos de dengue. Com o cálculo do Moran Local, dos 336 setores censitários do Jardim Paulista, 56 (16,7%) apresentaram aglomerações espaciais de alto e baixo risco para dengue. Essas aglomerações distribuíram-se em: 41,1% de padrão Alto-Alto, 17,9% Baixo-Baixo, 32,1% como Baixo-Alto e 8,9% de padrão Alto-Baixo. Para o controle de criadouros e intervenções in loco, os aglomerados Alto-Alto e Alto-Baixo foram de maior importância. Os aglomerados Alto-Alto indicam setores com alta taxa de dengue, assim como seus vizinhos. Já os aglomerados de risco Alto-Baixo indicam setores com alta taxa de incidência mesmo com seus vizinhos apresentando baixas taxas da doença. A identificação desses aglomerados é importante para a vigilância, pois evidencia os setores que precisam de maior sentinela ao longo do tempo. A análise desses setores via Google Street View permitiu identificar locais propícios à proliferação do Aedes aegypti. O estudo se mostrou eficaz para planejar ações estratégicas e programadas de intervenção, promovendo a eliminação de criadouros e educação social em saúde em relação ao controle e prevenção da dengue.
A ausência de georreferenciamento de casos da própria área de abrangência da Unidade e em distritos vizinhos foi uma limitação e fator de influência para o baixo índice de correlação espacial. A geocodificação dos endereços de residência também é uma delimitação, pois desconsidera casos confirmados de trabalhadores da área e pessoas em situação de rua. Ainda assim, a análise espacial foi uma boa ferramenta de gestão para auxiliar a equipe no combate, controle e vigilância de arboviroses. Também mostrou a importância da organização e análise sistemática de dados para planejar ações estratégicas futuras. A parceria entre a academia e os serviços de saúde mostrou-se como fator importante para a resiliência da equipe profissional frente às adversidades, pois fornece alternativas de promoção e prevenção da saúde de acordo com os princípios e diretrizes do SUS. Os resultados obtidos modificaram a dinâmica de funcionamento do Centro de Saúde Escola para realizar ações no território com a parceria do Programa de Acompanhante de Idosos e Consultório na Rua, visando a eliminação de criadouros e educação social em saúde para o controle e prevenção da dengue.
dengue, análise espacial, vigilância em saúde
BRUNA PERRONI COELHO, FRANCISCO CHIARAVALLOTI NETO, MÁRCIA MARIA PORTO ROSSETTO MAZZA, PATRICIA MARQUES MORALEJO BERMUDI