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A febre amarela é uma arbovirose de importância epidemiológica global, que apresenta ciclos silvestre e urbano, transmitida principalmente pelos mosquitos Haemagogus, Sabethes e, em áreas urbanas, pelo Aedes aegypti. O Brasil vivenciou, entre 2016 e 2019, surtos expressivos da doença, com muitos casos humanos confirmados e óbitos, além de ampla circulação em primatas não humanos (PNH). A letalidade da febre amarela no país é elevada, variando entre 20% e 50% nos casos graves em muitos municípios essa taxa chega a 100%, o que reforça a gravidade da doença e a necessidade de estratégias preventivas robustas. Embora o ciclo urbano não ocorra no Brasil desde 1942, a ampla infestação do Aedes aegypti mantém o risco de reurbanização da doença, principalmente em centros densamente povoados. O município de Guarulhos, com população estimada em 1,4 milhão de habitantes (IBGE, 2025), está localizado na Região Metropolitana de São Paulo e margeado pelo corredor ecológico da Serra da Cantareira, área que já havia registrado circulação viral em 2017. Esse fator geográfico aumenta a vulnerabilidade do território, devido ao contato com áreas de mata e fluxo migratório de primatas infectados. Em fevereiro de 2025, a confirmação de um PNH positivo para febre amarela no município reacendeu o alerta epidemiológico. A magnitude populacional, associada à densidade urbana e ao risco de reintrodução da transmissão, justificou a adoção imediata de medidas emergenciais.
O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência exitosa do município de Guarulhos no enfrentamento da febre amarela em 2025, após a confirmação de um primata não humano positivo, destacando as estratégias de intensificação vacinal, a mobilização territorial e o impacto obtido na prevenção da transmissão urbana. Busca-se: •Descrever o contexto epidemiológico que justificou a intensificação das ações de imunização no município; •Apresentar as medidas adotadas, como busca ativa, visitas domiciliares e vacinação in loco; •Analisar os resultados obtidos, com ênfase no aumento da cobertura vacinal e na redução da vulnerabilidade populacional; •Evidenciar a integração intersetorial entre vigilância epidemiológica, atenção básica e logística de imunização como fator determinante para o sucesso da resposta; •Contribuir com subsídios técnicos que possam orientar outros municípios em situações semelhantes de risco epidemiológico.
O presente relato foi elaborado com base em dados do Condensado Geral – 2025, que reúne informações de visitas domiciliares, cadernetas vacinais avaliadas, identificação de não vacinados e doses aplicadas nas diferentes regiões de Guarulhos. A metodologia adotada compreendeu: 1.Análise documental das planilhas oficiais do Programa Municipal de Imunização (PMI). 2.Busca ativa realizada pelas equipes da atenção básica, com visitas domiciliares, identificação de suscetíveis e aplicação de vacinas in loco. 3.Avaliação vacinal de grupos prioritários, com destaque para idosos acima de 60 anos não vacinados. 4.Intensificação vacinal em áreas de maior risco, próximas ao local de ocorrência do PNH positivo. 5.Monitoramento contínuo via sistemas eSUS-ab, SIPNI, SIES, SISS e relatórios da vigilância epidemiológica. O perfil sociodemográfico de Guarulhos foi considerado para dimensionar o impacto da ação: município com mais de 1,4 milhão de habitantes, alta densidade demográfica, rede de mais de 69 UBS e histórico de vulnerabilidade à febre amarela por estar margeado ao corredor ecológico da Serra da Cantareira.
A intensificação resultou em impacto significativo: •Mais de 89.845 casas visitadas em áreas estratégicas. •298.746 cadernetas vacinais avaliadas, com identificação de bolsões de suscetíveis. •27.854 doses aplicadas em curto espaço de tempo, ampliando a cobertura. •Avaliação de idosos e gestantes não vacinados, grupo de maior vulnerabilidade em áreas de mata. •Percentuais expressivos de adesão, evidenciados nos registros por UBS. Além do alcance numérico, a ação demonstrou eficiência na resposta rápida ao risco epidemiológico. O alerta precoce da circulação viral em PNH foi determinante para deflagrar medidas imediatas. A mobilização comunitária, aliada ao trabalho integrado de equipes de campo e vigilância central, fortaleceu a proteção populacional. Esse esforço coordenado foi essencial para impedir a entrada e circulação do vírus em humanos, preservando a saúde coletiva e garantindo continuidade da rotina vacinal, mesmo diante de um cenário crítico.
A experiência de Guarulhos em 2025 confirma a relevância da vacinação como principal estratégia de enfrentamento da febre amarela. A confirmação de PNH positivo representou risco iminente, mas a resposta imediata baseada em busca ativa, intensificação vacinal e monitoramento rigoroso garantiu a proteção da população. O caso demonstra que municípios densamente povoados e localizados em áreas de risco ambiental devem manter vigilância constante e planos de contingência bem estruturados. A integração entre vigilância epidemiológica, atenção básica e logística de imunização mostrou-se essencial para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a rede de proteção coletiva. Assim, Guarulhos reafirma-se como exemplo exitoso de resposta local frente a uma ameaça de reintrodução da febre amarela urbana, contribuindo para a consolidação de boas práticas em saúde pública.
Febre amarela; Vacinação; Guarulhos; Vigilância.
PATRÍCIA ROSA DA SILVA