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No Brasil, a população idosa aumenta absoluta e percentualmente ao longo dos anos, resultado principalmente da queda das taxas de natalidade e do aumento da expectativa de vida. Segundo o Censo Demográfico, pessoas com 65 anos ou mais já correspondem a 10,9% da população brasileira. As projeções indicam que o processo de envelhecimento continuará se intensificando até 2050, ampliando a demanda por serviços de saúde voltados a cuidados continuados, prevenção de doenças crônicas e atenção integral à terceira idade. No campo da saúde mental, o envelhecimento pode estar associado à maior prevalência de transtornos do sono, quadros depressivos, demências e uso inadequado de medicações, o que demanda intervenções específicas, intersetoriais e centradas na qualidade de vida. O presente texto tem como objetivo relatar a experiência de atendimento, na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), inicialmente no CAPS AD do município de Santo André, de uma mulher idosa em quadro de dependência de Zolpidem, destacando o papel do acolhimento e da articulação multiprofissional na redução do sofrimento e na estruturação do cuidado.
Relatar e analisar a experiência de atenção e cuidado prestado a uma mulher idosa com dependência de Zolpidem no contexto de uma RAPS, evidenciando a importância da abordagem multiprofissional e do acolhimento na redução do sofrimento e na estruturação de um projeto terapêutico singular. Objetivos específicos: Descrever perfil sociodemográfico e histórico clínico da paciente, com foco na evolução da dependência química e comorbidades. Detalhar estratégias de acolhimento e manejo clínico adotadas pela equipe, ressaltando a construção de vínculo e a escuta qualificada. Analisar o papel da articulação multiprofissional na elaboração e execução do Plano Terapêutico Singular. Levantar a discussão sobre desafios específicos do cuidado em saúde mental para a população idosa com quadros de dependência química ou uso problemático de medicamentos, considerando o envelhecimento populacional. Avaliar os resultados da intervenção em termos de redução de danos, promoção em saúde e reinserção social
Realizar contato inicial com usuária através de visita domiciliar considerando informações trazidas pelo companheiro que não conseguia sair de casa, devido uso da medicação. A partir da avaliação na residência, observamos a necessidade de intervenção rápida, por esta razão organizamos avaliação médica e psiquiátrica no CAPS AD e elaboração do Projeto Terapêutico Singular da usuária. A usuária foi encaminhada para observação hospitalar no setor de psiquiatria no Centro Hospitalar do Município de Santo André (CHMSA) para suspensão assistida da medicação, onde permaneceu por um dia. Em visita realizada em ambiente hospitalar, após discussão de caso com a paciente e equipes, articulou-se a transferência para o CAPS AD para a continuidade do cuidado em Hospitalidade Integral, pelo período necessário à estabilização psíquica. No contexto da RAPS, e considerando o papel estratégico do CAPS AD na atenção às pessoas com problemas decorrentes do uso de substâncias psicoativas, torna-se essencial oferecer um acolhimento qualificado que permita identificar riscos, orientar familiares e propor estratégias de cuidado integrado. Foram utilizados os seguintes dispositivos da RAPS: Avaliação médica especializada. Ajuste medicamentoso e monitoramento diário. Acolhimento em Hospitalidade Integral, com permanência de 22 dias no CAPS AD. Atendimento de referência e acompanhamento multiprofissional diário. Supervisão contínua dos efeitos do desmame e intervenções breves de apoio emocional.
A usuária, em busca do alívio dos sintomas de insônia e desconhecendo os potenciais efeitos adversos do medicamento, fez uso da medicação Zolpidem sem prescrição médica, com a promessa de um sono reparador. O uso inadvertido resultou em abuso e dependência da medicação, prejuízo em memória e na qualidade do sono, disfuncionalidade para realização das atividades da vida diária, choro constante, sentimentos de angústia, que eram aliviados com o uso da medicação, totalizando em média 9 comprimidos diários por mais de 5 anos, com monitoração em últimos meses pelo marido, também idoso. A preocupação com a condição clínica e psíquica fez com que o marido procurasse ajuda especializada. A avaliação inicial foi realizada em plantão de acolhimento a partir da escuta do familiar, que justificaram a necessidade de intervenção rápida e articulada visando à estabilização do quadro, ao manejo seguro da retirada do medicamento e à promoção de suporte à usuária e seus familiares que desconheciam a gravidade da situação. Após 22 dias de acolhimento integral (somando período no CHM e permanência no CAPS AD III), foi possível realizar o desmame completo do Zolpidem, estabilizar o quadro clínico e construir condições seguras para a alta da usuária, retornando à sua residência com orientações e acompanhamento programado, inclusive com visitas domiciliares.
A adaptação dos serviços de saúde mental aos perfis epidemiológicos, como a população idosa com dependência química, destaca os princípios de equidade, integralidade e universalidade do SUS. Este relato de experiência demonstra a efetividade da RAPS na promoção do cuidado humanizado e integrado. A intervenção ágil foi crucial: iniciada pela escuta qualificada do familiar e visita domiciliar, e seguida por uma eficiente articulação em rede para garantir o tratamento da usuária. A utilização de dispositivos como a Hospitalidade Integral e a atuação multiprofissional permitiu a criação de um Projeto Terapêutico Singular efetivo, resultando na suspensão completa e manutenção da abstinência do Zolpidem.O modelo de atenção psicossocial, focado em acolhimento, escuta e integração, é uma estratégia coerente para os desafios da saúde mental. O sucesso reforça a importância da capacitação contínua das equipes para identificação precoce e manejo do Transtorno por Uso de Substâncias em idosos, promoção de educação sobre uso racional de medicamentos, fortalecimento da rede de suporte social, vital para a adesão e manutenção do cuidado.
Envelhecimento , Psicofármaco, Redução de Danos
MARALÚCIA BUENO, MAURICIO DOTTO CARRASCO, LEONARDO MARTINEZ, GABRIELA DA SILVA ROBERTO, CECÍLIA SOUZA E FRANCO, PATRÍCIA BATISTA ALVES TEIXEIRA