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A traqueostomia é um procedimento cirúrgico que permite a desobstrução das vias aéreas superiores, realizando uma incisão da traqueia anteriormente, estabelecendo uma abertura artificial através do pescoço. A realização do procedimento está indicada para pacientes com intubação traqueal prolongada e em cenários os quais há comprometimento da permeabilidade das vias aéreas, causado por fatores como excesso de secreção, comprometimento da musculatura respiratória, situações com tumores da orofaringe, entre outros. Pacientes submetidos a traqueostomia encontram-se perante a um novo dispositivo em seu corpo, que auxilia a respiração e que pode levar a riscos como complicações infecciosas ou eventos catastróficos caso não seja realizado o adequado manejo. Além disso, este novo dispositivo também causa um impacto na percepção de sua imagem, na qualidade de vida, comunicação e deglutição do paciente. As inúmeras orientações de cuidado dadas pelos profissionais da saúde para este perfil de pacientes somado a insegurança com o novo, faz com que eles e seus cuidadores sintam-se inseguros em manejar a traqueostomia e retornar para o domicílio. Frente ao exposto, e considerando o perfil social dos pacientes foi desenvolvido e aplicado um programa de educação continuada durante a internação de um paciente traqueostomizado sob nossos cuidados do Hospital Municipal Vila Santa Catarina, a fim de minimizar a insegurança deste paciente e de seu respectivo cuidador ao retorno para a casa.
Para realizar o estudo selecionamos um paciente com diagnóstico de câncer de seio piriforme e esôfago com metástase para pulmão, que evoluiu com estridor laríngeo por invasão tumoral de via aérea alta e que foi submetido a traqueostomia. O paciente selecionado relatava angústia frente à sua nova condição, sentindo-se preocupado sobre manejo de seu novo dispositivo e receio de retorno ao domicílio. Portanto houve preocupação por parte da equipe de fisioterapeutas e fonoaudiólogos em realizar um treinamento de educação continuada durante internação hospitalar.
As seguintes ações foram realizadas: 1 – Foi realizado treinamento teórico e prático, sobre o que é a traqueostomia e quais os cuidados necessários, sendo, supervisionado e orientado pela equipe, para familiares e seu respectivo cuidador. 2 – Foi executado junto ao paciente e familiares, o procedimento de aspiração em um boneco, sendo estimulada vigilância e percepção de riscos com orientações sobre quando buscar pelo sistema de saúde. 3 – Próximo à alta foi entregue uma cartilha com as principais orientações ensinadas. 4 – Com a finalidade de melhorar a qualidade de vida e minimizar impactos emocionais, iniciou-se a adaptação da válvula de fala e de deglutição durante a internação (este dispositivo permite que o paciente consiga produzir fala, mesmo com a traqueostomia).
Ao final do treinamento o paciente demonstrou grande satisfação com o cuidado da equipe em ensina-lo o manejo da traqueostomia, relatando estar se sentindo seguro para o retorno ao domicílio e para realizar suas atividades de vida diária. Durante todo o processo de aprendizado, paciente demonstrou insegurança, ficando perceptível sua angústia sobre o manejo da traqueostomia, sua insegurança com dispositivo, o medo de retornar ao domicílio e à sua rotina visto que possuía uma rede social frágil. Também ficou evidente o impacto gerado em relação à satisfação e aprendizado da equipe, com isso houve maior mobilização e engajamento pelo entendimento do que é mais importante para paciente e família, gerando aprendizados que poderão ser replicados em novas oportunidades.
A princípio as ações teriam por objetivo o benefício do paciente em questão e ao seu cuidador, porém considerando o sucesso do treinamento a equipe está desenvolvendo um projeto para que todos os pacientes em pós-operatório de traqueostomia com programação de alta hospitalar possam receber um treinamento continuo durante a internação. Essas ações minimizam os riscos e inseguranças destes pacientes e seus familiares e/ou cuidadores, resgatam dignidade fazendo com que tenham uma melhor qualidade de vida em suas respectivas residências, retomada das atividades ocupacionais quando possível e prevenindo possíveis danos como infecções ou até mesmo eventos catastróficos em domicílio. Um programa de educação continuada para pacientes em pós-operatório de traqueostomia é fundamental para uma desospitalização segura, permitindo que todos se sintam mais seguros para retornar para casa e às suas atividades, contribuindo além da redução dos riscos do paciente para a prevenção da possível sobrecarga da família e/ou cuidador.
Traqueostomia, desospitalização
Ana Paula Pires Bolsoni Okuda, Michelle Didone dos Santos, Felipe Gonzalez Carvalho