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Dificuldade Alimentar (DA) caracteriza-se como qualquer problema que afete negativamente o processo de suprir alimento ou nutrição da criança de forma eficaz e satisfatória. DA engloba a Seletividade Alimentar (SA) e o Distúrbio Alimentar Pediátrico (DAP). SA, caracteriza pela preferência alimentar, apetite limitado, fase transitória do desenvolvimento, sem repercussão social, emocional e à saúde. DAP é uma condição que afeta o padrão de alimentação, têm duração de 2 ou mais semanas, impacta a qualidade de vida, gera sofrimento durante a refeição,requer avaliação e tratamento. Ele afeta não somente a criança, mas a dinâmica familiar, aspectos sociais e psicológicos, comportamentos alimentares, restringindo ou evitando ambientes que envolvem exposição aos alimentos. Ressalta-se que estas criança não se alimenta porque não quer, mas por não conseguir, gerando sofrimento psíquico na hora da refeição. Mais do que o ato motor de comer, a alimentação envolve a nutrição, prazer e social. A hora de comer inicia na escolha dos alimentos, etapas do preparo, arrumação da mesa e a hora da refeição. Estima-se que atinja de 20-30% da população típica e 70- 80% na população com Transtorno do Espectro Autista. Dada a necessidade de intervenção nas crianças com DAP foi proposto grupo terapêutico, com fonoaudióloga e Terapeuta Ocupacional, utilizando a terapia alimentar responsiva como intervenção, que consiste em dar autonomia à criança,o respeito dos pais aos sinais de fome e saciedade
Relatar a experiência clínica do trabalho terapêutico realizado com grupos de crianças com DAP com diagnóstico Transtorno do Espectro Autista (TEA) a partir da Terapia alimentar responsiva (TAR).
Esse trabalho é um relato de experiência, que ocorreu durante 2023, realizado por fonoaudióloga e TO, no CER de Rio Claro, com 2 grupos de crianças com TEA e queixas de DAP. Os grupos foram formados com crianças com idade de 3 -6 anos e queixas de alimentação. Na anamnese foi utilizado a Escala Brasileira de Alimentação Infantil EBAI. Cada grupo continha 4 crianças e a freqüência era de 1x na semana, duração 1hora. Os atendimentos foram realizados com as crianças e com as famílias: orientações ao final de cada encontro e a participação efetiva ao atendimento nas sessões que envolviam contato direto com os alimentos, para garantir a compreensão da proposta terapêutica e a continuidade das experiências no ambiente familiar. As intervenções tiveram o intuito de ampliar experiências corporais com atividades motoras e sensoriais variadas e vivências com os alimentos de maneira responsiva, isto é, que envolvem prazer, conforto, segurança, novas descobertas e principalmente respeito aos desejos da criança, de forma a ressignificar a relação com os alimentos. Estratégias envolvendo texturas, formas, cores e cheiros. Posteriormente, atividades específicas com os alimentos para que as crianças pudessem dessensibilizar e aproximar-se dos alimentos, preparo e degustação de alguns pratos.
Durante os atendimentos, percebemos que as crianças tiveram maior interesse em manipular texturas de forma lúdica e experenciar novas situações, sem a obrigatoriedade de experimentar ou comer alimentos, visto que o respeito é a base fundamental para a TR. A partir dessa perspectiva, foi possível observar que as crianças foram encorajadas, tiveram seus sentimentos validados e sentiram-se confortáveis para experimentar novos alimentos por seus próprios desejos. Além disso, o atendimento em grupo foi de fundamental importância para o incentivo e participação das crianças nas atividades, proporcionando troca de experiências e interação com seus pares, observar e imitar o modelo, resultando na redução da insegurança e medo frente às situações desafiadoras ou aversivas. Outro aspecto observado, talvez o mais importante, foi a mudança de comportamentos das famílias frente às dificuldades alimentares das crianças através de ações efetivas como: compreensão e respeito às dificuldades, deixar de adotar uma postura impositiva, autoritária e controladora na hora da refeição, proporcionar alimento de segurança, construir uma relação de respeito à criança, oferecer suporte e autonomia, validar seus sentimentos e desejos diante da alimentação, compreender que comer vai muito além da ingestão de nutrientes e levar o alimento na boca, mas sobretudo, ressignificar a relação com o alimento.
O DAP é uma demanda importante no paciente com TEA que traz muito sofrimento às famílias e que o manejo inadequado dessa situação pode ser gradativamente prejudicial para um repertório alimentar já restrito. É importante o olhar atento dos profissionais da saúde para os fatores orofaciais, sensoriais e comportamentais, que podem impactar no DAP. A intervenção interdisciplinar com fonoaudióloga e TO na perspectiva da TAR tem importante contribuição para a melhora do comportamento alimentar de crianças com TEA. E por fim, nossa experiência clínica possibilitou observar que a participação da família durante o atendimento trouxe mudanças na forma de observar, agir, compreender às situações e enxergar às dificuldades da criança, capacitando-as e envolvendo-as com dinamismo no processo da alimentação respeitosa, criando oportunidades de explorar novas situações no ambiente familiar.
distúrbio alimentar pediátrico, EBAI
Giovana Cestaro