Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A intensificação das queimadas rurais e dos períodos de estiagem, agravados pelas mudanças climáticas, têm ampliado a exposição de trabalhadores e população à fumaça e poluentes atmosféricos, configurando relevante problema de saúde pública e de saúde do trabalhador. Em agosto de 2025, foi divulgado na mídia local o registro de um óbito ocorrido durante o combate a incêndio no distrito rural de Amadeu Amaral, fato que demandou apuração quanto à possível relação com o trabalho. O Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) Regional Marília realizou investigação imediata no território. Esclareceu-se que a vítima atuava como voluntário no combate ao incêndio, sem vínculo empregatício formal, afastando a classificação como acidente de trabalho típico. Entretanto, durante a atuação, foi identificado um trabalhador rural (caseiro de propriedade agrícola) atendido pela Estratégia Saúde da Família (ESF) Amadeu Amaral com quadro de intoxicação por fumaça, configurando agravo relacionado ao trabalho. Amadeu Amaral apresenta perfil produtivo agropecuário, histórico recorrente de focos de incêndio, trabalho predominantemente a céu aberto e proximidade com rodovias de grande circulação, o que amplia a exposição. A experiência evidenciou fragilidades na capacidade municipal de resposta a emergências ambientais e reforçou o papel estratégico da Vigilância em Saúde do Trabalhador como indutora da organização da rede e da qualificação da gestão do SUS frente às mudanças climáticas.
Relatar a atuação do CEREST Regional Marília frente a um evento crítico relacionado a queimadas, destacando a investigação de agravos à saúde do trabalhador e as ações desencadeadas para fortalecer a vigilância em saúde do trabalhador e ambiental. Descrever o processo de identificação de fragilidades institucionais, a articulação intersetorial com diferentes setores da gestão municipal e a indução de estratégias estruturantes, incluindo a criação de instância municipal permanente para enfrentamento da estiagem e das queimadas e a implantação do Projeto VIGIAR, com definição de Unidade Sentinela em território rural vulnerável.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido pelo CEREST Regional Marília a partir da investigação in loco de óbito noticiado como possivelmente relacionado ao trabalho no combate a incêndio rural, realizado em outubro de 2025 no distrito de Amadeu Amaral. Foram realizadas visitas técnicas ao território, entrevistas com moradores, trabalhadores e gestores locais, além da análise do contexto produtivo, ambiental e assistencial. O CEREST articulou-se com a Defesa Civil Municipal e com o Corpo de Bombeiros, identificando fragilidades estruturais relevantes, como ausência de funcionamento contínuo da Defesa Civil, inexistência de brigada municipal, ausência de Plano Municipal de Contingência atualizado e inexistência de Plano de Auxílio Mútuo (PAM). Com base nesse diagnóstico, o CEREST induziu articulação com a gestão da Secretaria Municipal da Saúde para a proposição de uma Comissão Municipal de Combate à Estiagem e às Queimadas, envolvendo diferentes setores. Paralelamente, foram analisados dados históricos de focos de incêndio, perfil territorial e exposição ocupacional, subsidiando a indicação da ESF Amadeu Amaral como Unidade Sentinela do Projeto VIGIAR.
A investigação qualificou a vigilância ao esclarecer a natureza do óbito noticiado, evitando classificação inadequada como acidente de trabalho, e ao identificar agravo ocupacional concreto em trabalhador rural intoxicado por fumaça. O processo ampliou a visibilidade dos riscos ocupacionais associados às queimadas no território. Como resultado, o CEREST atuou como indutor de reorganização da gestão municipal, promovendo articulação intersetorial e sensibilização dos gestores para a necessidade de resposta estruturada às emergências ambientais. Destaca-se a mobilização para criação de Comissão Municipal de Combate à Estiagem e às Queimadas, com potencial de institucionalização permanente. O município de Marília foi incluído no Projeto VIGIAR e, a partir da análise de dois anos consecutivos de focos de incêndio, perfil rural produtivo e proximidade com rodovias, foi definido a ESF Amadeu Amaral como Unidade Sentinela, fortalecendo a detecção precoce, a notificação de agravos respiratórios e o monitoramento de populações expostas à poluição atmosférica.
A experiência demonstra que eventos críticos podem ser utilizados como dispositivos estratégicos para qualificar a gestão do SUS. A atuação do CEREST extrapolou a investigação de um caso isolado, induzindo mudanças estruturantes na vigilância, na articulação intersetorial e na organização da resposta municipal às queimadas. A implantação do Projeto VIGIAR e a definição de Unidade Sentinela em território rural ampliam a capacidade do município de monitorar riscos, proteger trabalhadores e responder de forma oportuna aos impactos das mudanças climáticas. Trata-se de experiência com alto potencial de replicabilidade em municípios com perfil rural semelhante, reforçando o papel do CEREST como ator estratégico na consolidação da Vigilância em Saúde do Trabalhador e Ambiental no SUS.
Saúde do Trabalhador, Mudanças Climáticas, CEREST
CAMILA COSTA RIBEIRO SIMIONATO, ROSANE ANDRESSA ROSSINI MARCHIORI