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O envelhecimento masculino apresenta especificidades relacionadas às normas de gênero, que influenciam a forma como homens idosos percebem o cuidado em saúde, a socialização e a busca por serviços, configurando um contexto de maior vulnerabilidade à solidão, ao adoecimento e à invisibilidade nos serviços. Homens idosos frequentemente relatam trajetórias marcadas por socialização limitada, poucas amizades íntimas e dificuldades em expressar sentimentos, o que dificulta a participação em grupos sociais mistos ou centrados em atividades percebidas como “não masculinas”. O município de São Caetano do Sul tem 165.655 habitantes, e 24% de sua população possui 60 anos ou mais, acima da média nacional, bem como da expectativa de vida, que é de 78,2 anos. A UniMAIS – Universidade Aberta da Terceira Idade é uma política pública gerontológica, criada e financiada pela Secretaria Municipal de Saúde em 2007 e que oferece gratuitamente, para pessoas com 60 anos ou mais, disciplinas pautadas nos pilares do envelhecimento ativo da Organização Mundial de Saúde.Dentre as mais de 2500 pessoas idosas contempladas pelo programa, sempre houve predomínio feminino, embora nos últimos três anos, observou-se discreto crescimento da participação masculina, tornando-se fundamental incentivar a permanência destes idosos. Assim, criou-se o grupo UniMais Homens, visando oportunizar um espaço acolhedor, seguro e humanizado para escuta, fortalecimento de vínculos e estímulo ao protagonismo do homem idoso
Este artigo visa relatar a experiência exitosa do grupo UniMais Homens. A Universidade Aberta da Terceira Idade possui cerca de 400 alunos, com predomínio de mulheres. O curso tem duração de dois anos e promove a inclusão social e digital, a prevenção de doenças e agravos, contribui para o desenvolvimento de linguagens, estimulação motora e cognitiva. Ainda, a socialização, a convivência e a ampliação e fortalecimento da rede de apoio são benefícios inquestionáveis, que podem aumentar o número de anos vividos com qualidade. Dentre os objetivos do grupo Homens está aumentar a permanência de homens na UniMais, incentivar que novos idosos ingressem no grupo e na UniMais. Outros objetivos são ressignificar as diferentes velhices masculinas, estimular o cuidado biopsicossocial, mostrando ao idoso que ele pode se cuidar, expressar seus sentimentos, se relacionar, desabafar, fazer amizades, aprender coisas novas, encontrar sentido de viver e de envelhecer e se empoderar como idoso e cidadão.
Trata-se de relato de experiência com descrição das atividades e resultados do grupo UniMais Homens, visando unir mais homens. Fundamentado nos pilares do envelhecimento ativo, no empoderamento e no cuidado centrado na pessoa idosa, atribui ao protagonismo do idoso a produção de saúde e bem-estar. Foram convidados alguns alunos idosos e um docente para compor o núcleo central do grupo, exclusivo para homens, com o apoio da coordenação da UniMais. Realizou-se reuniões para sensibilizar o núcleo sobre a intencionalidade do grupo e a premissa da condução compartilhada das atividades, sendo o docente apenas um facilitador. Foi realizado um convite para todos os alunos homens, incentivando a participação inclusive de ex-alunos, ampliando o alcance do público-alvo. As atividades do grupo ocorrem semanalmente, durante uma hora, no mesmo local em que ocorre a UniMais. Novos integrantes podem entrar a qualquer momento, visando facilitar a acolhida e valorizar a iniciativa de participação. São utilizadas estratégias ativas, que priorizam as expectativas e demandas dos participantes, bem como a ludicidade e temas disparadores que pertencem ao universo masculino. As reuniões visavam fomentar reflexões sobre perdas, solidão, medos, procrastinação, o silêncio que adoece, preocupações, orgulho e sonhos. Outra função do grupo foi incentivar a realização de encontros e atividades para além das reuniões, tais como inclusão em projetos de compostagem, voluntariado, além de atividades de lazer
Nos primeiros seis meses do grupo, houve participação de 42 homens, com idades variando entre 55 e 89 anos. A abordagem acolhedora foi essencial para tornar o ambiente seguro e íntimo aos participantes, que puderam se apresentar, identificar semelhanças e conhecer histórias de vida. Os homens se adaptaram ao grupo, que assumiu papel terapêutico, bem como aprenderam a escutar e a abrirem-se, em narrativas, dores e sentimentos que por muito tempo foram aprisionados. Um dos temas emergentes foi a violência contra a mulher. Os idosos decidiram exibir um vídeo na Mostra Cultural da UniMAIS sobre masculinidade tóxica, que sensibilizou a comunidade acadêmica, trazendo a responsabilidade da resolução do problema para os homens, abrindo novas oportunidades para o grupo. Os homens procuraram autoridades de enfrentamento à violência contra a mulher para propor parcerias e um programa de prevenção para a educação básica. Foram gravados dois videocasters sobre o tema, sempre com o protagonismo dos idosos em toda produção. Os próprios membros elaboraram o planejamento, após pesquisa dos interesses individuais. Foram elencadas temáticas de cultura e espiritualidade, contempladas por reflexões através de trechos de filmes, audição guiada de músicas, roda de leitura, cenas teatrais, conceitos de religião e espiritualidade; saúde e bem-estar, com ações de prevenção e práticas de cuidado; e estímulo ao esporte e lazer, como caminhadas terapêuticas, que envolvem atividade física e “papoterapia”.
Apesar da evidência sobre os benefícios da participação social para o envelhecimento saudável, a maior parte dos serviços de atenção à pessoa idosa é organizada de forma pouco sensível às especificidades de gênero, e ainda são poucos os programas e espaços comunitários específicos para homens idosos. Os encontros e desencontros da condução dos assuntos entre os participantes e facilitadores foram parte do processo de construção do grupo, mas houve êxito nesta etapa. O grupo tornou-se uma irmandade, favorecendo a sensação de pertencimento e auxiliando os participantes a encontrarem e consolidarem uma nova identidade do homem idoso, que pode ser livre de papéis históricos atribuídos pela sociedade, perdidos após a aposentadoria e à alteração dos arranjos familiares. O grupo mostrou-se como poderosa ferramenta de promoção de saúde, autocuidado, melhora da autoestima e valorização da pessoa idosa, mostrando aos homens possibilidades de expressar sentimentos, experimentar novos projetos, encontrar propósito de vida e envelhecer livrando-se de estereótipos sociais, tanto da velhice, quanto da masculinidade. O modelo pode ser ampliado e replicado nos serviços de saúde, e os próprios idosos podem se tornar agentes multiplicadores do grup
Saúde do homem idoso, Envelhecimento ativo
LUCILA LORENZINI, ADRIANA BERRINGER STEPHAN, ROSAMARIA RODRIGUES GARCIA, FERNANDO FERRARI, VALDIR SPERANDIO JUNIOR, JOSE CARLOS DI PAOLO, HÉLIO CARLOS LOPES