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O presente relato descreve a experiência de um grupo de passeio organizado pelo Centro de Atenção Psicossocial Adulto (CAPS) III Paraisópolis. Pessoas com transtornos mentais graves ou em sofrimento psíquico, devido aos sintomas relacionados ao adoecimento e aos estigmas e preconceitos existentes, passam frequentemente por processos de exclusão social que envolvem: isolamento social com rotinas empobrecidas; dificuldades de inserção ou apropriação de espaços sociais de lazer, cultura, esporte e educação; dificuldades de inserção no mercado de trabalho; e redes sociais limitadas. A equipe do CAPS Adulto III Paraisópolis observou que muitos usuários enfrentavam dificuldades para encontrar e aproveitar atividades que atendiam às suas necessidades e interesses. A escassez destas atividades criou uma dependência do CAPS como sendo o único espaço de participação social e relações fora do contexto familiar. Além disso, havia limitações na capacidade da equipe e do próprio serviço para promover encaminhamentos eficazes para os recursos disponíveis no território. Dentro desse contexto, visando ampliar a inserção social dos usuários, foi criado o grupo “Desocupa CAPS”, com o objetivo de facilitar o acesso a espaços de lazer, educação, esporte, arte e cultura.
O grupo Desocupa CAPS” foi implementado como uma estratégia para superar estas barreiras e promover uma reabilitação psicossocial mais abrangente com os objetivos de: (1) Mobilizar interesses dos usuários; (2) Desenvolver autonomia e independência para circular nas redes da cidade; (3) Promover acessos a recursos no território; e (4) Ampliar repertórios de atividades e habilidades de interação social.
A inclusão de pessoas no grupo ocorre a partir dos atendimentos de referência, onde após avaliações da equipe, é pactuado o Projeto Terapêutico Singular (PTS) no qual os objetivos relacionados com a reabilitação psicossocial são elaborados conforme demandas, interesses e a partir do protagonismo do usuário do CAPS. O perfil do grupo é aberto e heterogêneo, com participantes de idades variadas entre 18 e 60 anos. Para participar das saídas ao território é condição fazer parte das discussões de planejamento. A organização dos passeios é realizada de forma colaborativa entre os profissionais e os usuários, com a participação ativa de todos no processo. O planejamento das saídas envolve as seguintes etapas: Planejamento do Trajeto: Definição do percurso a ser seguido, levando em consideração o objetivo terapêutico de cada passeio. Pesquisa sobre o Local: Levantamento de informações sobre o local a ser visitado, incluindo aspectos como acessibilidade, custos (se é gratuito ou não), horário de funcionamento e as atividades propostas para o local. Avaliação Pós-Passeio: Após a realização do passeio, é feita uma avaliação com os participantes para compreender os impactos e os aprendizados adquiridos durante a atividade.
O grupo é realizado a mais de 2 anos e já foram visitados cerca de 40 locais do estado de São Paulo, incluindo parques, museus, serviços de lazer e esporte, equipamentos de capacitação profissional e educação, com média de participação total durante o mês de 34 participantes. Na avaliação sobre a percepção dos participantes, foi realizado um questionário pontual com 24 participantes, que apresentava questões associadas aos indicadores do grupo. Os resultados apontam que: 66% dos usuários reconhecem melhora nas habilidades sociais; 30% identificam que o grupo ajudou a ter mais autonomia para se deslocar pela cidade com transporte público; 75% referem ter conhecido lugares novos; e 45% passaram a realizar atividades que não faziam antes. Os avanços dos participantes do grupo foram observados através do desenvolvimento de uma maior autonomia, especialmente no que diz respeito ao uso do transporte público e deslocamentos pelo território. Além disso, o grupo contribuiu significativamente para a inclusão na comunidade e participação social, levando-os à aquisição de novos papéis sociais e ao (re)pensar seus projetos de vida. O estímulo a habilidades de interação social e o fortalecimento de laços sociais também foram impactos positivos observados. A criação de novas redes e o fortalecimento das já existentes contribuíram para uma melhora na autoestima e no autocuidado dos participantes, refletindo diretamente em uma maior qualidade de vida.
O grupo Desocupa CAPS tem se revelado uma estratégia eficaz para promover a participação e inclusão social dos usuários do CAPS. As atividades realizadas têm demonstrado impactos positivos e significativos na autonomia, socialização e na ampliação do repertório cultural e relacional dos participantes. Intervenções desenvolvidas no território, para além dos equipamentos de saúde, possibilitam uma multiplicidade de ações que contemplam o indivíduo nas dimensões biológica, social e psíquica, pois aproximam-se de sua realidade de vida. E, portanto, são recursos estratégicos para potencializar o cuidado em saúde mental nas dimensões da promoção, prevenção, manutenção e, principalmente, de reabilitação psicossocial. Investir em ações que transcendem os muros do CAPS e fomentem a participação social é crucial para a promoção da saúde mental e a construção de uma sociedade mais inclusiva e acolhedora. A experiência do grupo Desocupa CAPS revela como a integração de atividades culturais, educacionais e de lazer como estratégia de cuidado pode contribuir para uma melhoria significativa na qualidade de vida dos indivíduos com transtornos mentais.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL; REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL
DAMARIS DE JESUS GOMES DOS SANTOS, PAULO ROBERTO SPINA, MONICA CAROLINA RODRIGUES ROSA