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No município de Embu das Artes – SP, em particular no território das UBS Vista Alegre e UBS Jardim Mimás houve a identificação de uma demanda em saúde junto ao público infanto-juvenil em situação de risco psicossocial ou em importante sofrimento psíquico. Tanto o serviço de psicologia no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS) quanto a gestão da RAPS se propuseram a construir um espaço potente de escuta às demandas dos infantes e de seus familiares, que possibilitasse o monitoramento de alguns casos complexos, além de auxiliar na construção do psicodiagnóstico de alguns casos.Uma característica do público infanto-juvenil em intenso sofrimento psíquico e de risco psicossocial é a percepção de um brincar alterado em alguma medida. Crianças que apresentam um desenvolvimento psicomotor atípico, seja por um potencial quadro psicopatológico, ou de impasse de desenvolvimento, ou quando tem o seu desenvolvimento psicomotor normal interrompido por uma situação radical de violência podem apresentar um brincar alterado, ou descontextualizado, para o supostamente esperado para sua faixa normal de desenvolvimento, levando em consideração o seu contexto sociocultural e territorial. Os grupos de psicoterapia infantil da APS acabam por ser muito específicos e não supriam essa demanda. Optou-se criar um grupo aberto, mas também receberia os casos críticos a serem monitorados.Tendo sempre no horizonte uma escuta clínica alinhada a Atenção Psicossocial nesse processo.
Esse dispositivo grupal tem como objetivo possibilitar um espaço de escuta e de monitoramento de casos complexos em Saúde Mental Infantojuvenil com o recorte territorial. Visa observar a relação das crianças do território em seu processo de brincar e de intervir para que esse seja potente em seu processo de subjetivação e de construção de laços protetivos e afetos junto a comunidade que está inserida. Torna-se psicoterapêutico em casos singulares e de proteção social para outros, conforme a particularidade de cada demanda que as crianças acabam por apresentar durante os encontros. Primordialmente a vigilância territorial dos casos complexos que podem estar sendo acompanhados, simultaneamente, em outros dispositivos intra e intersetorial, ou até mesmo pelo Ministério Público Estadual ou pelo Conselho Tutelar.
Para a execução desse grupo operativo se fez necessário a articulação de um espaço físico capaz de comportar as crianças, os facilitadores, e que pudessem ser realizadas oficinas lúdicas com auxílio de brinquedos diversos, e de material para expressão gráfica. Próximo da UBS Jd. Mimás há uma ONG que possui um salão com tais características. Em uma reunião com a direção da instituição foi possível pactuar a parceria, apresentaram como contrapartida que as crianças que já frequentavam pudessem também participar. Todavia isso nos auxilia ao garantir crianças com o brincar, supostamente, “normal”. Esse elemento seria motriz do processo grupal, na tentativa de construir um campo de desenvolvimento proximal potente a apresentar outras formas de brincar possíveis aos infantes em risco psicossocial. Outro fator fundamental é a participação do psicólogo e de de outros facilitadores, que em nosso contexto foram os Agentes Comunitários em Saúde(ACS), eles se disponibilizaram em duplas que se revezavam. Pela característica de ser um grupo heterogêneo e de livre demanda observamos crianças em momentos diferentes de seu processo de brincar e somente um facilitador acaba perdendo as nuances e necessidades do grupo. A mediação de conflitos e a suas problematizações junto ao público são constantes e fazer isso de forma solitária é de baixa eficácia. Nomeamos esse grupo de “Brincar em família” e sua frequência é semanal.
Durante esses meses que o grupo vem ocorrendo pudemos acompanhar cerca de 12 crianças, em média, por encontro, desses 5apresentam alguma alteração no seu processo de desenvolvimento psicomotor e de sofrimento psíquico significativo, possibilitando a troca de impressões entre os profissionais da APS com o Serviço de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (SAPSI), ou com o CER no processo de investigação diagnóstica ou no processo de reabilitação psicossocial desses sujeitos. Reforçando condutas, elucidando dúvidas e fortalecendo a adesão ao tratamento. O fortalecimento dos vínculos entre as crianças e seus responsáveis se destaca como resultado desses encontros, muitos desses não apresentavam tempo em seu cotidiano de brincar com seus filhos ou que tem dificuldade de brincar, seja por ter em sua história de vida o seu direito de brincar cerceado pelas demandas da vida ou porque os filhos apresentam dificuldade de partilhar e produzir trocas subjetivas significativas, como em alguns graus de suporte mais elevado de TEA ou de Deficiência Intelectual. Como espaço de vigilância e de intervenção precoce junto aos casos de risco social, se mostrou eficaz ao poder intervir ou notificar os equipamentos de proteção à infância em tempo ótimo em caso de percepção de novas violações de direito. Maior parceria das famílias à ONG, que favoreceu a divulgação do seu trabalho junto ao banco de alimentos do município e de segurança alimentar às famílias acompanhadas pela CRAS da região.
A atuação do psicólogo sob a ética da Atenção Psicossocial, à luz da reforma psiquiátrica brasileira e da luta antimanicomial, não deve se limitar ao modelo tradicional dos atendimentos individuais, que não levam em conta a realidade social que nos cerca. O sofrimento mental se dá em consonância com as determinações sociais do processo saúde-doença. As condições de saneamento básico, o acesso a alimentação saudável financeiramenteacessível, a moradia e o acesso aos serviços públicos como outros não se aplicam de forma isolada a um indivíduo, mas sim para todos em um território. Dessa forma as atuações individuais e descontextualizadas acabam por alimentar o fetiche ao consultório privado dos convênios de saúde, mas que acabam por ser iatrogênicos. O mote de questões coletivas se resolvem de forma coletiva se faz imperativo. As demandas e particularidades da infância não são diferentes. Atuar de forma coletiva não exclui a singularização de cada sujeito em seus processos de subjetivação. O grupo exposto, em sua prática, afirma essa lógica outra do Paradigma Psicossocial e se faz potente para as demandas do cotidiano da infância e da juventude.
saúde mental; infância; atenção básica; acesso ava
Gabriel Krahembuhl Salvador, Bárbara Bella Urban, Edma Nascimento Souza, Maivia Pereira Santos