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Com a publicação da Portaria nº 3.088/2011, consolidou-se a possibilidade de organização dos serviços de saúde mental em redes regionalizadas e integradas, estruturando a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A normativa estabeleceu como critério para implantação de CAPS I população mínima de 15 mil habitantes, permitindo que municípios de pequeno porte se organizem de forma regional para acesso ao serviço. Nesse contexto, o município de Nova Independência (4.609 habitantes), em parceria com Andradina, Castilho, Itapura e Murutinga do Sul, implantou em 2013 o CAPS AD Regional. Contudo, desde sua implementação, evidenciaram-se desafios comuns aos CAPS regionais: dificuldades de acesso geográfico, distanciamento territorial, baixa adesão ao tratamento, fragilização do vínculo e comprometimento da qualidade da assistência. Embora a regionalização busque otimizar recursos, observou-se superlotação do serviço e afastamento dos usuários de seu território de origem. Diante desse cenário, em junho de 2025 foi iniciado o Projeto “ Do lado de Lá – Acolher, escutar e cuidar! ”, com o propósito de desenvolver ações integradas e permanentes junto à APS dos municípios de origem, promovendo qualificação profissional, ampliação do acesso, fortalecimento de vínculos e melhoria da assistência.
Ampliar e qualificar o cuidado às pessoas com uso prejudicial de álcool e outras drogas, por meio do desenvolvimento de estratégias integradas entre CAPS e Atenção Primária à Saúde, fortalecendo a articulação da rede, a corresponsabilização do cuidado e a qualificação profissional.
O projeto piloto foi desenvolvido em Nova Independência, envolvendo duas equipes da Estratégia de Saúde da Família, equipe de saúde bucal, equipe multiprofissional da Atenção Primária (eMulti) e assistência farmacêutica. A execução ocorreu ao longo de sete meses, organizada em seis etapas. Na Etapa I realizou-se Diagnóstico Situacional, por meio de reunião com profissionais da assistência e gestão, com aplicação de instrumento para mapeamento de dados, competências e dificuldades. Na Etapa II ocorreu a elaboração da proposta do projeto. A Etapa III contemplou apresentação da versão final e capacitação das equipes da APS, com foco na identificação, estratificação e acolhimento dos usuários do território. Na Etapa IV iniciaram-se as ações assistenciais: matriciamento, consultas compartilhadas, atendimentos individuais, grupos terapêuticos e acolhimentos no território. A Etapa V correspondeu ao monitoramento contínuo, permitindo ajustes conforme demandas identificadas. Por fim, na Etapa VI realizou-se avaliação quantitativa e qualitativa dos resultados, análise dos desafios, aprendizados e impactos do projeto.
O projeto produziu impactos significativos na assistência aos usuários, na qualificação das equipes e na gestão. Observou-se melhora expressiva na adesão ao tratamento, possibilitando a execução de ações previstas no Projeto Terapêutico Singular (PTS) no município de origem, como atendimentos individuais e grupos terapêuticos. Houve maior participação familiar nos grupos de apoio e fortalecimento do vínculo entre usuários, APS e CAPS, favorecendo a corresponsabilização do cuidado. No âmbito da qualificação profissional, as ações de educação permanente ampliaram a segurança técnica das equipes da APS, abordando temas como identificação, estratificação, acolhimento, avaliação, diagnóstico, tratamento e apoio às famílias. Os profissionais participaram ativamente das atividades de matriciamentos, consultas compartilhadas, oficinas, grupos e visitas domiciliares, consolidando a integração entre CAPS e ESF. Ainda, foi possível construir coletivamente a proposta de cuidado às pessoas usuárias de álcool e outras drogas, através da construção da Linha de Cuidado Integral à Saúde Mental do município de Nova Independência. Tal iniciativa, contribuiu de maneira importante na definição de responsabilidades e atribuições de cada ponto de atenção, minimizando a busca insanável por acolhimento por parte dos usuários e o efeito “ping-pong”. Na gestão, destacaram-se aumento da satisfação dos usuários e familiares, redução de custos com transporte e fortalecimento da capacidade resolutiva APS.
“Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão”. Imbuídos desses sentimentos, aceitamos o desafio de trabalhar no SUS e cuidar de pessoas. Há de se considerar que descontruir velhos conceitos e paradigmas, ampliar, implantar, integrar, qualificar e avaliar a efetividade das ações, não é tarefa fácil. Todavia, a experiência em questão nos ensinou que a resolução dos problemas inerentes as fragilidades estritamente de origem administrativas e política, em algumas situações, não demandam grandes aplicações de recursos financeiros e procedimentos com equipamentos sofisticados, mas sim um novo olhar para o usuário, carregado de compreensão. Por fim, embora a regionalização prevista na Portaria nº 3.088/2011 represente avanço na organização da RAPS, sua efetividade depende do fortalecimento do cuidado no território e da integração entre os pontos de atenção, especialmente em municípios de pequeno porte como Nova Independência. Conclui-se que a continuidade e expansão da proposta constituem desafios e, ao mesmo tempo, caminhos promissores para uma atenção mais humanizada, comunitária e resolutiva às pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas.
Saúde mental, rede e atenção básica.
TIAGO APARECIDO DA SILVA, LIAMAR APARECIDA MASSELANI, DAGMAR CRISTINA RODRIGUES, ROSIMEIRE FRANCE VITAL, FERNANDA TUROLA LOURO CÂNDIDO, ANA PAULA R. TENCARTE, ANDRÉ LUIZ PIRATELLI RODRIGUES, MARTA APARECIDA DA SILVA ROQUE, ELISANGELA DO NASCIMENTO RODRIGUES, LUCINÉIA FERREIRA PREVELATI DE OLIVEIRA, MARIANA TEIXEIRA DIONISIO, JÉSSICA DE ALENCAR MEZA MARTELO