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A organização dos fluxos assistenciais em Saúde Mental e Deficiências constitui um dos principais desafios do SUS municipal, especialmente em territórios com múltiplos pontos de atenção e elevada complexidade de demandas. No município de Bertioga (SP), evidenciou-se a necessidade de uma ferramenta que qualificasse os encaminhamentos, reduzisse a desarticulação entre serviços e otimizasse tempo e recursos da rede. Nesse contexto, foi desenvolvido o e-Fluxo, um Sistema Digital de Fluxos em Saúde Mental e Deficiências, cujo desenvolvimento se iniciou em junho de 2025, e atualmente implementado no âmbito da Secretaria Municipal de Saúde de Bertioga. A experiência ocorre em toda a rede municipal de saúde, envolvendo Atenção Básica, Atenção Especializada, Assistência Complementar, Atenção Ambulatorial Especializada, Vigilância em Saúde e setores administrativos estratégicos, como Regulação, Faturamento e Assistência Farmacêutica. O e-Fluxo foi construído a partir de meses de levantamento de dados e escuta das equipes multiprofissionais, gestores e técnicos do SUS municipal, considerando as singularidades do território, as demandas mapeadas e o diagnóstico situacional. A ferramenta beneficia diretamente o manejo técnico de profissionais de saúde e o acesso de usuários com demandas em saúde mental e deficiências a equipamentos apropriados, ao promover encaminhamentos mais adequados, ágeis e coerentes com a rede disponível, fortalecendo a integralidade do cuidado no SUS municipal.
a) Reduzir encaminhamentos inadequados, duplicidades, retrabalho e descolamento do cuidado em rede; b) Reduzir substancialmente filas de espera de equipamentos de saúde para casos de saúde mental e deficiências; c) Qualificar e padronizar os fluxos de encaminhamento em saúde mental e deficiências no SUS municipal; d) Apoiar os profissionais de saúde na tomada de decisão clínica e administrativa relacionada aos encaminhamentos saúde mental e deficiências; e) Fortalecer a apropriação técnica do cuidado em saúde mental e deficiências pelos profissionais do SUS municipal; f) Fortalecer a integração entre os diferentes níveis de atenção e setores do SUS local; g) Otimizar tempo, recursos e logística entre os serviços da rede municipal; h) Consolidar uma ferramenta acessível, atualizável e compatível com a realidade territorial do município.
O e-Fluxo foi desenvolvido de forma colaborativa a partir da coleta e sistematização de informações produzidas por equipes de saúde, gestores e setores estratégicos da Secretaria Municipal de Saúde de Bertioga, sob coordenação da Diretoria de Assistência Complementar. A metodologia teve como ponto de partida o mapeamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) municipal, com identificação dos serviços existentes, dos fluxos assistenciais e dos principais gargalos relacionados aos encaminhamentos em saúde mental e deficiências. Com base no perfil epidemiológico e diagnóstico situacional do território, foram definidos critérios clínicos, funcionais, territoriais e administrativos para orientar encaminhamentos na rede, organizados em uma lógica de decisão estruturada que articula seis fatores: idade, microárea, gênero, nível de autonomia e funcionalidade, tipo de demanda e especialidade solicitada. Essa lógica foi traduzida em um sistema digital em JavaScrip no formato formulário web, acessível em computadores, tablets e smartphones — inclusive offline. O sistema não faz diagnósticos nem decisões automatizadas, mas organiza informações pré-definidas para apoiar profissionais na escolha do fluxo assistencial. Ao ser preenchido e acionado, o e-Fluxo indica o ponto de atenção da RAPS mais adequado para cada caso singular. A experiência é um projeto que envolve profissionais de diversas categorias da rede municipal, possuindo aprimoramento contínuo através de devolutivas das equipes.
O e-Fluxo consolida uma experiência estratégica e inovadora na organização dos fluxos em saúde mental e deficiências no SUS de Bertioga, produzindo mudanças estruturais no modo como a RAPS organiza o acesso, a regulação e a continuidade do cuidado. Ao transformar critérios clínicos, funcionais, territoriais e administrativos em uma lógica de decisão clara, compartilhada e acessível, a ferramenta qualificou de forma decisiva os fluxos assistenciais e enfrentou um dos principais desafios históricos do SUS: o encaminhamento adequado no tempo oportuno. O e-Fluxo fortaleceu o apoio técnico aos profissionais, reduziu significativamente encaminhamentos inadequados, retrabalho e sobrecarga dos serviços, e ampliou a resolutividade da rede, com uso mais racional dos recursos disponíveis. A padronização de informações essenciais qualificou a comunicação entre equipamentos, promovendo maior integração entre diferentes níveis de Atenção e de pontos da RAPS, assegurando maior coerência entre as necessidades singulares dos usuários e os serviços apropriados. Destaca-se o aumento do suporte nos processos de decisão e a melhoria da experiência de cuidado aos usuários. Seu caráter dinâmico, flexível e continuamente atualizável permite ajustes a partir das devolutivas das equipes, garantindo aderência à realidade territorial. Trata-se de uma prática exitosa, sustentável e replicável, com alto potencial de impacto para o fortalecimento da gestão do cuidado e da integralidade da atenção no SUS.
A experiência do e-Fluxo demonstra que soluções tecnológicas simples, construídas a partir da escuta das equipes e da realidade local, podem gerar impactos relevantes na organização do SUS municipal. O sistema reafirma a importância da gestão do cuidado baseada em fluxos planejados, integrados e territorializados. O processo evidenciou que a qualificação dos encaminhamentos não depende apenas de normativas, mas de ferramentas que dialoguem com o cotidiano dos serviços. Em apenas 06 (seis) meses, o e-Fluxo se consolidou como instrumento estratégico de apoio à política municipal de saúde mental e deficiências de Bertioga, com potencial de expansão para outras áreas e setores das políticas públicas. Como expectativa futura, planeja-se sua integração aos sistemas oficiais de prontuário eletrônico e gestão em saúde, bem como sua ampliação para outros campos assistenciais, inclusive intersetoriais, contribuindo para um SUS mais resolutivo, integrado e centrado nas necessidades dos usuários.
e-Fluxo, Fluxos, Encaminhamentos, Saúde Mental
BRUNO GONÇALVES DOS SANTOS