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Gênero é tudo o que foi definido socialmente e que entende-se como papel ou comportamento esperado de alguém com base no seu sexo biológico. Todavia, o comportamento não é necessariamente inerente ao sexo biológico, e sim algo construído socialmente. A identidade de gênero é autodeterminada; decorre das referências de uma pessoa, independentemente do gênero designado ao nascimento. Transgeneridade, transexualidade, transgênero ou abreviação trans remetem à pessoa que não se identifica com o gênero designado ao nascer (mulher transgênero/homem transgênero). Enquanto não binário diz respeito à pessoa que não se reconhece nem como homem e nem como mulher. A afirmação de gênero diz respeito ao processo no qual as pessoas transgênero realizam intervenções em seus corpos para que se aproximem de como se sentem, para a consolidação da sua identidade de gênero. Este processo pode abranger a terapia hormonal e os procedimentos cirúrgicos. A população trans é um grupo marginalizado. Está sujeito à transfobia; à violência nas suas diversas formas e nos diferentes espaços; e à violação de direitos. As pessoas trans podem se apresentar vulneráveis física, mental e socialmente. Segundo Hanauer e Hemmi (2019), a transexualidade é uma condição não vista por profissionais de saúde e gestores da Rede de Atenção à Saúde, como também por parte de pessoas do convívio social. Faz-se necessário dar visibilidade à trajetória de pessoas trans.
Descrever as características gerais da população trans atendida por um ambulatório especializado. Descrever as percepções do processo até reconhecer-se como uma pessoa trans na perspectiva da população trans atendida por esse ambulatório.
Trata-se de um relato de experiência de caráter qualitativo que descreve as percepções do processo até reconhecer-se como uma pessoa trans na perspectiva da população trans. O presente estudo se desenvolveu em um ambulatório especializado no atendimento a pessoas trans, localizado dentro de uma Unidade Básica de Saúde, de um município do estado de São Paulo. Conta com uma equipe multiprofissional composta por médicos (clínico, endocrinologista), psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social, enfermeiro e farmacêutico. As pessoas transexuais podem acessar o ambulatório através de encaminhamento da rede de saúde ou por busca espontânea. As ações ocorrem comumente na seguinte ordem: avaliação inicial (com dois profissionais); avaliação multiprofissional (com pelo menos três áreas profissionais) e avaliação de Enfermagem; grupo de chegada (voltado para a expressão de expectativas, preocupações e dúvidas acerca da terapia hormonal; onde o farmacêutico apresenta informações sobre as medicações disponibilizadas pelo SUS, as mudanças possíveis e as reações que podem ocorrer); consulta e retorno com clínico; consulta com endocrinologista; grupo de manutenção (formado por sujeitos que passaram pelas consultas médicas e podem ter iniciado o uso de hormônio; voltado para troca de percepções sobre o processo de transição); e atendimentos individuais (por exemplo, com psicólogo). O levantamento de dados se deu entre 03 de junho de 2024 e 11 de fevereiro de 2025, com 29 pessoas trans.
CARACTERÍSTICAS GERAIS – Identidade de gênero: 15 sujeitos se identificaram como mulheres trans; 13 como homens trans; 1 como não binário. – Idade: 2 sujeitos tinham entre 18 e 19 anos; 21 entre 20 e 29 anos; 1 entre 30 e 39 anos; 4 entre 40 e 49 anos; 1 entre 50 e 59 anos. – Nome: 17 sujeitos já retificaram o nome; 11 utilizam o nome social; 1 utiliza o nome de registro (já pensou em um nome social para si, mas prefere não falar ainda, pois não revelou sua identidade de gênero para a família; sente receio de sofrer rejeição; antes de assumir-se, gostaria de terminar a faculdade e garantir um emprego). PERCEPÇÃO DA INCONGRUÊNCIA DE GÊNERO – Momento da vida em que percebeu-se a incongruência de gênero: 19 sujeitos referiram que na infância; 3 que a percepção veio mais forte na adolescência; 7 que a perceção veio mais forte na vida adulta (18-26 anos). – Eventos que auxiliaram em um maior entendimento de si: 9 sujeitos referiram que buscaram informações; 3 que tiveram contato com uma pessoa trans e a vivência teve vários significados (reconheceram-se no outro, conseguiram informações); 3 que tiveram acompanhamento com profissional de saúde e este os auxiliou (a olhar para si, obter informações sobre orientação sexual e identidade de gênero, entender-se melhor). – Fase de confusão entre orientação sexual e identidade de gênero: 10 sujeitos referiram que inicialmente acreditaram ser um homem gay, uma mulher lésbica, bissexual ou drag, e posteriormente sentiram que era algo mais.
O processo até reconhecer-se como pessoa trans é singular para cada pessoa. Inicia-se com o sentimento de estranhamento do próprio corpo e dos comportamentos impostos a homens e mulheres. Esse estranhamento pode surgir na infância. O processo pode ser carregado de sofrimento, solitário e levar certo tempo. A cisnormatividade (que preconiza a binaridade homem/mulher) e a heteronormatividade (que preconiza a heterossexualidade) podem levar os indivíduos a se sentirem deslocados; deparar-se com ambientes coercitivos; ter dificuldade de encontrar um lugar para falar de si / fazer perguntas; apresentar sentimentos como insegurança e medo; postergar pensar sobre si e revelar sua identidade de gênero. O processo de construção da identidade é fortalecido pela linguagem. A busca de informações e as trocas, possibilitam encontrar um nome para a vivência (“Sou trans”) e perceber que a própria existência é legítima. Alguns indivíduos vivenciaram uma fase em que definiam-se como um homem gay ou uma mulher lésbica. Isso pode ocorrer porque as pessoas comumente já ouviram falar sobre homossexualidade, porém podem não saber nada sobre transexualidade. Considera-se que este estudo foi relevante para dar visibilidade à trajetória de pessoas trans.
População trans; Identidade; Psicologia
ADRIANA BRUNA PINHEIRO DA SILVA, SOLANGE RODRIGUES ROSSONE, MARIA SILVIA DE ALMEIDA MELLO FREIRE