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No âmbito da luta antimanicomial e da desinstitucionalização, a autonomia é a capacidade de o indivíduo gerar normas para sua vida, a partir de sua possibilidade de ampliar relações com o social. Nesse caso, é compreendida como interdependência: sendo o sujeito produto das relações sociais, ele se torna mais autônomo na medida em que estabelece o maior número de relações com pessoas e coisas. Refere-se possibilidade de reconstrução e ressignificação dos sentidos de sua vida e de sua forma de viver, abrangendo também a luta pela satisfação de suas necessidades. Sr. M, homem, pardo, 52 anos, solteiro, natural de Santo André/SP, não possui vínculos familiares preservados. Ficou internado durante longos períodos em diferentes instituições psiquiátricas e vivenciou vulnerabilidades sociais que resultaram em uma realidade de negligência para suas necessidades, devido à fragilização dos vínculos familiares. Atualmente, faz parte dos usuários do Serviço Residencial Terapêutico – SRT, do município de Santo André desde 2009. Este relato justifica-se, levando em consideração que as residências terapêuticas constituem-se como alternativas de moradia, singularidade do cuidado, o morador vem apresento evolução na apropriação da moradia e autonomia significativa. Deste modo, o processo de reabilitação psicossocial deve buscar de modo especial a inserção do usuário representa o início de longo processo de reabilitação que deverá buscar a progressiva inclusão social do morador.
Descrever os desafios no processo de desenvolvimento da autonomia e apropriação da sua casa de um morador no serviço residencial terapêutico com afasia total. Demonstrando, ainda, a importância do trabalho desenvolvido pela Equipe na dimensão da singularidade de cada morador.
Diante das informações, entendemos que o usuário foi admitido na SRT já com quadro grave no seu desenvolvimento desde o nascimento, na infância e fase adulta. Sobre seu desenvolvimento, SIC, Sr. M. esboçava sons com a boca, demonstrava ter bons repertórios para desenvolvimento da fala, coincidentemente, após uma vacina, por volta dos 2 anos, avó afirma que ele parou de esboçar sons. Ainda, a avó conta que ele apresentou episódios de paralisia e epilepsia, o que resultou em diversas internações (sem mencionar quantidade de internações e sua duração), nesses primeiros momentos em hospitais gerais. Outras diversas internações ocorreram ao longo da vida adulta em hospital geral por outros quadros, voltados em grandes partes para agitação e infecções advindas de más condições de higiene, dentro e na dependência da casa, apresentava desorganização cognitiva e insalubridade na condição da casa, possuindo a presença de roedores e sujeiras no terreno em que moravam. A defesa civil chegou a ser acionada para avaliar e posteriormente articular a limpeza, via superintendência técnica de serviços de cidadania e inclusão social, em 31/05/2006, que retirou os moradores de lá e os encaminhou para o antigo NAPS 1 (atualmente CAPS), para posteriormente ser cedido uma casa na moradia “mais vida”. Desde sua admissão na SRT, foi identificado que o M.R.N. apresentava um padrão de limitações cognitivas, social, físicas, neurológicas e psíquicas importante.
Devido a dinâmica das SRT, é comum a mudança de casa, a fim de entender como o mesmo esta construindo sua autonomia, apropriação de espaço bem como as relações desenvolvidas. Atualmente, o mesmo mora na SRT “Uruguai”, composta por uma casa com outros quatro moradores do sexo masculino, mantendo uma relação de muito respeito e afeto. Importante ressaltar que a equipe demonstrava receio do mesmo ter acesso a cozinha, pelos riscos de queimadura, dentre outras questões. Na ocasião foi realizada uma avaliação da equipe de apoio técnico que entendeu, que seu desejo em estar na cozinha e ou perto das panelas, era um gosto que o mesmo tem pelo espaço, e a equipe foi sendo sensibilizada. Aos poucos o mesmo vem adquirindo liberdade, autonomia, e direitos dentro do seu habitat. Atualmente ele tem acesso aos armários livremente, consegue servir-se, geladeira, fruteira e afim. O mesmo necessita de dieta assistida por questões e risco de engasgo, porem, seu desejo enquanto morador é respeitado, principalmente comemorado quando algo diferente é identificado. Esta mudança de casa permitiu que o morador acessasse os cômodos da SRT do seu lar livremente, e mesmo sendo com total afasia, vem através de gestos e comportamento demonstrando suas emoções e desejos.
Possui independência comprometida para várias atividades de autocuidado e pelos aspectos comportamentais atuais: não verbalização, pouco contactante e resistência a aproximação por toque, algo que já é frequente como o cumprimento, aperto de mão. É necessária estimulação verbal e sensorial para que ele tenha constância na rotina de autocuidado. Atualmente, seu Projeto Terapêutico Singular – PTS, ainda apresenta suas dificuldades de construção pela falta de verbalização do morador, assim como dificuldade de responder estímulos e aderir as atividades propostas. Para dentro da SRT as pequenas conquistas, gestos, sorrisos, toques são estimulados e comemorados. Tais condições deveriam ser objeto de frequentes reflexões e discussões com as equipes de referência, cuidadores e usuários, objetivando que os sujeitos caminhem, progressivamente, na direção de maior autonomia, liberdade, apropriação de sua casa.
Autonomia do sujeito, desafios, reabilitação.
FABIANA PINTO DE ALMEIDA, ARIANA APARECIDA DA SILVA, VERA LÚCIA RODRIGUES DE BRITO, JULIANA APARECIDA SILVA, MARIA ISABEL RODRIGUES SANTOS