Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
Em 2023, segundo dados do portal da transparência do Governo Federal, 43,7% dos gastos específicos com Saúde, foram destinados ao Setor Hospitalar. Destes, estima-se que, até 25% sejam empregados em materiais e medicamentos. No Brasil, entre 2010 e 2019, os gastos públicos com medicamentos corresponderam a 14,6% do orçamento do Ministério da Saúde. Nesse contexto, a Farmácia Hospitalar é responsável pelo estabelecimento de um sistema racional de distribuição, assegurando que o medicamento prescrito chegue ao paciente na dose correta, considerando ser este processo propenso a muitas falhas, devido ao número de etapas e pessoas envolvidas, desde a prescrição, até a administração. Percebe-se, assim, o papel fundamental da Farmácia Hospitalar na gestão de recursos e qualidade, uso racional de medicamentos e segurança do paciente, em consonância com a legislação, recomendações e protocolos vigentes. Para tanto, a dose individualizada, na qual os medicamentos são fornecidos em doses em nome do paciente, possibilita integração do farmacêutico com a equipe multiprofissional, controle mais efetivo sobre os medicamentos e redução: do tempo empregado pela enfermagem em atividades relacionadas a medicamentos; de erros de medicação; de subestoques. Contudo, comparado ao sistema de doses coletivas, requer adequações de recursos humanos, estruturais e logísticas da farmácia hospitalar. Por essa razão é adotado em 34,8% das unidades hospitalares, enquanto o de doses coletivas em 51,2%.
Objetivos primários: Implantação do sistema de dose individualizada no Hospital de Pequeno Porte Central de Santos, com otimização do consumo de medicamentos e melhoria nas práticas hospitalares. Objetivo secundário: Aumento da segurança na assistência prestada aos pacientes internados; Redução nos custos hospitalares.
O processo de dispensação por dose individualizada, na farmácia Hospitalar do Hospital de Pequeno Porte Central de Santos, iniciou-se no período em que a unidade atendeu pacientes diagnosticados com Covid-19, a fim de racionalizar recursos, reduzir risco de contaminação cruzada e aumentar a segurança do processo. Contudo, os medicamentos de uso oral não eram fracionados, sendo possível solicitação coletiva para atendimento de admissões, gerando subestoques nos setores, exceto medicamentos controlados pela portaria 344/98. No final de 2022, após incremento de farmacêuticos, para cobertura dos plantões diurnos, noturnos e vagos, em ação da gestão da unidade e lideranças de farmácia e enfermagem, iniciou-se a dispensação por dose individualizada, com fracionamento de todos os comprimidos e eliminação de subestoques. O fornecimento de medicamentos em apresentação oral líquida, é feito por troca de frascos, pela indisponibilidade de área e embalagem para fracionamento, sem dispensa coletiva. O fracionamento de comprimidos e a conferência de medicamentos recebidos para reposição de estoque foram direcionados para o plantão noturno. A triagem de prescrições e separação de medicamentos em doses individualizadas é feita pelo farmacêutico plantonista diurno, ficando a cargo do farmacêutico do período noturno, admissões, alterações e doses a critério, que ocorram no horário. As adequações de prescrições e intervenções farmacêuticas são preferencialmente feitas no período diurno.
A partir da implantação do sistema de fornecimento de medicamentos por dose individualizada, as reservas de medicamentos nos setores foram eliminadas, assim como a solicitação coletiva. Após 1 ano de implantação, foi possível verificar redução no consumo de medicamentos, especialmente daqueles de uso oral, cujo fornecimento ocorria por meio de cartelas inteiras. Ao comparamos o ano de 2022, no qual as doses não eram exclusivamente individualizadas, ao de 2023, no qual o sistema estava implantado, observamos redução no consumo de: 35% de hidróxido de alumínio, suspensão oral (antiácido), de omeprazol 20mg, capsula (antiulceroso) e de captopril 25mg, comprimido (anti-hipertensivo); de 27% de anlodipino 5mg e losartana 50mg; 22% de carvedilol 25mg e 12% de hidralazina 25mg, todos comprimidos e anti-hipertensivos. Vale destacar, que o número de internações em 2022 e 2023 foi muito próximo, variando 2% no período e mantendo perfil de atendimento, majoritariamente idosos, hipertensos, cardiopatas e portadores de doenças metabólicas. Dados referentes a valores não foram mencionados por, no sistema de controle de estoque, divergirem dos valores efetivamente pagos. Além da redução no consumo, a análise diária das prescrições, pelo farmacêutico, permitiu aumentar a barreira para possíveis fatores relacionados à segurança do paciente, como identificação, posologia, dose, forma farmacêutica, disponibilidade dos medicamentos, interações e incompatibilidades específicas do paciente.
A implantação do sistema de fornecimento de medicamentos por dose individualizada permitiu racionalizar o uso de medicamentos, especialmente os orais e os de maior demanda da unidade, considerando o perfil dos pacientes, reduzindo consumo e aumentando a segurança do processo, no que se refere a análise de prescrições médicas pelo farmacêutico. Contudo, estabelece um desafio em relação à escassez de recursos materiais e humanos disponíveis na unidade, interferindo e comprometendo a qualidade do serviço prestado pela Farmácia Hospitalar e a segurança do paciente no processo de administração. Estrutura física em desacordo com a legislação, indisponibilidade de materiais e equipamentos, como sistema de prontuário eletrônico, etiquetas e impressoras compatíveis, embalagens e área específica para fracionamento, funcionários insuficientes para atendimento 24 horas diariamente e em compatibilidade com as atividades realizadas, estão entre os pontos críticos de implantação enfrentados ainda hoje. Por fim, entende-se que uma gestão hospitalar capaz de oferecer serviços pautados pela qualidade, com uso racional de recursos, deve priorizar serviço de Farmácia Hospitalar preparado e equipado para execução da atividade técnica com excelência.
Gestão, segurança do paciente, farmácia hospitalar
MARIIA TERESA ALVES DE AGUIAR SANTOS