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A meningite é um evento importante na saúde pública, pela expressiva morbimortalidade e sequelas, principalmente nas origens bacteriana. É uma infecção que se instala, principalmente, quando uma bactéria ou vírus, por alguma razão, consegue vencer as defesas do organismo e ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula espinhal e outras partes do sistema nervoso central. No Brasil, ela é considerada uma doença endêmica. A vigilância das meningites segue procedimentos padronizados, desde a identificação de um caso suspeito até a implementação de medidas de prevenção e controle da doença na comunidade. Devido à gravidade do quadro clínico, na suspeita de meningite, necessita-se de atendimento em tempo oportuno nos serviços para avaliação médica o quanto antes. Por este motivo, há necessidade de identificação rápida do caso pelo setor hospitalar, seja ele público ou privado, consequentemente, a notificação imediata do caso às autoridades sanitárias do município, ou seja, em 24 horas, fazendo parte do protocolo de envio dos exames de quimiocitológico e bacterioscópico do líquor para análise dos técnicos da vigilância epidemiológica para possíveis medidas de profilaxia. Nesta direção, este trabalho vai discorrer sobre uma experiência ocorrida em setembro de 2024, demonstrando a importância da intersetorialidade para o sucesso nas ações de vigilância das meningites.
O principal objetivo do presente trabalho é descrever um relato de experiência sobre um caso suspeito de meningite bacteriana que ocorreu no município de Santos, envolvendo diversos setores como: Pronto Atendimento, Hospital, Vigilância Epidemiológica (VE), Atenção Primária à Saúde (APS), Escola e o contexto familiar do paciente. Além disso, visa evidenciar a importância da articulação entre os setores para identificação rápida do tipo de meningite do caso suspeito até a implementação de medidas de prevenção e controle da doença.
No dia 12/09/2024, a VE de Santos recebeu um e-mail de uma das unidades da Região dos Morros, sobre um atendimento de familiares contactantes de um caso suspeito de meningite: uma criança de 11 anos, onde a médica da equipe indicou Rifampicina 300mg, conforme orientação dos médicos da unidade hospitalar. A enfermeira questionou a VE a ciência do caso e se havia indicação de quimioprofilaxia, solicitando informações sobre a retirada dos medicamentos, uma vez que não é padronizado nas unidades da APS. A VE já havia recebido a notificação via hospital, que enviou os exames de Líquor (LCR) para que os técnicos pudessem tentar identificar se seria um caso de Doença Meningocóccica (DM), causada pela bactéria Neisseria meningitidis: indicação de quimioprofilaxia. Os casos de DM podem apresentar petéquias ou sufusões hemorrágicas e no exame do bacterioscópico do LCR, pode-se encontrar diplococos gram negativos. Uma vez que havia no LCR uma celularidade alta, um consumo de glicose e predomínio de neutrófilos, a VE entrou com medidas profiláticas, mesmo antes do resultado da cultura, pois havia uma informação de possível Neisseria por parte do laboratório do hospital. Neste sentido, a VE articulou com a Escola do estudante para levantar o número de contactantes, bem como no âmbito familiar, e articulou com outros serviços como a VE Estadual, o almoxarifado central da Secretaria de Saúde e Ambulatório de Tuberculose para garantir o total de doses para a ação na Escola.
A quimioprofilaxia é uma estratégia de prevenção de doenças infecciosas que envolve o uso de medicamentos para reduzir o risco de infecção em indivíduos expostos a agentes infecciosos. Em 13/09/2024 foi realizada a quimioprofilaxia de meningite na escola do aluno (caso suspeito). Dos 30 alunos listados para receber o tratamento profilático, 22 foram atendidos e receberam a medicação conforme protocolo, entre estudantes, professores e funcionários da escola. Dos 08 estudantes que estavam listados que pertenciam a outras áreas de abrangência dos morros, todos receberam prescrição e medicação. As crianças que não compareceram foram direcionadas para as unidades de referência correspondentes para receberem a quimioprofilaxia. Percebeu-se que a intersetorialidade foi primordial para o êxito desta ação, pois esta articulação envolve a expectativa de maior capacidade de resolver situações, reconhecendo que ela se constrói sobre a necessidade das pessoas e setores de enfrentar problemas concretos. A articulação em rede de diferentes formas e protagonistas não significa a diluição da importância do papel do SUS, onde o setor Saúde funciona mais como catalisador do que executor das várias ações de promoção, dependentes de outros atores. Até porque os princípios de construção do SUS desenvolveram-se à luz dessa visão: a melhora da qualidade de vida e saúde da população não se limita ao sistema de saúde em si, mas depende de como a sociedade se organiza e prioriza suas necessidades.
A intersetorialidade pressupõe o trabalho conjunto de pessoas de diferentes áreas e por isso deve-se pensar também na realização de atividades que possam promover uma mudança de postura por parte de componentes dos órgãos públicos. É preciso universalizar a Saúde, descentralizar suas ações e abrir a gestão do sistema à participação da população. E isso faz toda a diferença na práxis. Esta experiência demonstrou o quanto é relevante unir forças para “fazer junto” no território. A Vigilância Epidemiológica agradece imensamente a todos os setores e atores envolvidos nesta ação tão exitosa no município, em especial a equipe da estratégia de saúde da família responsável por toda a organização e realização das ações de prevenção à saúde da comunidade exposta.
Vigilância, meningite, intersetorialidade
FABIANA LOYDE WAKAI JORGE PINHO, CAMILA MEDEIROS PEZZOTTI, CLAUDIA CAMARGO LORITE, TELMA HELENA GONÇALVES CORDELLA, NATALIA CRISTINA BRITO MELLO, ANNA BEATRIZ LOPES FEITOSA, MARIANA MOREIRA BONIFÁCIO, WILLIAN FIORATTI