Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
Atualmente, é relevante o número de propriedades rurais que incorporam atividades turísticas em suas rotinas. Além da possibilidade de geração de uma renda adicional para as comunidades locais, o Turismo Rural pode contribuir para a revitalização econômica e social, a valorização dos patrimônios e produtos locais, a conservação do meio ambiente, e a atração de investimentos (BRASIL, 2010). Porém, o turismo rural pode aproximar a população de riscos ambientais e de zoonoses, como a febre maculosa brasileira (FMB), tal qual ocorreu no surto em junho/2023 em Campinas/SP na na Fazenda Santa Margarida, na qual houve óbitos de quatro pessoas, sendo um paciente morador de Jundiaí/SP. A FMB é uma doença infecciosa, febril, aguda e grave, causada pela Rickettsia rickettsii, e transmitida pela picada do carrapato estrela (Amblyomma sculptum). Animais domésticos e silvestres, tais como cavalos e capivaras, mantêm as populações de carrapatos na natureza, além do papel pontual das capivaras como hospedeiros amplificadores. Casos humanos estão frequentemente associados a áreas verdes com presença de capivaras e carrapatos, sendo que em Jundiaí houve 6 casos confirmados em 2023, com letalidade de 50%. Considerando o conceito da Saúde Única, que envolve a indissolubilidade da saúde animal e humana da ambiental, é importante conhecer as características de risco dos estabelecimentos de turismo rural no município, no qual essa parte é bem forte.
Realizar levantamento dos estabelecimentos que oferecem serviço de turismo rural em Jundiaí/SP e, posteriormente, um diagnóstico situacional dos riscos relativos à febre maculosa brasileira nos mesmos, identificando e monitorando assim seus impactos e as questões ambientais, sanitárias e relativas à saúde do trabalhador cabíveis, atendendo assim às normas técnicas vigentes, e promovendo dados para a tomada de ações futuras.
O levantamento dos estabelecimentos de Turismo Rural foi realizado através do Google (www.google.com.br) e também do site oficial da Prefeitura de Jundiaí (https://turismo.jundiai.sp.gov.br/atrativos/turismorural/). Foi então elaborado um modelo de check list, contendo algumas perguntas e itens relevantes para a avaliação do risco ambiental relativo à febre maculosa, como: Descrição do ambiente; Situação atual com relação aos carrapatos na propriedade; Tem passeio em trilhas/áreas verdes?; Presença de capivaras; Presença de animais de criação; Há passeios com cavalos para visitantes? Há recebimento de grupos? Foi então realizada inspeção in loco em 100% dos estabelecimentos para aplicação do check list, coletando informações com os proprietários e/ou funcionários dos locais. Os responsáveis eram então orientados sobre a FMB (agente etiológico, transmissão, sintomas, diagnóstico, tratamento e formas de prevenção) e recebiam material educativo em forma de folder sobre a doença da Prefeitura de Jundiaí. As informações obtidas foram tabuladas em planilha do Excel recebendo classificação de relevância ecológica baixa, média e alta, considerando a quantidade de itens da planilha cuja resposta tivesse a coluna SIM. Ao final, foi feita avaliação dos dados obtidos para discussão de próximos atos a serem encaminhados pela Prefeitura de Jundiaí/SP no sentido de minimizar o risco da ocorrência de novos casos de FMB no município.
Foram realizadas inspeções em 64 estabelecimentos cujo levantamento apontou que se enquadravam no conceito de turismo rural, sendo que 31 deles (48%) foram classificados como de Alto risco ecológico para a FMB, 22 como Médio (35%) e 11 (17%) como Baixo. Um dos estabelecimentos foi, inclusive, notificado a providenciar placas de alerta para a doença, bem como para o risco de infestação por carrapatos, considerando o alto fluxo de pessoas e eventos realizados, a presença de capivaras, lagos e condições ambientais propícias. Assim, estabelece-se um paradoxo, visto que os locais de turismo rural, como os que foram objeto deste trabalho, muitas vezes são associados a condições de saúde física e mental desejadas, descanso, proximidade com a natureza e paz, sendo que as condições apresentadas foram de risco ecológico para a FMB. Considerando que nesses locais são recebidas populações com conhecimento variável sobre a FMB e seus sintomas, suas características eco epidemiológicas e fatores de risco/prevenção; e que a maior parte (83%) deles apresentou relevância eco epidemiológica alta ou média, fez-se necessário estabelecer outra estratégia de atuação, considerando a responsabilidade de informar ao público o risco que está sendo apresentado.
Assim, foi elaborado um projeto de Lei Municipal que dispõe sobre a obrigatoriedade de responsáveis por locais sujeitos à presença do carrapato-estrela (Amblyomma sculptum), como os que oferecem o turismo rural, informarem os frequentadores sobre o risco de infestação por carrapatos e sobre a febre maculosa brasileira e dá outras providências. Atualmente, este projeto encontra-se em tramitação na Prefeitura de Jundiaí. Além disso, a ferramenta da educação em saúde, como a que foi utilizada neste trabalho, é a chave para uma ação preventiva mais efetiva, colocando o conhecimento como fator impulsionador de estratégias capazes de minimizar o risco, trazendo a responsabilidade também para o sujeito envolvido, especialmente no caso de doenças e agravos complexos que se inserem no conceito de Saúde Única (tríade saúde ambiental-humana-animal). O diagnóstico situacional dos estabelecimentos de turismo rural também permitiu conhecer as condições ambientais e levantar dados para outras estratégias. Estão também sendo estudados a dinâmica populacional de capivaras no município e outras formas de controle populacional, no sentido de minimizar o risco à população.
febre maculosa, turismo rural, Jundiaí
FELIPE ROBERTO VITA DE ARRUDA PEDROSA