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O diamante é um mineral que se destaca dos demais pela sua dureza extrema, a variada utilização pelos humanos e pelas formas inusitadas de ocorrência em ambientes contrastantes entre si, além de ocorrer em todas as cores possíveis do espectro, sendo o vermelho, rosa e azul as cores mais raras e valorizadas (SVIZZERO, 2006). No Sistema Único de Saúde (SUS) os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) são essenciais na Estratégia em Saúde da Família (ESF). O contato mais direto com o território e visitas às famílias constrói um vínculo com a população e torna os ACS sujeitos articuladores dos processos de trabalho na saúde (ALONSO, 2018). Foi pensando nessa pedra preciosa e nos ACS que em junho de 2024 surgiu o projeto “Diamante Azul” da UBS Jardim Niterói, situada na zona sul da cidade de São Paulo. Mais do que uma alusão à cor dos coletes azuis utilizados por estes profissionais, traça um paralelo com a preciosidade e particularidade que ambos têm. Os encontros propostos trazem para os ACS um empoderamento na rotina do trabalho e firma as práticas de Educação Permanente em Saúde (EPS), uma estratégia que tem como objetivo romper com um ensino-aprendizagem há muito tempo tradicional e tecnicista. Além disso, o projeto foi pensado com o desejo de que os processos formativos na UBS aconteçam não somente por categorias profissionais como médicos, enfermeiros e dentistas, mas por formações multiprofissionais, conforme preconiza a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde(PNEPS)
Objetivo geral: Estimular o autoconhecimento, criatividade e autoconfiança dos ACS, fortalecendo as práticas multiprofissionais e interdisciplinares na atenção básica. Objetivos específicos: ●Ampliar o protagonismo dos ACS perante os demais profissionais e usuários; ●Fortalecer os vínculos entre as equipes e setores tendo como elo os ACS; ●Despertar os profissionais ACS para a sua real importância e papel dentro da ESF; ●Ampliar as práticas de educação permanente em saúde dentro do âmbito da AB.
A instituição da PNEPS ocorreu em 2004 com a necessidade de fortalecer as ações educativas, de forma crítica e reflexiva, voltadas à realidade dos serviços de saúde (BRASIL, 2004; 2014; 2017). A ideia inicial deste projeto foi pensada na utilização de Metodologias Ativas (MAs), com base na literatura que traz as MAs como promotora da convivência, interdependência e resolução de problemas de maneira coletiva e interdisciplinar (TORRES; ALCÂNTARA; IRALA, 2004) (CAMURÇA et. al, 2020). Inicialmente foi feito um levantamento dos temas necessários com todos os ACS, através de um preenchimento de um formulário online para identificar as situações que estes profissionais mais tinham dificuldades, sugerir temas de cunho comportamental ou técnico, a periodicidade dos encontros e o resultado que eles desejavam alcançar com as ações. As respostas foram diversas e trouxeram temas como vacinação, comunicação, tecnologia e saúde bucal, dentre outros. Os encontros começaram com rodas de conversa mensais sobre vacinação, saúde bucal, comunicação em saúde e o papel do médico de família e comunidade. Houve uma participação ativa e interação de forma positiva, facilitadas por outros profissionais da UBS. Deve-se lembrar que a EPS não é apenas um método didático-pedagógico de aprendizagem no trabalho, mas envolve uma política voltada para a construção de um conhecimento teórico-prático socialmente engajado com estudantes, docentes, trabalhadores, gestores e comunidade (JACOBOVSKI; FERRO, 2021)
Apesar do projeto ter poucos meses, os encontros podem ser caracterizados, até o momento, como instrumentos que possibilitaram trocas essenciais a serem aplicadas no cotidiano dos ACS, intensificando saberes e fortalecendo a PNEPS, com a estimulação de pensamento crítico-reflexivo dos participantes, fazendo-os olhar para as suas atuações profissionais como agentes ativos nos processos de promoção da saúde nos territórios aos quais estão inseridos. Ademais, já é notória a mudança de cultura e percepção dos participantes ACS e demais profissionais acerca dos temas e processos que abarcam a Atenção Básica. Houve uma melhoria significativa na rotina do trabalho, com destaque para a comunicação interpessoal e aquisição de conhecimentos técnicos relevantes para a prática profissional. As trocas de saberes entre os profissionais ACS e demais profissionais estão aumentando, com as práticas interprofissionais e interdisciplinares emergindo cada vez mais. Em todos os encontros ocorreram discussões permeadas de leveza e desconstrução, revelando as variadas faces do cuidado em saúde e a potencialidade das experiências vividas e compartilhadas em um coletivo de aprendizagem. Além das trocas, este espaço proporciona também a oportunidade para debater questões de cunho trabalhista e social, com abertura para dúvidas, críticas e sugestões, num modelo dialógico de cogestão e contribuição para a construção de uma consciência crítica e sociopolítica dos profissionais.
O projeto traça um futuro de consolidação das práticas educativas dentro do âmbito das UBS, com uma formação crítica e que exalte a importância dos ACS como pilares primordiais para promover saúde e reforçar o elo das práticas multiprofissionais e interdisciplinares. Neste contexto, entende-se que a partir destes momentos proporcionados durante cada encontro abre-se espaço para uma nova forma de percepção do mundo, do cotidiano, das pessoas e da vida. É perceptível o despertar num desejo de vivenciar novas alternativas de conhecimento que levem os profissionais a expressões críticas-reflexivas frente à sua comunidade, território e usuários. A importância da PNEPS para a formação de recursos humanos para o SUS se insere como estratégias de aprendizagens inovadoras e criativas que sejam aplicáveis, replicáveis e transformadoras na prática e realidade dos profissionais. O projeto continua a todo vapor com um cronograma anual repleto de temas importantes e agregadores para fomentar uma atenção básica cada vez melhor e, embora seja uma atividade complexa, a lapidação dos saberes em saúde, tal qual um diamante, segue uma sequência de etapas bem determinadas e exigem paciência e dedicação, numa operação quase artesanal e minuciosa.
Educação permanente; Agentes Comunitários de Saúde
CLÉVERTON DA SILVA SANTOS, KATIA DA COSTA SILVA BRITO, REGIANE CARLA LIBERALINO DE DEUS