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O assédio moral e sexual no ambiente de trabalho da saúde constitui um problema persistente e complexo, com repercussões diretas sobre a saúde mental dos trabalhadores, a organização dos serviços e a qualidade da atenção prestada à população. Nas unidades onde transitam estagiárias e residentes, esse fenômeno adquire contornos particulares, por se tratarem de espaços marcados por relações hierárquicas, equipes multiprofissionais e intensa interação entre gestores, trabalhadores, preceptores e supervisores de estágio. Tais características podem favorecer situações de abuso de poder, silenciamento das vítimas e naturalização de práticas assediadoras no cotidiano institucional. Os gestores ocupam posição estratégica no reconhecimento, prevenção e enfrentamento do assédio moral e sexual, contribuindo na condução das denúncias e implementação de fluxos institucionais de acolhimento, apuração e encaminhamento dos casos. Apesar da existência formal de protocolos e normativas, esses não garantem por si só, a efetividade das respostas institucionais, especialmente quando esses instrumentos não são amplamente divulgados, compreendidos ou incorporados à prática gerencial. Diante desse cenário, torna-se necessário investigar a percepção dos gestores do SUS sobre assédio moral e sexual e os fluxos institucionais de atendimento. Compreender como a gestão reconhece e responde ao problema é essencial para qualificar o cuidado, fortalecer a governança e apoiar ações de educação permanente.
Analisar a percepção dos gestores da saúde pública sobre o assédio moral e sexual, considerando os mecanismos institucionais de acolhimento, atendimento e encaminhamento das denúncias, com vistas ao fortalecimento da gestão e estabelecimento de fluxos de cuidado para proteção das trabalhadoras e futuras trabalhadoras no SUS.
Pesquisa realizada nos serviços de saúde da zona Sul de São Paulo, na perspectiva do Programa de Educação para o Trabalho do Ministério da Saúde. Foram distribuídos formulários por e-mail aos gestores, entre os meses de agosto e outubro de 2025, contendo 14 perguntas com as proposituras da pesquisa (estruturadas e semiestruturadas) cuja anuência foi expressa mediante o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Estudo aprovado sob o parecer 7.245.260.
Participaram da pesquisa 119 gestores, dos quais a maioria era do sexo feminino (81,5%), evidenciando a expressiva presença de mulheres em cargos de liderança nos serviços de saúde. Os respondentes ocupavam funções de gerência, responsabilidade técnica e supervisão, com faixa etária entre 18 e 56. Quanto à compreensão sobre comportamentos caracterizados como assédio moral, observou-se reconhecimento de ações que podem ser consideradas práticas abusivas, sendo a humilhação pública apontada por 99,2% dos participantes, seguida por comentários ofensivos ou depreciativos (96,6%), isolamento ou exclusão social (78,2%) e ameaças ou intimidações (71,4%). Em relação às estratégias adotadas pela gestão frente às denúncias, 85,7% relataram que o melhor caminho é realização de investigação interna, demonstrando esforço institucional para apuração dos casos, enquanto 60,5% informaram o encaminhamento das vítimas para atendimento psicológico, sinalizando preocupação com os impactos psicossociais do assédio. Embora 83,2% dos gestores tenham confirmado a existência de protocolos ou fluxos institucionais para o enfrentamento do assédio moral e sexual, a maioria não soube descrever ou identificar claramente o fluxo proposto pela gestão pública do SUS. Tais resultados evidenciam fragilidades na apropriação e operacionalização desses instrumentos, sugerindo que a existência formal de protocolos não garante, por si só, a efetividade das ações de enfrentamento.
Os resultados desta pesquisa evidenciam que os gestores dos serviços de saúde têm percepção clara sobre as principais formas de assédio moral, como humilhação pública, comentários ofensivos, isolamento e ameaças. Esses achados indicam uma percepção ampliada acerca das manifestações mais recorrentes do assédio moral no ambiente de trabalho. Apesar disso, observou-se que a existência de protocolos ou fluxos institucionais não garante conhecimento pleno ou aplicação efetiva desses instrumentos, o que revela lacunas na divulgação e operacionalização das políticas de enfrentamento. Além disso, embora medidas como investigação interna e encaminhamento psicológico sejam adotadas, é necessário fortalecer a capacitação e a cultura organizacional para assegurar respostas rápidas, seguras e eficientes às denúncias. Esses elementos reforçam a importância de investir em educação permanente, sensibilização das equipes e monitoramento contínuo das práticas institucionais, contribuindo para a proteção das trabalhadoras e futuras trabalhadoras do SUS, o aprimoramento da gestão e a consolidação de ambientes de trabalho mais éticos, respeitosos e seguros.
Assédio Moral, Assédio Sexual, Estágio, Equidade.
ELISABETE AGRELA, JUCINEI ARAÚJO DE JESUS, DARLENE DONDA, LAIS ALVES SOUZA, NICOLAS DOS REIS NEVES, GEOVANNA FERREIRA RODRIGUES