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O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma condição crônica de elevada prevalência e importante impacto na morbimortalidade da população adulta, estando associado a complicações microvasculares e macrovasculares quando não adequadamente controlado. Apesar da disponibilidade de terapias eficazes, a adesão ao tratamento medicamentoso e às mudanças no estilo de vida permanece como um dos principais desafios no manejo da doença, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS). Pacientes assintomáticos no momento do diagnóstico tendem a subvalorizar a gravidade da condição, o que pode comprometer o início oportuno do tratamento e dificultar o alcance do controle glicêmico adequado. Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) desempenha papel fundamental ao possibilitar acompanhamento longitudinal, fortalecimento do vínculo terapêutico, educação em saúde e tomada de decisão compartilhada. Relatar experiências exitosas no âmbito da Atenção Primária contribui para a disseminação de práticas clínicas resolutivas e reforça o potencial da ESF no cuidado às pessoas com doenças crônicas. Este relato se justifica por demonstrar, na prática assistencial, que a abordagem clínica centrada no paciente pode resultar em melhora significativa do controle metabólico, mesmo diante de falha inicial de adesão.
Relatar a experiência do acompanhamento clínico de um paciente com diagnóstico recente de DM2 atendido em uma Unidade de Saúde da Família (USF), do município de Bauru – SP, destacando os desafios relacionados à adesão terapêutica e a obtenção de controle glicêmico adequado como um desfecho positivo da prática assistencial na ESF.
Trata-se de um relato de experiência, de caráter descritivo, construído a partir do acompanhamento longitudinal de um paciente atendido por equipe multiprofissional da ESF, no âmbito da APS. O seguimento ocorreu entre julho de 2023 e março de 2024, integrando atendimentos clínicos, orientações educativas e acompanhamento contínuo realizados pela equipe da unidade. As informações foram obtidas por meio de escuta qualificada, avaliação clínica, análise de exames laboratoriais, registros em prontuário e ações de educação em saúde, respeitando-se a rotina assistencial e o trabalho compartilhado entre os profissionais da equipe. O acompanhamento incluiu intervenções voltadas à promoção do autocuidado, ao fortalecimento da adesão terapêutica e à construção conjunta do plano de cuidado, com participação ativa do usuário. O caso foi selecionado por representar uma situação frequente na prática da ESF: diagnóstico incidental de DM2, dificuldades iniciais relacionadas à adesão ao tratamento e evolução favorável após abordagem multiprofissional, educação em saúde e acompanhamento longitudinal. Foram observados os princípios éticos previstos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, assegurando-se a confidencialidade das informações e o anonimato do paciente.
Paciente do sexo masculino, adulto, com 60 anos no período relatado, apresentou alteração glicêmica identificada em consulta de enfermagem, por meio de glicemia capilar casual de 240 mg/dL, sem sintomas associados. A confirmação diagnóstica de DM2 ocorreu em julho de 2023, após exames laboratoriais solicitados no cuidado longitudinal, com glicemia de jejum de 295 mg/dL e hemoglobina glicada de 10%. A condução inicial envolveu abordagem multiprofissional, com prescrição de metformina 500 mg duas vezes ao dia, orientações educativas pela equipe que atuou de forma interprofissional. A nutricionista atuou no fortalecimento do autocuidado apoiado, com foco na mudança de hábitos alimentares, ampliando a compreensão do usuário sobre a doença e seu papel no controle metabólico. Em reavaliação realizada a partir de exames de outubro de 2023, avaliados em novembro, observou-se piora do controle glicêmico (glicemia de jejum de 339 mg/dL e hemoglobina glicada de 11,6%), associada à não adesão medicamentosa relatada pelo paciente. Diante disso, a equipe intensificou as ações educativas, promoveu tomada de decisão compartilhada e ajustou o esquema terapêutico para metformina 500 mg três vezes ao dia associada à gliclazida 30 mg duas vezes ao dia. No seguimento, exames de fevereiro de 2024, avaliados em março, evidenciaram melhora significativa do controle glicêmico, com glicemia de jejum de 91,6 mg/dL e hemoglobina glicada de 6,4%, demonstrando desfecho exitoso decorrente do cuidado integr
A experiência relatada evidencia que a adesão terapêutica constitui elemento central para o manejo efetivo do DM2 no cenário apresentado. A identificação precoce de dificuldades relacionadas à adesão, associada a uma abordagem multiprofissional e centrada no usuário, fundamentada na escuta qualificada, na educação em saúde e na tomada de decisão compartilhada, possibilitou a obtenção de controle glicêmico adequado, sem necessidade imediata de insulinoterapia. O acompanhamento longitudinal realizado pela equipe da ESF, aliado ao fortalecimento do vínculo entre usuário e os diferentes profissionais envolvidos no cuidado, mostrou-se determinante para a mudança de comportamento, o engajamento no tratamento e o alcance de desfechos clínicos favoráveis. O relato reforça a ESF como espaço privilegiado para o cuidado integral das condições crônicas, destacando o papel da atuação interprofissional na promoção da autonomia do usuário, na melhoria da qualidade de vida e na sustentabilidade do cuidado ao longo do tempo.
Atendimento centrado no paciente
NAYARA TOMAZI BATISTA, VICTOR FERREIRA RAMOS COLASSO